segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mandacaru, o inédito de Rachel de Queiroz


Foto de Edu Simões (1997) Instituto Moreira Salles

No dia 17 de novembro passado fechou-se o ciclo sobre o primeiro centenário da escritora Rachel de Queiroz. No Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles (IMS) lançou uma coletânea com dez poemas da escritora. Intitulada Mandacaru a antologia é uma compilação fac-similar de manuscritos até então inéditos e pertencentes ao Fundo Rachel de Queiroz do Instituto. O livro estava integralmente organizado pela escritora, mas desistiu de vê-los publicados e o que restou, além de fragmentos divulgados pela imprensa, onde ela foi sempre muito ativa como cronista, foi a compilação que generosamente entregou a sua amiga Alba Frota. 

Alba guardou o caderno e antes de sua morte em 1987 devolveu para a família de Rachel. O material acabou indo junto com os cerca de cinco mil itens hoje pertencentes ao IMS. Escrito em 1927, mas com data na capa de 1928, como se assinalasse certa revisão final sobre os textos, os poemas datam do período em que a escritora estreou na imprensa: nesse mesmo ano, Raquel escrevia uma crônica com o pseudônimo de Rita Queluz. Como cronista, os pesquisadores suspeitam que ela deva ter escrito mais de 3 mil crônicas para jornais e revistas importantes, como O Cruzeiro.

Mais que revelar uma faceta quase desconhecida da romancista e cronista, essa coletânea, em gesto de homenagem, claro, que a qualidade literária é desejável, revela ainda a inquietação da escritora desde sempre com a escrita. Basta lembrar que os textos dessa leva são de uma jovem de 17 anos ainda (e muito precocemente) em busca de um estilo próprio, que daria pulso quando, em 1930, publicasse o romance que lhe consagrou como escritora reconhecida pela crítica - O quinze




Mandacaru apresenta ainda a incipiência de vários traços que seriam tematizados por Rachel e embrião de personagens que ela desenvolveria a partir do romance de 1930. Organizados por Elvia Bezerra, os textos reunidos na coletânea datam de 1928, o que demonstra, pela curta distância de publicação de O quinze que durante esse tempo a escritora não terá se descuidado um só instante do exercício com a escrita. 

Os poemas revelam o entusiasmo com que a autora procurou se integrar ao movimento modernista, os "irmãos do sul". "O livro valia como uma resposta à convocação, não só dos modernistas dissidentes daquele final de década, mas também dos anteriores, empenhados na construção de uma consciência nacional, de um novo projeto de brasilidade estética por meio de uma ‘síntese cultural própria’ – nas palavras do poeta Raul Bopp”, explica Elvia Bezerra, que também é autora do texto do prefácio que abre o livro, no qual analisa os primeiros passos de Rachel de Queiroz como jornalista na imprensa do Ceará, desde a sua estreia, em 1927, até 1930.

Antonio Miranda define esses dez poemas como "poemas telúricos, sobre o drama nordestino, numa linguagem moderna no sentido de ser prosística, despojada, sem contorcionismo verbais e de franca adjetivação de seus contemporâneos. Sem aquela retórico pomposa de seus conterrâneos. No afã de abrasileirar o Brasil, como era o clamor de Mário de Andrade."



Quando dissemos da faceta quase desconhecida de poeta da Rachel de Queiroz, referíamos que é de conhecimento público o poema "Telha de vidro" incluído numa coletânea de textos infanto-juvenis e "Geometria dos ventos" dedicado a Álvaro Pacheco. Além disso, em 1929, publica o poema "Iniciação", resgatado pelo crítico e historiador literário Sânzio de Azevedo no suplemento modernista Maracajá editado em Fortaleza pelo jornal O povo; são dela, também, "Rosas de Santa Luzia" (apresentado por Manuel Bandeira na 2.a edição da sua Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos) e Ana Miranda já havia trabalhado na organização de poemas de Rachel em Serenatas. Agora, o que não sabíamos é que, por detrás de escritos como O Quinze e outros havia alguém interessado desde sempre no ofício do verso. Já agora sabemos. 

Ligações a esta post:
Leia os poemas "Telha de vidro", "Geometria dos ventos" e mais um texto do livro Mandacaru, aqui.