terça-feira, 29 de março de 2011

Miacontear - O homem cadente

Por Pedro Fernandes

ilustração: Nikolaus Heidelbach
Este é o segundo conto de O fio das missangas. Misto de sonho kafkiano, o conto dá contas de um fato insólito: Zuzé Neto, amigo do narrador, 'cisma' e de um hora para outra, já no início do conto, "está caindo". Vale dizer que a linguagem, nesse conto, é seu ponto de reflexão maior. Ao usar o 'caindo' como expressão de um fato e para uma forma verbal - cair - que,  pelo sentido que carrega, supostamente não lhe permite um gerúndio, o narrador acaba por ressaltar o poder demiúrgico da palavra. "Aquele gerúndio era um desmando nas graves leis da gravidade: quem cai já caiu" ¹ A palavra que rege o mundo e o constitui também é capaz de por em xeque as próprias leis fechadas das ciências exatas.

E Zuzé Neto flutua no ar, "como água real", em artes de aero-anjo". O fato é suficiente para instaurar o espaço inominado no centro dos interesses. Em torno da forma aero-angelical que se torna um evento discursivo se inaugura toda a sorte de atividades - reitera-se a balbúrdia dos discursos religiosos e políticos, reegendram-se novas assuntos para conversa dos desocupados, montam-se novas formas de comércio... E num parágrafo tudo se desfaz. O narrador assume o posto de comando da narrativa e aproveitando da atmosfera da história reduz tudo a um sonho. Quem está caindo e todo esse conglomerado que se forma em torno do acontecimento se desfaz num ponto: "ponto um ponto. Nem me alongo para não estigar engano. Pois tudo o que vos contei, o voo de Zuzé e a multidão cá em baixo, tudo isso de um sonho se tratou. Suspirado fiquemos, de alívio. A realidade é mais rasteira, feito de peso e de pés na terra." ²

O voo de Zuzé além recobrar o espaço de concretude da palavra e sua capacidade de moldar o real sensível é uma bela metáfora de que os sonhos pairam sobre a realidade rasteira e por esse fato são eles necessários ou materialidades da qual devemos, sempre que possível, tomar posse, dado o poder que tem de interferir no curso da nossas existências.


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¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.15
² idem, p.18.