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Mostrando postagens de Outubro, 2011

Drummond, o lutador

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Para quem sempre disse que o trabalho com a poesia é tarefa árdua. Trabalho sério. E aquele que reenvintou a poesia brasileira, no Dia D, dia do poeta de Itabira não há versos mais justos e adequados do que O lutador, publicado originalmente no livro José (1942).

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),

Miacontear - Uma questão de honra

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Quintério Luca e Esmerardo Fabião são dois velhos amigos de vida, de bar e de jogo. "Existiam juntos, como o pescoço e a dobra do lençol." Na grande parte das vezes e ainda mais com o avançar da idade, as partidas de dama se estendiam por semanas e numa delas Quintério dá contas de que o jogo havia sido mexido. Alguém tinha feito isso e sendo o jogo um elo construído secretamente entre os dois o primeiro suspeito que vem à mente de Luca é de que Esmerardo foi o feitor da desonra.

Desonra que será o elemento mais que suficiente para abalar o rumo da relação entre os dois. Não convencido da negação de Esmerardo, ele e Quintério vão à consulta do juiz da cidade. Num diálogo deslocado em que paira um jogo de expressões alheias aos dois velhos, a dúvida, ao invés de resolvida, permanece, o que faz Quintério voltar ao juiz. Na certeza de matar o amigo pelo golpe de honra o juiz nega-lhe proteção o que faz Quintério avançar para, antes de matar Esmerardo, matá-lo. Num reflexo, o s…

De lançamentos

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Os três mosqueteiros, de Paul W. S. Anderson

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Por Pedro Fernandes


Quem ainda não foi ver Os três mosqueteiros permaneça onde está. Guarde as notas que você dá a mais para ver um filme 3D e faça o que quiser delas, mas não vá ver o filme. A menos que você seja capaz de se desapegar de tudo quanto for ruim na obra de Paul W. S. Anderson. Se a ficção mantém um pacto com a realidade, aprenda o contrário: ignore o pouco que você aprendeu sobre as leis da Física e das aulas da História e da literatura de Dumas. Ignore porque o filme passa por cima de tudo. Se você for capaz de abstrair isso poderá encontrar algum sentido ou até se divertir com a historieta. Senão, volto ao que disse, guarde seus trocados.
O filme peca em vários aspectos. Um deles é o enredo. Se no início a coisa aponta para a reforma do grupo de espadachins semiaposentados Aramis, Porthos, Athos e D'Artagnan, com a migração deste último do interior para a Paris oitocentista, perde-se. Inicia-se então uma veia romântica de um romantismo piegas, primeiro entre o recé…

Mais Drummond

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Ainda dentro das comemorações do ano de Carlos Drummond de Andrade, a Cosac Naify, depois de publicar Poesia traduzida, livro com poemas traduzidos pelo poeta mineiro, anuncia dois outros títulos: Confissões de Minas e Passeios na ilha.
O primeiro foi publicado originalmente em 1944, e figura na bibliografia do autor mineiro como seu primeiro livro em prosa; a obra chegou a ser incluída na edição da Obra completa e nunca mais ganhou a forma de volume independente. A edição da Cosac Naify restaura o volume independente que reúne textos escritos entre os anos 1920 e 1940, acompanhado de textos críticos de Antonio Candido, Sérgio Milliet e Lauro Escorel. 

Neste livro, o escritor da grande poesia de A rosa do povo e Claro enigma faz prosa da melhor qualidade e de diferentes maneiras. O romancista Cyro dos Anjos, amigo de Drummond, comentou à época do lançamento: “não acredito que se encontrem páginas mais belas na língua portuguesa”. Em Confissões de Minas Drummond se confessa por intermédi…

Doze livros que revolucionaram a poesia

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Na história das formas literárias, o gênero lírico é o que menos apresentou variações; talvez a sua mais radical apresentação tenha sido aquela que no Brasil se iniciou com o movimento concretista – um desejo de construir uma estrutura objetiva, básica, densa, capaz de fundir em alta temperatura de linguagem, o signo, o significante e o significado. Depois disso, as variantes combinam elementos da linguagem artificial dos computadores e outras intervenções eletrônicas, tornando o material poético num misto de criação e performance realizáveis num só tempo e de maneira única mas capaz de se tornar noutras naturezas expressivas.
A lista de obras a seguir está longe de ser definitiva, mas com certeza reúne títulos que, desde sua publicação ou descoberta transformaram o fazer poético de maneira a marcar um antes e um depois dele ou ainda por terem sido feitos centros a partir do qual irradia – seja temática, formal e estruturalmente – uma geração diversa de criações. Não é, como todas a…

Capitães da areia, de Cecília Amado

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Miacontear - O rio das Quatro Luzes

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Por Pedro Fernandes


Antes de tudo convém dizer que esse conto se situa na linha limítrofe do afeto e do desafeto, dos silenciamentos e do diálogos. Tomando como epígrafe um provérbio moçambicano é esta talvez a mais moçambicana das histórias de O fio das missangas. Isso porque nela se acomodam três distintas gerações - a um de velho que remonta os primórdios de África, cujos valores eram outros, a de um casal, filhos da geração desse velho e um menino, a terceira geração, esta contemporânea, das infâncias cortadas.

Considero a mais moçambicana das histórias pelo fato de os valores suscitados pela primeira geração desse conto irem de encontro aos valores da última geração - já, pelos traços, totalmente 'ocidentalizada'. Também é fato que o conto em questão possui o tom das lendas contadas para explicar o nascimento ou a existência de determinada coisa -  no caso o nome para o rio que passa à frente da varanda de casa do narrador, Quatro Luzes, rio este que não sei ser imaginári…

Nei Leandro de Castro

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