quarta-feira, 18 de maio de 2011

Miacontear - A despedideira

Por Pedro Fernandes



É sim um conto de despedida. Como narrador, novamente temos uma mulher. Esta não está para narrar sua submissão a uma rotina por um homem ("O cesto"), nem está para narrar algum homicídio ("Meia culpa, meia própria culpa"), o que esta mulher se põe a contar é sobre o início e desfecho de um amor.

A ideia de submissão, entretanto, é a mesma, ainda que esta, agora, não padeça fisicamente, nos gestos e na fisionomia, de atitudes de machismo sobre ela, como é visível, por exemplo, nas duas outras mulheres citadas. Mesmo que o seu desejo seja de um homem ao seu lado - "nuvem", "homem em breves doses", "e, vez enquando, seja mulher, tanto quanto ela"; e mesmo que ela tenha conseguido esse homem, que é este amor que agora é conta que perdeu, é latente sua submissão psicológica a ele construída por um muro de lembranças que é o próprio muro que sustenta sua subjetividade.

"Deixem-me agora evocar, aos golpes de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado." ¹


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¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.53.