quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pelos 96 anos de Manoel de Barros



Hoje, 19/12, Manoel de Barros completa exatos 96 anos. Já desde o começo da manhã estivemos publicando fragmentos de O livro das ignorãças na nossa fan page no Facebook. Justa homenagem, é verdade. Mas, ao revirar alguns livros na estante, no instante de procura por este livro, encontramo-nos com um pequeno livro, quase um opúsculo, do escritor Ondjaki, há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma e outras descoisas), livro que, olhado de relance, tem uma proximidade medonha com o tom poético do poeta brasileiro. Evidente que dedo de Ondjaki está já aí nesse reinventar de palavras.

Pois então, recortamos desta edição o poema de abertura, dedicado a Manoel de Barros e uma nota do autor sobre o encontro seu (de certo modo foi um encontro) com o próprio autor d'O livro das ignorãças.

Chão
palavras para manoel de barros

apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão, muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.
***

oxalá o tempo não entorne sobre mim um esquecimento que me apague das memórias o dia e a emoção de ter recebido o postal de manoel de barros.

havia-lhe enviado uma carta inesperada (para ele e para mim), onde lhe dizia, de coração aberto, que gostaria que ele lesse este livro e tecesse algum comentário. manoel foi curto, respondendo-me num simplicíssimo papel branco recortado à mão.

agradeceu-me a carta, referiu que estava a ler a obra, porém, não foi brando, e avisou: "há exageros." numa distante simpatia, manifestou, logo de seguida, a sua delicadeza: "não vou nomeá-los." eu sorri. aquelas palavras azuis sobre o branco iam ao encontro da ideia que eu tinha da sensibilidade do poeta.

tão suave como os próprios bichos que convida para os seus livros, deixou-me isto no ar: "há em você a consciência plena de que poesia se faz abandonando as sintaxes acostumadas e criando outras. são as palavras que guardam a poesia, nãos os episódios. palavra poética não serve para expressar ideias - serve para cantar, celebrar."

frase depois, parabenizando-me acerca das manobras feitas com as palavras, despediu-se com um afectuoso abraço. ao manusear aquele postal, senti que o destino me entregava algo.

ainda que manoel de barros não se revisse no papel de padrinho (como lhe chamei) do há prendisajens, em mim essa ideia se havia já fixado. os poemas tinham aparecido entre brumas da linguagem de manoel - entre bichos, entre ambiências minúsculas. deixava-me descansado ter-lhe falado sobre isso. ao telefone, mais tarde, cedi à tentação de lhe pedir uma qualquer espécie de nota de abertura. ele sorriu: "você me desculpe, mas eu não sou crítico literário..."; e chamou-me "camarada angolano".

ainda bem, manoel, que a sua sensibilidade de poeta reciprocamente se dilui na sua sensibilidade de pessoa. você é um bicho muito humano mesmo...!

As várias faces de "Alice no país das maravilhas" - Parte 7



Foi revirando nosso caderno de notas de ideias para publicações no Letras que encontramos “Alice por Arthur Rackam”; quem não nos acompanha diariamente ou mesmo quem a isso se dispõe lembramos que fizemos durante seis semanas seguidas uma espécie de homenagem ao clássico de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, que neste ano de 2012 fecha exatos 150 anos. Visitamos os traços e as formas de John Tenniel, Salvador Dalí, Peter Newell, entre outros. E, então, agora, encontramo-nos com esta anotação que seria a continuidade da série.

Como não há problemas nisso de continuidade, do contrário, saímos é ganhando com descobertas assim aleatórias, vamos aos desenhos feitos por Arthur Rackam, não sem antes saber mais quem é esta personagem e sobre o processo de recriação pelo universo imagético de Lewis Carroll.

Arthur Rackam foi um inglês ilustrador que deixou muitos trabalhos reconhecidos para obras igualmente reconhecidas. Fez artes na Escola Lambeth ainda quando tinha seus 18 anos e era escriturário no Westminster Fire Office. Assumiu definitivamente a profissão de ilustrador ao lado da de repórter em 1892, mas seus primeiros trabalhos publicados vieram ainda nos idos 1883. Além de Alice no país das maravilhas compôs ilustrações para os Contos dos Irmãos Grimm, Peter Pan, As viagens de Gulliver, alguns contos do Edgar Allan Poe, entre outros.

As ilustrações para a obra de Carroll foram feitas para uma edição de 1907. Como os outros ilustradores, Rackam deve ter olhado para o universo infantil de seu tempo e projeto uma Alice moderna; os traços sugerem uma menina agitada e com roupas diferentes das bem comportadas. Já se pode notar que, pelo diferencial, Rackam terá sido um dos que não foram tão bem quistos pelo público do seu tempo, ainda acostumados com o tom adocicado de uma Alice infantil. A Alice do ilustrador inglês sugere uma menina já de idade que beira a mocidade e, apesar dos traços que sugerem agito, também tem uma expressividade romântica, como se esta fosse um adendo para repensar a infantilidade da personagem em desenhos como os de John Tenniel, por exemplo.

A seguir, preparamos um catálogo com 12 de seus desenhos para a obra de Lewis Carroll.