segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Uma das primeiras edições de Frankenstein





A história por trás da escrita de Frankenstein é famosa. No veraneio de 1816, perto do Lago Genebra, na Suíça, Mary Shelley e Percy Bysshe Shelley foram desafiados por Lord Byron para participar de uma competição para escrever um conto assustador. Mary, de apenas 18 anos de idade, mais tarde, teve a sorte de sonhar acordada as imagens que seriam o ponta-pé para o  seu livro:
When I placed my head on my pillow, I did not sleep, nor could I be said to think. My imagination, unbidden, possessed and guided me, gifting the successive images that arose in my mind with a vividness far beyond the usual bounds of reverie. I saw — with shut eyes, but acute mental vision, — I saw the pale student of unhallowed arts kneeling beside the thing he had put together. I saw the hideous phantasm of a man stretched out, and then, on the working of some powerful engine, show signs of life, and stir with an uneasy, half vital motion.

Foi isto o que, mais tarde, se tornou o núcleo de Frankenstein,  ou O moderno Prometeu, seu primeiro romance publicado em Londres em 1818, com apenas 500 cópias colocadas em circulação.

Quase dois séculos depois, uma primeira edição assinada por Shelley tomou forma entre os livros da biblioteca de Lord Byron. Lord Jay diz como se deu a descoberta: "Eu vi o livro deitado em um ângulo no canto da prateleira de cima. Na abertura, vi a capa com o título, não reconheci o que era de uma vez, folheei o texto, mas foi só quando eu estava revendo à toa o livro, de volta, que olhei para o primeiro espaço em branco e vi a inscrição em tinta preta cursiva, "Para Lord Byron, do autor."

Hoje esta cópia assinada está em exibição no Peter Harrington, um especialista em livros raros de Londres. E lá ele será colocado em leilão, com lances a partir de US$ 575.000. O vídeo abaixo dá mais informações sobre a rara edição.



A vida vai melhorar, de Cédric Kahn

Por Pedro Fernandes


Olhando o currículo de Cédric Kahn é perceptível, mesmo sem ter assistido outras produções suas, que a incursão feita neste A vida vai melhorar tem um caráter inédito, do ponto de vista do enredo. Seu primeiro longa veio em 1993, O bar dos trilhos, selecionado para o Festival de Veneza; depois, Trop de bonheur, O tédio, este baseado no livro de Moravia, depois Luzes vermelhas, outra adaptação literária, agora de uma obra de Simenon, e O avião, um conto infantil e por fim, antes de A vida vai melhorar, Arrependimentos.

A crítica especializada classifica A vida vai melhor como um filme extraordinário. E é mesmo. Contemporâneo demais para o tempo em que foi produzido, uma vez que toma como ponto de partida e faz desse ponto elemento fundamental para o andamento da narrativa, a crise financeira que anda solapando economias ao redor do mundo.

Em cena, Yann, um cozinheiro que descontente com o trabalho e sonhando alto na possibilidade de ser dono de um próprio negócio, se junta à Nadia, uma garçonete libanesa, mãe de um garoto de 9 anos e vão à sorte das economias de anos de trabalho mais uma leva de empréstimos dá um lance na ideia. Esse estágio do filme, é um momento em que dará ao telespectador certa vontade de desistir ir adiante, porque, como se vê, é como se tudo já começasse bem e não pudesse, desse modo, a narrativa conseguir pulso para se desenvolver. Pura ilusão, porque há pulso, sim, para a narrativa andar, porque se uma coisa é verdadeira é que tudo que está bem tem pelo menos duas opções, ou se melhora ainda mais ou se tem um desenfreado declínio. E ótimo é que o título do filme aponta para estas duas possibilidades, porque tanto esperamos que depois desses sucessos positivos iniciais as coisas deslanchem para valer como há a possibilidade que não, que nada tudo isso se desmanche de uma hora para outra. E aqui, a segunda opção é a que se confirma.


Mesmo depois de todo o esforço construído pelos dois, mesmo depois de erguidos todos os castelos de sonhos em torno do sucesso de um belo restaurante à beira de um lago, num parque aos arredores de Paris, mesmo depois de tudo isso, o empreendimento, por exigências burocráticas do Estado precisa ajustar-se a determinados padrões que custariam aos bolsos já esvaziados dos investidores uma larga quantia em dinheiro. E então, tudo vai caminhando para o fundo do poço, numa velocidade que nos deixa com os nervos à solta: desempregada Nadia separa-se de Yann e vai tentar a vida no Canadá, deixando com ele o filho de 9 anos, e Yann vai a todo custo, ainda na crença de recuperar o sonho desfeito lutar, dentro de todas as possibilidades e instâncias.


Nesta terceira fase ganha a cena a criança que, afastada da mãe, convivendo com um estranho num subúrbio de Paris, vai, na nova vida desempenhar uma parte expressiva para o desenvolvimento e desfecho do filme. Entre vender produtos de porta em porta surrupiados pelo padrasto do seu ambiente de trabalho para juntar moeda a moeda o que comer e pagar o aluguel do barraco onde moram, essa criança é o elemento norteador, é a esperança final do próprio Yann porque na companhia que lhe faz, o distrai de um modelo de vida que talvez tomasse se não tivesse a responsabilidade que tem sobre o pequeno. Enquanto todos afundam, a inocência da criança ilumina possibilidades.



Depois de uma fuga que ficamos a nos contorcer na poltrona do cinema que tudo dê certo conforme o planejado de última hora, os dois conseguem fugir para o Canadá, à procura de Nadia, que já há bastante meses não se comunica com os dois. O que eles encontram no novo país? Bem, isso eu não vou contar, senão cometeria uma desfeita. É possível que tudo termine com uma redenção das três personagens; é possível que não, que desfecho não seja tão iluminado assim. Uma coisa é certa: algo bom se anuncia no horizonte, nem que seja um tour de moto para neve, numa paisagem branca, infinitamente branca, anunciando transições.