quarta-feira, 20 de julho de 2011

A que artista associas teu escritor favorito?

Por Pedro Fernandes

"Carta de amor", Jean-Honoré Fragonard
A pergunta veio pelo colunista do El País Winston Manrique Sabogal depois de lido do escritor irlandês Colm Tóibín um artigo para o Babelia, caderno cultural daquele jornal. O artigo em questão tratava do poder subterrâneo da literatura de Hemingway por ocasião do cinquentenário de sua morte feitos no passado 2 de julho. Num determinado fragmento deste texto, Tóibín retoma um fragmento de uma entrevista do escritor americano em que ele afirma que queria escrever como Cézanne pintava. 

"Se Ernest Hemingway queria ser uma espécie de Cézanne da literatura, isto é, escrever com a força e a técnica pictórica do grande artista francês do pós-impressionismo, creio que conseguiu em muitas de suas obras, mas com que artista lhe haveria gostado de parecer-se Homero, Shakespeare, Cervantes, Austen, Proust ou a Woolf?

Como é muito difícil saber a resposta, me tem ocorrido propor um exercício de sinestesia literária-artística com a seguinte pergunta: Com que artista poderíamos associar escritores como Tólstoi, Fitzgerald, Joyce, García Márquez, Mishima, Henry James, Kawabata, Pound, Balzac, Dostoiévski, Yourcenar, Morrison, Marías, Byron, Stendhal, Brontë, McCarthy, Lorca, Pavese, Mann, Faulkner ou o autor que gostamos?"

Trata-se de uma leitura de pura intuição sensitiva; recolher de uma imagem a imagem captada pela forma da escrita. Nisso, o observador não necessita apenas de um bom faro nos dois mundos artísticos, o da literatura e o das artes plásticas, mas, uma compreensão crítica acerca deles.
"Dança dos aldeanos", Rubens

O fato é que, ao final desse exercício, Sabogal associa os trabalhos literários e artísticos de dois escritores e pintores: Jane Austen a Jean-Honoré Fragonard e Gabriel García Márquez a Rubens. A primeira relação vem pelos traços delicados do pincel do pintor francês, a riqueza nos detalhes e maneira como espalha as cores e as sombras sobre a superfície da tela.  

Já quanto a relação do Prêmio Nobel colombiano com o pintor flamengo diz Sabogal, "encontro na vitalidade da pintura, na força do movimento de suas personagens e do quadro em geral; pela vida que move e palpita em ambos, onde nunca há nada parado, imóvel, e em muitos deles sucedem várias coisas a uma só vez, e cada fragmento está num só instante em algo que acaba de acontecer e algo que vai acontecer no futuro. Sugere passado e futuro."

*
A relação estabelecida por Sabogal e a pergunta que lança ao seu leitor o tema, levou-me a refletir sobre qual pintura eu associaria (ou pudesse ver) José Saramago. E eis que me volto para as telas do brasileiro Arthur Piza; alguns de seus trabalhos ilustram as capas das recentes edições do escritor português publicadas no Brasil pela Companhia das Letras.

Talvez eu esteja diretamente influenciado por essa relação já pré-estabelecida. Mas, o encontro da literatura saramaguiana com as telas de Piza ocorre porque consigo ver nos dois a necessidade de captar tudo aquilo que lhe cerca num só close; além, é claro, do caráter sempre inacabado e transitório que oferece a obra dos dois artistas, mais a aplicação de materiais de relevo estranho à tessitura natural da narrativa desenvolvida. Isto é, um e outro buscam traduzir uma simultaneidade, como se tudo ocorresse a um só instante e beneficia-se para isso diversas matizes externas ao material principal de sua lida.

Aquarela, Arthur Piza
E mais: da mesma maneira que a escrita saramaguina se mostra como uma escrita de sugestões, as telas de Piza, pela incerteza do elemento pictural, também nos são sugestões. Ambas as artes são um bricoleur - isto é, seus cultores se utilizam de meios e matérias-primas ao alcance da mão do artista, não realizando seu objetivo com a obra a partir de um projeto elaborado previamente, mas daquilo que encontra e organiza para sua composição. Ambas possuem como característica uma composição heteróclita, que mesmo sendo complexa, extensa, possui uma simplicidade, uma limitação. E o resultado alcançado é sempre o imprevisto ou o sugerido.

Nos dois está a certeza de que o espectador não é figura passiva ante o que o visualiza, mas é interventor, construtor da tessitura da obra. Agora, dito isto, volto a pergunta e deixo aberta para o leitor. E você? A que artista associas teu escritor favorito?