quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tolstói e os anos de aprendizagem





Qual a idade certa para se aprender um ofício, ou começar a trabalhar numa ideia, ou a mudar o rumo da vida? Alguns concordam que há uma idade certa para tudo, outros dizem que você nunca está velho demais para fazer algo novo. Vou antes de me deter no exemplo de Tolstói dizer um que conheço de cor: José Saramago escreveu seu primeiro romance aos 27 anos. Desestimulado, trocou a ideia de ser escritor de romances pela a de cronista. Exercitou em silêncio o ofício e se tornou um romancista aos cinquenta e tantos quando já havia feito de um tudo e consagrou-se em 1998, com a recepção do Prêmio Nobel de Literatura, o primeiro dado a um escritor de língua portuguesa.

Pois bem, o Magazine, do jornal The New York Times numa publicação do dia 14 de setembro recorreu ao caso de quatro celebridades que fizeram algo de novo nas suas vidas quando já a grande maioria poderia achar que eles não poderiam fazer na idade em que se encontravam: a cientista Marie Curie, pioneira na pesquisa sobre radiação e ganhadora do Prêmio Nobel de Física duas vezes aprendeu a nadar depois dos 50, ensinada pelas duas filhas; Rand Ayn, escritora, dramaturga e roteirista, conhecida no Brasil pelo livro A nascente e o filme Vontade indômita, começou sua coleção de selos aos 60 anos de idade; Miles Davis, o ícone do jazz que aos 20 anos estava na luta contra o vício da heroína, inspirado pelo campeão dos pesos médios Sugar Ray Robins, começou a lutar boxe já na casa dos 30; Dwight D. Eisenhower começou a pintar quando tinha 58 anos.

Tolstói e o que pode ter sido sua primeira bicicleta.

E o exemplo mais inusitado da lista: Tolstói, o autor de Anna Kariênina e Guerra Paz teve sua primeira lição de bicicleta aos 67 anos, um mês depois da morte de seu filho de sete anos de idade, Vanichka, quando recebeu a doação de uma. As aulas de instrução se seguiram todos os dias pela sua propriedade rural e depois de aprender a guiar sozinho o escritor incorporou a prática no rol das suas tarefas matinais. Basta lembrar que veículo na Rússia do escritor era ainda objeto caro e restrito aos das classes dominantes como relata o escritor em “Mas precisa mesmo ser assim?”, texto incluído na coletânea Os últimos dias, em que Tolstói descreve o brilho niquelado da bicicleta e a velocidade que ainda era capaz de assustar os humildes pedestres.

É isto. E você, no que aposta fazer mesmo?



Ouvir Moby Dick




Moby Dick é, sem dúvida, uma das maiores obras da literatura norte-americana, em todos os sentidos. E a dimensão do romance será uma das coisas que faz a obra ser pouco lida, pelo menos na íntegra, já que os dias de hoje estão para as narrativas breves.

No entanto, se você está adiando a obra-prima de Melville desde que se esquivou da leitura na faculdade, talvez você esteja com sorte, só talvez; é que o autor Philip Hoare e artista Angela Cockayne criaram juntos “Moby-Dcik Big Read”, um projeto incrível e ambicioso que quer levar o romance para as massas. E aí, se você entende bem o inglês, está feito.

Para o projeto, figuras famosas como Tilda Swinton, John Waters, Miéville China, Cumberbatch Bento e até mesmo primeiro-ministro britânico David Cameron vão ler as seções do livro em voz alta para ser publicado on-line, criando um audiobook. O projeto vai postar um novo capítulo por dia – e pode desde já ser o seu novo ritual matinal para os próximos 135 dias – juntamente com obras de arte complementares e a partir de uma variedade de artistas contemporâneos. 

Não podemos pensar de uma forma mais indolor (ou mais emocionante) para ler um clássico. Ou melhor, para ouvir um clássico. “Moby-Dick Big Read” já tem on-line o primeiro capítulo, lido por Tilda Swinton e com arte por Marcus Harvey. Basta ir por aqui.

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Não é a primeira vez que obras de grande porte são transferida para outros espaços. Lembra quando comentamos aqui do projeto de transformar o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes em leitura em vídeo no Youtube?