terça-feira, 16 de outubro de 2012

RECONHECIMENTO

Por Pedro Fernandes




Ontem, 15 de outubro, foi dia dos professores. Alguém já terá dito que uma coisa que tem dia para ser lembrada é porque esta coisa não é tão bem quista quanto deveria. Prefiro ir nesta direção, mas prefiro também dilatar essa visão. Quando se há um dia para lembrar de alguém ou alguma coisa e estes não são bem quistos, este dia, serve-nos não apenas para exaltações afetivas, que será uma forma de imprimir destaque ao não-quisto, mas aponta para a necessidade de se repensar o sentido do alguém ou do alguma coisa lembrados.

Então, ainda no território das preferências, eu prefiro ir pela ideia de repensar. E foi isto o que propus quando redigi uma mensagem resposta aos vários comentários e às várias fotomensagens que companheiros de profissão e alunos decidiram, cada qual do seu jeito carinhoso de ser, homenagear. A mensagem foi publicada na minha página no Facebook e é o teor dela que quero repetir por aqui, porque como reza as diretrizes deste espaço, ele me é também de utilidade para mensagens do tipo. A efemeridade das times lines não fará a mensagem ficar visível por tanto tempo e, no blog, ainda se tem certa solidez com o fluxo das postagens. Por isso, a repetição. 

A permanente lembrança do papel professoral é um exercício que nos faz ver o quanto representamos na formação e o quanto essa representação é necessária; isso todos estamos de acordo. Falta apenas aos do escalão estatal a vergonha de saber que um país rico se faz, sim, com valorização profissional de uma categoria que, como todos também acordam, é a base de todas as bases. Esse reconhecimento que parece custar tão caro porque sustaria um estado bruto e alheio ao poder dominante está ainda perdido na fantasia de que somos espécies maternas capazes de abrigar na bolsa marsupial da boa vontade tudo e todos e fazer, como fadas, de giz em punho, o milagre da transubstanciação da ignorância em pilares de avanço em todos os setores sociais. Não. Essa beleza, é uma pena, só existe no brilho das palavras de afeto dos colegas e companheiros que cientes da canoa furada em que estamos sabe bem utilizá-las para confortarmo-nos uns aos outros. Quando na verdade o que nos resta é um grito incontido pedindo uma simples coisa: RECONHECIMENTO.

Mário de Andrade desenhista



Todos conhecem Mário de Andrade com um dos mentores da Semana de Arte Moderna, evento realizado em 1922 e que fecha, neste ano, seus noventa bem vividos anos. Alguns também conhecem a sua poesia. Mas, o Mário foi mais que isso, foi o romancista (quem não lembra do herói sem caráter Macunaíma?), foi o teatrólogo, o crítico de arte, o musicólogo, o fotógrafo... Entre 1927 e 1928 realizou ensaios fotográficos nas regiões Norte e Nordeste que serviram de base para o livro póstumo publicado em 1993 pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB), Mário de Andrade – fotógrafo e turista aprendiz. Foi o criador dos acervos fotográficos do Departamento de Cultura de São Paulo e do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

O exercício nesse território das artes plásticas permanece na altura em que ocupou estes cargos públicos e em 1935, no espaço dos Parques Infantis, criados para as crianças filhas do operariado paulistano, montou um concurso de desenho para as crianças que frequentavam os parques do Ipiranga, da Lapa e o D Pedro e para as que iam à Biblioteca Municipal. Márcia Gobbi, pesquisadora do IEB organizou, não tem muito tempo, uma exposição com estes desenhos e mais de 49 desenhos do próprio escritor que, teria começado a desenhar também quando criança e aperfeiçoado a paixão quando na vida adulta, se aproximou de Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral.

Sobre o tema, na Universidade de Campinas (Unicamp), a própria Márcia desenvolveu sua tese de doutorado tomando como corpus parte desses desenhos propostos e feitos por Mário entendendo que neste trabalho resida uma valorização das manifestações infantis e a busca pelo espírito cultural do povo, que terá levado o escritor ao um ser itinerante país afora, além de um estágio do exercício imaginativo do autor. Mais tarde a tese virou livro: Desenhos de outrora, desenhos de agora – Mário de Andrade colecionador de desenhos e desenhista.

Abaixo, fizemos um curto recorte com alguns desenhos do escritor, disponíveis no acervo on-line do IEB.