terça-feira, 5 de julho de 2011

Os desenhos de Kafka

"O pensador". Kafka incluiu esse desenho numa carta para a companheira,
Felice Bauer, de janeiro de 1913.



"Meus desenhos não são imagens, são uma escritura privada"
(Franz Kafka)

Editado em Espanha, os leitores de Kafka podem admirar uma outra face da obra do escritor tcheco: a dos desenhos. A obra lançada esta semana reúne um conjunto de 40 ilustrações que marcam uma retrospectiva do trabalho com desenho feito pelo autor de A metamorfose.

O interesse e a paixão do escritor pelo desenho, e pela arte em geral, foi tal que com 24 anos ainda não sabia se queria ser um sujeito dedicado a criar imagens como esta que abre estas ilustram esta postagem.

Nos trabalhos apresentados em Franz Kafka: dibujos não é possível, na grande maioria dos casos, precisar a técnica empregada pelo escritor - se feito a lápis ou a pincel. Sabe-se apenas que seus desenhos são lidos ora como expressionistas pelo seu amigo e artista Fritz Feigl, ora como realista pelo também seu amigo e editor Max Brod. 

"Esgrima", 1917
Por falar em Max Brod, ele sempre quis publicar uma edição como esta que vem a lume agora, mas nunca pode. O amigo acreditava plenamente no potencial do escritor para o desenho; Kafka era encantado pela arte japonesa, fantasiava com obras de Ingres e tinha profundo interesse pela pintura de Van Gogh. Esta relação com o mundo artístico levou o escritor a ser convidado duas vezes por artistas que tinham interesse em tê-lo como modelo nu, trabalho que nunca se sentiu encorajado a assumir.

Kafka teve aulas de desenho na escola básica, mas foi na universidade quando descobriu o gosto por essa expressão artística; sobretudo nos últimos anos da carreira de Direito (1903-1905) quando chateado com as aulas se punha a criar "enigmas" ou "borrões", como os chamava, na margem de seus cadernos. Esta época é a central para os desenhos trazidos neste livro; embora também os editores tenham decidido incluir desenhos feitos em postais, cartas, cadernos e blocos de notas.

Kafka era muito crítico com seus desenhos e, segundo Gustav Janouch, em 1922, dois anos antes de sua morte, se referiu a eles nos seguintes termos: "Não são desenhos para mostrar a ninguém. São apenas hieróglifos muito pessoais e, portanto, ilegíveis"; "Minhas figuras precisam das proporções espaciais adequadas. Não têm um verdadeiro horizonte"; "Os desenhos são rastros de uma paixão antiga, ancorada muito longe".

Ao todo são quarenta peças apresentadas com textos que criam um álbum de dupla leitura. O resultado não é de longe comparável com sua obra literária, mas é valioso conhecer o resultado  de um segredo pertencente a um homem como Kafka.


Desenhos de Franz Kafka