segunda-feira, 7 de março de 2011

Flannery O'Connor



Flannery O'Connor foi "apenas uma contadora de histórias", segundo suas próprias palavras. Mas ela não era apenas uma contadora de histórias. Em sua prosa, Flannery O'Connor encontrou, na verdade buscou, resgatar aos olhos de seus leitores, o estranhamento com que a Graça, o Mal e o Pecado Original, atuam neste vale de lágrimas. Esse estranhamento ocorre em nossas vidas quando o grotesco, a violência ou nossa incapacidade de reconhecermos que há uma inexpugnável diferença entre o que crermos ser o certo, e o que é certo perante os olhos de Deus.

Este é o chamamento, o furor violento que Flannery usa tão bem em suas histórias para fazer-nos ver o bizarro que nos cerca, e assim, aceitarmos melhor nossa parcela nessa realidade criada para nós.

Nascida no sul dos Estados Unidos (cujo imaginário coletivo remonta racismo, intolerância, lugar onde a odiosa América branca e conservadora cria e recria seus pecados ), filha de pais católicos, apaixonada por pássaros, especialmente o pavão (pássaro que é simbolo do Cristo na iconografia cristã) e "abençoada" com uma doença incurável e que viria a matá-la precocemente, O'Connor vai usar desses elementos para criar uma obra que por muito tempo foi considerada "menor". Mas que com o passar dos anos, mostrou-se mais consistente, com uma visão penetrante da alma humana, que muitos de seus pares contemporâneos não atingiram. E mesmo hoje em dia, apenas consigo pensar em Cormac McCarthy como seu herdeiro no uso do grotesco e da violência. Não menos relevante é a presença da compaixão e da Graça em ambos.

Mas muitos leitores podem cair em uma armadilha ao ler as obras da escritora georgiana, apegando-se apenas ao grotesco ou à violência que ela tão bem descreve, ou ainda, procurando denuncias sociais ou raciais em seus escritos. Não são essas as motivações da escritora, ela não rebaixa o ato de escrever, coisa tão comum e esperada dos escritores neste nosso século de poucas luzes e ainda mais nesse nosso tão inculto Brasil.

... desde cedo teve a presença marcante da morte em sua vida. Seu pai, morto quando ela ainda era adolescente, e a descoberta de que carregava a mesma moléstia quando contava seus vinte e poucos anos, fez com que ela buscasse em sua formação, respostas para a condição humana. Isto é, a certeza inescapável de nossa mortalidade.

Mas ao contrário da covardia existencialista, ou do niilismo burro, Flannery buscou sempre resgatar a nossa condição maior de filhos de Deus. Necessário dizer que essa condição não é facilitadora, atenuante ou leve, mas muito ao contrário, dura, cheia de dor e sangue, mas capaz de reconhecer nas penas coloridas de um pavão, a promessa divina de redenção.

* Fragmentos da resenha ao livro Flannery - A life of Flannery O'Connor, do autor Brad Gooch. O texto é de Dionisius Amendola e foi publicado na Revista Dicta & Contradicta, volume 4.