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Mostrando postagens de Abril, 2011

Palmyra Wanderley

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A autora é pioneira no Rio Grande do Norte. Basta que se cite que na leva de periódicos em territórios de pré-e-Modernismo, ela, juntamente com sua irmã, a também escritora Carolina Wanderley, conduziram a Via-Láctea, não apenas mais um, mas um dos periódicos que teve circulação na capital potiguar. A importância do periódico é que vem conduzido exclusivamente por mãos femininas numa época em que o destaque das mulheres em quaisquer campos ainda era de uma relevância.

Sabendo que a vida literária da época estava na formação de grupos que objetivavam a divulgação de seus ideais, um periódico do tipo significa uma voz fêmea a ecoar em terras de voz masculina. O envolvimento com esse periódico relâmpago não fez Palmyra esconder-se e ter valor apenas pelas páginas da Via-Láctea. Encontraremos a autora publicando em tudo quanto é jornal e revista da época, mostrando que Palmyra tinha, sim, desenvoltura no meio literário da época. Ou seja, Palmyra tinha uma produção literária ativa e de bo…

sobre navegações

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a primeira vez que saí de mim
foi quando para atravessar o atlântico dos teus olhos.

daí pra cá perdi-me
não sei mais quem sou
nau sem rumo (talvez)

vaga levada pela correnteza do tempo


* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Miacontear - O adiado avô

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Por Pedro Fernandes


" - Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós.

E ainda mais explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiámos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós." ¹ Esta é fala de Zedmundo, Zedmundo Constantino Constante, pai de Glória que acaba de ter um filho. Patriarca da família, Zedmundo se recusa a ir ao hospital conhecer o neto e se recusa a tê-lo dentro de casa. Novamente o espaço habitado em O avô adiado é o espaço da família marcado pela presença ativa do masculino que plenos poderes sobre a mulher. O silenciamento do feminino é expresso em dois momentos distintos nessa narrativa. Primeiro, quando da recusa de Dona Amadalena, mãe de Glória, ao pedido intercessão a Zedmundo, para que ele se convença em dar vistas ao neto. Segundo, pelo estágio constante de retomada por parte do narrador acerca da silêncio de Amadalena - "a mãe era…

A clarabóia

Depois de publicar em 1947, pela editora Minerva, o romance Terra do pecado, antes batizado por A viúva, José Saramago, conforme revelou a exposição A consistência dos sonhos, teria se aventurado e tanto pelo território da escrita. Uma dessas aventuras é o romance A clarabóia que, por desejo do autor, nunca chegou a ser publicado, pelo menos em vida. A novidade é que ontem, pelo Dia Mundial do Livro, a Fundação José Saramago divulga excerto inédito do referido romance. Não apenas isso, mas divulga com esse excerto que o romance será publicado no fim do ano em Portugal e em outros países:

***
Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-s…

Ezra Pound, entre os cantos e o ABC da literatura

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O livro ABC da Literatura é (ou ao menos deve ser) um dos principais da bibliografia de um estudante de literatura; e deve ser, por isso, um dos textos mais conhecidos do poeta (ao menos no Brasil) – termo este que soará meio que surpresa aos ouvidos de quem não tiver ido mais adiante saber sobre a vida de Pound, Ezra Pound. Mas, se levado por um pouco de curiosidade, o leitor saberá que Ezra é uma das figuras mais controversas do cenário literário do último século e também um dos nomes que mais contribuíram para a constituição da poesia moderna. Numa das introduções redigidas para o seu livro de ensaios literários, T. S. Eliot elege Pound como “o responsável maior pela revolução na poesia do século XX”, “mais que qualquer outro nome”, enfatiza. Posição que virá ser endossada por outros importantes nomes.
Suas inovações técnicas e uso de matérias não convencionais, as discussões (muita delas polêmicas) sobre estética e política, dá ao homem Ezra a construção de uma figura típica de …

Miacontear - A saia almarrotada

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Por Pedro Fernandes
Como em "O cesto", o narrador de "A saia almarrotada" é uma mulher. Como as outras mulheres de que já falamos desse O fio das missangas o drama dessa sem nome - "Que o meu nome tinha tombado nesse poço escuro em que minha se afundara" - se acentua quando ganha de presente uma saia de rodar. O presente é simbólico e representa a passagem da mulher dos desígnios dos pais para os desígnios de um esposo. "Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade."

Única filha de uma família de homens; sem mãe, criada pelo pai e pelo tio, essa personagem foi educada ao modo das três irmãs no conto As três irmãs: com o intuito de servirem aos homens da família quando estes estiverem velhos. Inicia-se aí um movimento de cerceamento do corpo - "Eu me guardava bordando, dobrando as costas para que meus seios não desabrochassem. Cresci assim, querendo que meu p…

O purgatório místico de Elias Canetti

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Por Rodolfo Modern



A obra mais celebrada de Elias Canetti é o romance Auto de fé, uma parábola visionária sobre o delírio autodestrutivo da razão ocidental. Como a de Franz Kafka, a escrita do judeu-búlgaro é uma vasta metáfora acerca da condição humana, sem o formidável aparato dos enigmas próprios do autor de A colônia penal.
Canetti nasceu em 25 de julho de 1905 em Rustschuk (hoje Ruse), uma pequena cidade da Bulgária na fronteira com a Romênia. Seus pais pertenciam às famílias de comerciantes com certas condições, de origem sefardi, com ramificações nos Balcãs e na Turquia. Os remotos antepassados dos Canetti, expulsos da Espanha em 1492 pelos Reis Católicos, levaram sua língua espanhola à Turquia e ali a preservaram, de modo que em sua tenra infância, Canetti falava búlgaro e esperanto. O pai se mudou em 1911 com os seus para Manchester, onde morreu inesperadamente um ano depois. O menino ficou devastado pela perda e nunca a superou totalmente. A mãe, culta, muito protetora e exi…

Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

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Por Pedro Fernandes




Não foi esse o primeiro livro do Gabriel García Márquez que tive a oportunidade de ler. Como também não foi Cem anos de solidão. Sobre o primeiro livro que li do Gabo falo noutra ocasião. Agora falo desse que é, sem dúvidas, um dos mais poéticos do romancista. É verdade que, quem leu o livro que deu ao escritor colombiano o título do Nobel (mesmo sabendo que o prêmio é dado pelo conjunto da obra, mas todos sabemos que há nesse conjunto "o livro", aquele que marca o que chamaríamos de momento epifânico de todo escritor) - o já citado Cem anos de solidão - ao ler este Memórias de minhas putas tristes terá logo um certo "desnível" quando a arrumação linguística do texto. Deixem que eu me explique. É que este Memórias a linguagem é límpida, sem um hermetismo bem elaborado do Cem anos, o que não o faz, isso deve ficar claro, sê-lo menor que outros livros do conjunto da obra de Gabo.

A obra tem forte inspiração no texto do escritor japonês (também Pr…

A literatura em 13 mandamentos por Patricia Highsmith

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Patricia Highsmith conta que uma das ferramentas que mais lhe ajudou a escrever foi a sesta, aquele cochilo que geralmente a gente tira depois do almoço. Em seus primeiros tempos, quando ainda desempenhava outros trabalhos para sobreviver, dormia ao chegar em casa pela tarde e tomava banho ao acordar para simular que começava um novo dia, o de verdade, aquele em que podia fazer o que sonhava: colocar uma palavra atrás da outra para construir histórias. Multiplicar cada dia por dois foi o cartola de mágico da escritora, da qual saía não um coelho, mas um punhado dos romances de suspense que continuam sendo os melhores tantas décadas depois.
“Uma sesta salva o tempo ao invés de desperdiçá-lo”, dizia. “Adormeço com o problema e acordo com a resposta”.
A divina sesta de Patricia Highsmith não é apenas uma das sensíveis confissões que nos dá o livro dela que aqui vamos falar. É o relato de que a literatura mais sofisticada não está na sofisticação, na visão perdida em busca de musas inexi…

Liquidação, de Imre Kertész

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Por Darío Villanueva 


Antes de B. que deu desde então nome a uma história macabra: sua mãe, uma judia húngara, havia conseguido a cumplicidade de blokova, a comandante polonesa da enfermaria hospitalar, para ser inscrita como a prisioneira eslovaca que acabava de morrer, o que incrementava as possibilidades de sobrevivência do filho que ia dar luz frente aos muito escassos judeus marcados com a letra A.
Este episódio recorda o que narra Jorge Semprún em Viverei com seu nome, morrerá com o meu, e fala dessa evidência que o próprio Kertész relembrou em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel: umas vezes como elogio, outras como censura, todo mundo diz que ele é um escritor monotemático, pois o Holocausto e suas experiências dos campos de concentração (Kertész também esteve em Buchenwald) marcam toda sua obra.
Seu último romance ratifica esta sua condição de escritor obcecado pelo que chama “o mito de Auschwitz”, que entre outras coisas significa o reconhecimento de que é tão singular da c…

Miacontear - Inundação

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Por Pedro Fernandes

Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem.

* O traço de sonho do impossível é uma constante, como já notei em O homem cadente. Este Inundação o recupera e vem intercalado por outro traço, o da memória, o das lembranças. Envolto numa atmosfera onírica, temos aqui o tom agridoce da recordação que perscruta o espaço da casa e os movimentos da figura materna - como a figura central, que ordena (no sentido de organizar, cuidar), a que põe sentido, mas também com a que padece de um estágio de submissão pelo tom com que são trabalhadas e retrabalhadas a ideia do canto materno: "Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre."¹ 
Aliás, parece ser esse o tom do feminino nesses contos de O fio das missangas. São mulheres presas em universos pequenos, redomas subjetivas, cercadas por um círculo invisív…

O artista, de Michel Hazanavicius

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Por Pedro Fernandes


O filme chegou num ano que se configura como o de homenagens ao cinema. A constatação se dá pela presença de outro título, este de Martin Scorsese, A invenção de Hugo Cabret. A consolidação de um novo filão para a indústria cinematográfica – o do metacinema – ou interesses comuns em torno de uma data festiva, os cem anos de Hollywood? A segunda opção é mais viável já que a primeira mantém sua presença desde o nascimento do cinema e não constitui necessariamente numa nova modinha dos cineastas, mas uma estratégia textual comum às produções contemporâneas.
E por falar no cinema atual, O artista é uma das melhores criações desse novo tempo. Recria, desde a forma, a linguagem, o texto, uma parte da muito rica história do cinema estadunidense, desde as primeiras produções de Hollywood, e testemunha, despido de qualquer tom documentarista, o que foi, talvez, a maior revolução da criação dos irmãos Lumière, a transição entre o cinema mudo e o cinema falado.
A razão de n…