segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Na estrada, de Walter Salles

Por Pedro Fernandes



1. Demorou e muito para que o filme chegasse nas telas dos cinemas em Natal. Pelo menos um mês depois de quando já havia saído de circulação nos cinemas nacionais e da esperança dos telespectadores de cá para vê-lo. O caso foi motivo de verdadeiro rebuliço nas redes sociais, em alguns blogs e até jornais de grande circulação no Rio Grande do Norte sobre o descaso que as redes de exibição tem para com seus usuários. Foi o momento oportuno para se questionar as motivações que fazem determinadas produções serem anunciadas, seja nos trailers, seja nos cartazes de corredor e o filme não ter a estreia esperada. Enfim, numa tentativa de se corrigir, ou porque já estivesse fácil demais trazer a aclamada produção de Walter Salles, a coisa aconteceu: quando ninguém esperava lá estava na lista de estreias da semana Na estrada.

2. O retorno de Walter Salles às telas é muito bem acertado, porque fazer um filme com o tema do romance de Jack Kerouac é, de certa maneira, retornar a um ponto de sua carreira, quando compôs a mítica trajetória de Che Guevara pela América Latina em Diários de Motocicleta. Se olharmos de perto, a viagem do revolucionário cubano mantém, de certo modo, suas semelhanças com o perfil on the road, afinal são histórias construídas com uma dorsal principal, a viagem.

3. Apesar de até agora não ter lido o livro de Kerouac, parte da crítica aplaude o filme de Salles justamente pela capacidade de acompanhar de perto, com a mesma força vertiginosa da narrativa, os acontecimentos que dão forma à trama. Outra parte, o critica justamente por isso; o cineasta brasileiro teria não ouvido o conselho do próprio Beat sobre a liberdade de criação. Esse lado acusa o filme de ser repetitivo (apenas um esquema: sexo, drogas, jazz e estrada) o que o faz cansativo e enfadonho.

4. A mim fica a impressão de que, quem assim o acusa é porque esperava, numa produção de cunho pop, que o filme  fosse de natureza mais comercial que artística. Mesmo o diretor não tendo utilizado de nenhum elemento desestabilizador do modo de se fazer cinema contemporaneamente, este é uma produção que já nasceu Cult. A criatividade de Salles, tenho comigo, está em pequenas sutilezas: como o relevo que dá, por exemplo, às mulheres num contexto invadido pela presença masculina.



5. A necessidade pela aventura ou algo que os faça significar existencialmente e, consequente, historicamente, talvez seja o que está por traz do que foi a Beat Generation, movimento do qual o próprio Kerouac foi um dos precursores. Isso também está muito bem assimilado pela grafia da narrativa cinematográfica. Mais que repetir a sequência sexo-drogas-jazz-estrada, Salles experimenta expor aquilo que se passa no interior dessas personagens interessadas em romper com o comum, isto é, aquilo que a viagem produz nas suas vidas pessoais.

6. É possível que eu esteja fazendo uma leitura apressada do filme ou esteja fortemente influenciado pelo o que foram os Beat ou mesmo encantado com outros elementos: a atuação de alguns atores, a fotografia impecável ou mesmo o ritmo do jazz, um elemento há muito distante de minha formação cultural. É possível. Mas, vou na direção contrária de parte da crítica especializada para dizer que Na estrada soube passar através das imagens a intensidade do que foi esse acontecimento desencadeador da cena Beat. Não vejo disfarces de leitura, mas uma tentativa coerente e, ao meu ver, satisfatória, em fazer o romance saltar do livro à tela, sobretudo, daquele instante de sua criação, que nem mesmo o contexto de publicação de On the road já não conseguiu captar. A tentativa, e acertada, em colocar o ritmo de um texto como o Jack Kerouac para o cinema, já seria, também, antes de tudo, algo a ser lido com bons olhos pela crítica que, antes de fazer qualquer coisa, apenas busca limitações e, não raras vezes, reduz a apreciação ao juízo de valor dos defeitos.

Uma garrafa no mar de Gaza, de Thierry Binisti

Por Pedro Fernandes



Se houve uma questão que perpassou boa parte dos filmes franceses exibidos este ano no Festival Varilux de Cinema Francês foi a dos trânsitos identitários e posso, de memória citar, aleatoriamente, o título de alguns desses filmes: Aliyah, Americano, O barco da esperança, Intocáveis, E agora, aonde vamos?, e este Uma garrafa no mar de Gaza.

Pode ser que não seja, neste, como em alguns dos outros citados, uma questão central, mas o tema está lá. Aqui, Thierry Binisti, elege a história de um amor impossível tal qual o dos clássicos que nós já conhecemos, mas, a família rival, é substituída pela pátria e, diferentemente do amor à primeira vista, é um amor que se constrói meio pela passagem do tempo a partir de um acaso; isso porque é a partir de uma garrafa lançada ao mar em Israel e encontrada por um grupo de adolescentes na Palestina, desse simples fato, que se instaura o enredo amoroso.



Percebo que não foi interesse do cineasta tratar meramente da descoberta do amor, mas pela sutileza e talvez pela secular ideia de que o amor vence todos os cercos reais e imaginados, propor uma reolhar para ódio também secular que separa dois países. Mas, também não é interesse discutir politicamente esse ódio e atribuir ao telespectador a capacidade de opinar qual dos dois lados está com a razão. Isto é, parece não haver uma preocupação em reatualizar o mito do amor impossível e nem ser um panfleto sobre a questão Israel-Palestina e o filme conseguirá atingir muito bem o seu pretexto. Antes tudo, até mesmo de uma história de amor, Uma garrafa no mar de gaza quer singularizar a ideia de superação como elemento primordial para revisão das formas identitárias.




A atitude de um dos adolescentes em responder o bilhete disposto na garrafa o colocará diante de Tal, uma francesa que mora com a família em Jerusalém. A troca de correspondências eletrônicas entre os dois num território movediço entre a vida e a morte, já que tanto os moradores de lá, quanto os de cá estão à mercê das bombas, num conflito que é mais impiedoso que o da guerra propriamente dita, porque o limite entre viver e morrer é determinado, mas que naturalmente, artificialmente ao sabor do acaso.

O contato de Naim com Tal, levará o rapaz, filho único e órfão de pai que fora um homem bomba, ao contato com uma nova cultura e a um destino diferente do já elaborado pela família que é, a exemplo do  primo Hakim, casar e continuar levando os negócios da família. Naim trabalha para o tio e com este primo numa confecção com o serviço de transporte e entrega de encomendas. Conhecendo Tal, tem a iniciativa de estudar francês e, dedicado ao idioma, consegue uma bolsa de estudos em Paris. O itinerário dessa conquista é responsável por toda carga emotiva do filme, daí porque entendo ser este um filme sobre a superação. Singular no conjunto de cenas é o cruzamento solitário de Naim da fronteira entre Palestina e Israel, como se denotasse ali, a possibilidade de uma via outra, ou mesmo um ato de resistência que não o de desperdício da vida em nome de pátria.