sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Novas cartas portuguesas" 40 anos depois

As três Marias. Juntas elas revolucionaram o estatuto do texto literário e do ser-mulher.


Nos finais da década de 1960, Eugénio de Andrade publicou em edição bilingue sob o título de Cartas portuguesas, versão para Lettres Portugaises, publicado anonimamente por Claude Barbin, em 1669, e apresentado também como uma tradução, cinco cartas de amor de Mariana Alcoforado a um oficial francês. A jovem era freira e estava enclausurada no convento de Beja.

Lisboa, 1971, Maria Isabel Barreno, já autora de Os outros legítimos superiores, Maria Teresa Horta, Minha senhora de mim, e Maria Velho Costa, Maina Mendes, decidiram escrever um livro a seis mãos. Como "espelho" as autoras tomaram a tradução de Eugénio de Andrade e escrevem Novas cartas portuguesas. As assinaturas das cartas nunca foram reveladas publicamente e a figura de Mariana tinha uma longa representação simbólica para o novo livro. Mulher abandonada, submissa, tomada por um discurso de paixão avassaladora, presa numa relação de amor e devoção, tudo, será mote para que agora as três Marias dê a lume suas Novas cartas.

À época de produção do livro, essas mulheres viviam sob uma nova forma de prisão: primeiro, não só elas, todos os portugueses porque Portugal estava debaixo do regime militar de Oliveira Salazar, que mesmo morto em 1970, era o exemplo maior para o novo governo de Marcelo Caetano que estendia seu domínio para a campanha pelas colônias na África, evento que já se arrastava desde 1961. Todo esse contexto será levado em conta para a composição das três Marias. Um ano depois, o livro sai publicado pelos Estúdios Cor. A obra passara pela censura e foi recomendado que partes fosse deletada, coisa que não se cumpriu, o texto saiu na íntegra.

A edição foi recolhida e destruída pela censura tão logo foi lançada. E o Estado instaura um processo judicial para as três autoras, pelo motivo de conluio e de escrita de um livro com o nome Novas cartas portuguesas, considerado texto de conteúdo pornográfico e atentado à moral pública. 

Dado ao extenso conjunto de fatos em torno do livro, ele foi imediatamente traduzido na Europa e Estados Unidos e se tornou produto simbólico da força feminina contra as impetrações do poder merecendo manifestações e defesa pública conduzida por nomes como Simone de Bauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, entre outros.

Desde 2010, quando lançou-se em Portugal pela Dom Quixote uma edição comemorativa pelos 40 anos do livro, feitos esse ano, a professora e também poeta Ana Luísa Amaral, é responsável por um projeto que agora ganha espaço na web que busca criar o que ela tem chamado de "rede transcultural e internacional em torno do livro Novas cartas portuguesas".

O Projeto "Novas cartas portuguesas 40 anos depois" tem um rede de colaboradores e pesquisadores internacionais que estão no processo de catalogação de material crítico sobre o livro. Visa sistematizar a gênese do Novas cartas com o contexto histórico, político, social e literário do Estado Novo, sua repercursão no Portugal pós-25 de abril, a sua recepção internacional no mais de duas dezenas de países onde teve tradução. Enfim, o livro vai recuperando contemporâneamente a força que merece.

Para ter acesso à ideia, basta ir por aqui.