sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Alexandre O'Neill





Há muitos poetas portugueses que precisam ser descobertos no Brasil. Como há muitos poetas brasileiros, certamente, que também precisam ser descobertos em Portugal. Não é o fato de interdependência literária; é o fato de intercâmbio literário. Porque, e disso todos já sabem, já apartamo-nos de determinados moldes europeus, inclusive o molde português, há algum tempo e temos um rico sistema literário, principalmente quando nos referimos à poesia.

No passado 19 de dezembro, na fan page do Letras no Facebook, lembramos do aniversário de Alexandre O’Neill, nascido em 1924. Foi quando, pesquisando sobre sua biobliografia, encontramo-nos com um poeta com vida integralmente dedicada ao fazer literário, ultrapassando, por todos os ângulos dos limites o gênero no qual mais destacou. E gênero no qual se iniciou, ainda em 1942. Cita Laurinda Bom, em texto para a Revista Colóquio/Letras, que O’Neill a convite de Ribeiro Couto envia-lhe os poemas publicados na 6ª edição da Revista Litoral, lidos por Almada Negreiros como algo que o então jovem deveria ‘tomar a sério’. Mas, ainda antes da publicação na Litoral os três primeiros poemas seus são publicados no jornal Flor do Tâmega.

A importância de O’Neill para a literatura portuguesa nasce com sua aproximação com o movimento surrealista francês, do qual terão participado ainda nomes como Mário Cesariny e Herberto Helder. Já na metade do século XX, o grupo, assessorado por António Ramos Rosa e Egito Gonçalves, o poeta aparece numa publicação coletiva que se tornou símbolo de um dos grupos do Surrealismo em Portugal, a revista Árvore.

Durante muito tempo, O’Neill, descendente de irlandeses e nascido em Lisboa, trabalhou, depois de frequentar o curso de pilotagem na Escola Náutica, na Previdência, depois nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian e, mais tarde, como técnico de publicidade. Nas Letras, foi cronista semanal do Diário de Lisboa. E seu interesse pelo surrealismo data de 1947, em duas cartas: numa aparece dizendo possuir já os Manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. É nesse mesmo ano que ele une-se a Cesariny e Mário Domingues e começam a fazer experiências a nível da linguagem, nessa linha estética: publicam Cadáveres esquisitos e diálogos automáticos.



Um depois, ao lado de José-Augusto França, António Pedro e Vespeira montam o Grupo Surrealista de Lisboa. Depois da dissidência entre os do grupo e sua subdivisão em dois, é organizada uma exposição em que Alexandre O’Neill publicou uma obra que é considerada pela crítica, paradigmática do movimento em Portugal, A ampola miraculosa. É sua primeira obra e foi também a primeira que integrará os Cadernos Surrealistas.

A extinção do grupo do qual O’Neill fez parte e do grupo dissidente, isso depois de 1952, não terá sido suficiente para um aplainamento do surrealismo em Portugal porque o próprio poeta continuou publicando trabalhos que foram considerados por ele como dessa estética. Mas terá de chegar, seis anos depois, o livro No reino da Dinamarca, para ser consagrado como poeta. Daí, se seguiram Abandono vigiado, Poemas com endereço, Feira cabisbaixa, De ombro na ombreira, Entre a cortina e a vidraça, A saca de orelhas, As horas já de números vestidas e Dezanove poemas, esses dois últimos acrescidos as antologias editadas em 1981 e 1983. Na prosa foi autor de As andorinhas não têm restaurante e Uma coisa em forma de assim.

A seguir apresentamos um catálogo com inéditos do poeta recolhidos de edições da Revista Colóquio/Letras, cf. poderão observar nas referências.