segunda-feira, 19 de março de 2012

Rubem Fonseca




A primeira vez que li alguma coisa de Rubem Fonseca foi ainda na Graduação em Letras. O livro de contos Secreções, excreções e desatinos. A pior porta de entrada na literatura do escritor mineiro - disseram-me já não uma vez. Talvez seja verdade. E verdade talvez seja também que entrar por um mal livro na vida literária de qualquer seja o escritor pode ser uma faca de dois gumes: ou se intriga e procura ver se outras ruindades literárias formam a prática do escritor em questão ou se intriga também, mas no sentido de abandonar de vez o escritor.

Duas formas mais prevísiveis de se dar a entrar na literatura de algum escritor: lendo-o ou lendo o que a crítica concebeu em relação a obra dele. Pelas duas vias a faca de dois gumes está lá.  Evidentemente que, pela forma segunda o distanciamento operado entre leitor e obra é maior e as chances de desconsideração de obras e escritores é bem maior, evidentemente. A crítica como todo território político tem seus preferidos e sustê-los no altar onde estão é sua tarefa.

Cito um exemplo do que me aconteceu com Jorge Amado: tem sido corrente nos cursos de Letras, cada vez mais, a entrada de leitores pela via da crítica e não da obra. O que é, já sabemos, um defeito dos graves. Todorov que o diga. Pois bem, conheci Jorge Amado pela crítica literária. E influenciado pela sua verdade desencantei-me antecipadamente com o escritor baiano. E li, desencantado, Capitães da areia. Um desastre. Precisei levar alguns anos para retornar a esse romance e ver o quão excelente e grandiosa é a literatura amadiana. Fui inocente, na época, e a crítica venceu-me: vendeu-me uma imagem empobrecida de Jorge.

No caso de Rubem Fonseca, a coisa é menos complexa. Secreções, excreções e desatinos desencantou-me do escritor. E mesmo depois tendo convivido com um amigo no mestrado que tinha a admiração que tenho por José Saramago por Rubem Fonseca, ainda resisti. E resisto. Muito embora tenha me sentido inclinado a ler outra coisa sua. A motivação se deu, é bem verdade, depois desse burburinho de próprio gogó (sempre silenciado) de Rubem quando teve em terras lusitanas como figura importante e premiada por lá. Aí está o centro desse post sobre o escritor que, no dizer de alguns críticos, inagurou uma faceta nova na literatura brasileira. Diria que a versão ultra do urbanismo machadiano. Também pudera. O urbano de Machado (de Assis) era aquela pasmaceira burguesa (se é que tivemos essa classe por aqui).

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Carioca desde os oito anos de idade, Rubem Fonseca é de Juiz de Fora, Minas Gerais. Tem uma vasta obra entre contos, romances e roteiros para o cinema, todos, sempre centrados nos temas que "apontam para o embate dos valores humanos que coexistem na grande cidade, onde a mitolodia urbana imposta socialmente surge em contrapartia à convergência de cenas avassaladoras de sexo e violência." - como bem assinala a professora Fernanda Cardoso.

Formou-se em Direito e exerceu várias profissões antes de se dedicar com inteireza à literatura. Destaque para sua atuação na polícia de São Cristóvão no Rio de Janeiro, onde certamente deve ter recolhido muitos dos fatos que vão servindo de molde à composição dos enredos da sua obra.

De sua produção já se vão publicados 11 romances e 14 livros de contos e crônicas. Entre suas principais obras estão Lúcia McCartney (1967), O caso Morel (1973), Feliz ano novo (1975), O cobrador (1979), A grande arte (1983) e Agosto (1990). Recebeu por cinco vezes o prêmio Jabuti e em 2003 os prêmios Juan Rulfo e Camões.


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O texto da Fernanda Cardoso a que me refiro está publicado no Portal Brasil Escola.

Leia um capítulo do último romance de Rubem Fonseca, O seminarista e saiba outras informações sobre este livro, indo aqui.