quinta-feira, 13 de setembro de 2012

António Nobre



Já tem alguns dias que tinha interesse de postar na coluna “Os escritores” algumas notas biobibliográficas sobre António Nobre. Desde que, certa vez, li alguns de seus poemas, depois que uma estudiosa da obra de Florbela Espanca apontou para uma relação da obra da poeta com a do poeta português. Em algum momento, a poeta portuguesa se sentia fortemente levada pela capacidade poética de Nobre e não negaria em certa autocrítica  uma incapacidade sua em tornar-se poeta, diante do fenômeno de , única obra que Nobre viu publicada. 

Fac-símile da folha de rosto da primeira edição de ,
editada em Paris, em 1892.
Fonte: Arquivo Digital da Biblioteca Nacional de Portugal.

Relações à parte, o fato é que a crítica não cansará de apontar aproximações de Florbela com Nobre, que é referido logo à abertura do Livro de mágoas e em poemas como “Languidez” nesta mesma obra. Todo grande poeta terá lido os que o antecederam e se sentirá, certamente, limitado pela força dos antepassados. "Barreira" natural de propensão às rupturas e o feitio de novas obras. No caso de Florbela, não deixa de ter certa razão a poeta: , que foi editado na França, em 1892 – tem, portanto, forte influência do simbolismo francês, numa época em que o verso de Mallarmé era o que se produzia em termos de poesia – em terras portuguesas teve sua segunda edição, a que foi publicada seis anos depois, vendagem de mais de três mil exemplares, o que leva a entender que, mesmo passado todos os anos até que venha Livro de mágoas, em 1919, seja ainda Nobre um dos poetas mais presentes.

Pádua Fernandes atribui uma série de características que marcam o grande apelo popular dessa obra: “a linguagem que se avizinha da fala coloquial, a busca de uma identificação sentimental com o leitor ... o patriotismo ingênuo, o catolicismo, a forma cândida como trata o amor e o sexo.” A obra de António Nobre, dirá Paula Morão, na mesma direção de Pádua, “está muito marcada pelas paisagens que conheceu, quer se trate do Douro interior e do litoral a norte do Porto, que conheceu na infância e na juventude, quer de Coimbra, onde começou estudos de Direito que prosseguiria a partir de 1890 na Sorbonne, em Paris”. Todas essas possibilidades deve ter desempenhado, sim, junto aos leitores, um certo apelo à leitura, e fez do livro um Best-seller para a época.

António Nobre em Nova Iorque. Foto de 1897.

O poeta nasceu no Porto, em 1867. Quando terminou os estudos em Paris, em 1893, prestou seleção para o consulado e não chegou a ocupá-lo. Na época já padecia de tuberculose, doença que se agrava a partir de 1895 e levou Nobre a uma peregrinação pela cura da doença em sanatórios nos Estados Unidos, na Suíça, Madeira, e arredores de Lisboa, na casa da família no Seixo e na do irmão Augusto na Foz, no Porto, lugar onde morreu, ainda aos trinta anos de idade.

Apesar de significar nas letras portuguesas, Pádua Fernandes vê a obra de António Nobre como continuidade do que já se fazia em terras portuguesas, outro elemento, aliás, que justificaria o recorde de vendas de seu trabalho. Embora, o mesmo Pádua considere traços para uma linguagem modernista, seja pelo caráter coloquial, seja pela forma como engendra o ritmo no seu verso, seja ainda pelo tom egotista que encontraria com o modernismo de Mário de Sá-Carneiro. Aliás, o próprio poeta em Indícios de oiro, livro findado dias antes de seu suicídio, António Nobre é apresentado no poema “Anto”.

Autor de uma única obra, como foram na literatura portuguesa autores como Cesário Verde e Camilo Pessanha, outros livros vieram postumamente, resultados de significativos textos deixados, como Despedidas, Primeiros versos, além de significativo número de correspondências como as reunidas em 1934 por Adolfo Casais Monteiro.

Abaixo reunimos num pequeno catálogo o poema de abertura do livro , "Antonio" e duas cartas de António Nobre para o seu irmão Augusto do livro Cartas inéditas de António Nobre, a edição sobre a qual me referi anteriormente. Os recortes são da edição fac-símile editada pela Biblioteca Nacional de Portugal e da edição fac-símile editada pela Biblioteca Virtual da Casa Fernando Pessoa, respectivamente.





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O texto de Pádua Fernandes a que me refiro é "Som e sentido das palavras", publicado na edição especial da Revista Entrelivros sobre Literatura Portuguesa; já o texto de Paula Morão está no rol de Figuras da Cultura Portuguesa na página do Centro Virtual Camões.