terça-feira, 4 de maio de 2010

Alice no país das maravilhas, de Tim Burton

Por Pedro Fernandes



É bem verdade que fui ao cinema empapado de críticas para ver Alice, de Tim Burton. Ele me foi como o filme brasileiro Chico Xavier, de Daniel Filho, uma das estreias desse ano que mais aguardei. E, claro, com reações diversas: sobre o último, é claro, o que tive foi decepção. Já sobre este...

Bem sobre este, o que tenho a dizer é o eco das críticas das quais me empapei antes de vê-lo.

Há muito de Burton e sobretudo dos estúdios Disney e pouco (muito pouco!) da literatura de Lewis Carroll. Mas, aprovo a beleza imagética do filme, que, pela natureza do 3D, que depois de Avatar deve se tornar um filão para o cinema. Agora, sou muito consciente de que, onde a imagem se impõe, o conteúdo desce pelo ralo.

O sentido do exercício criativo que é peça do escritor inglês é substituído pelo entretimento fortuito; e a narrativa termina por atender ao gosto dos telespectador comum que é levado a estabelecer relações funcionais das mais básicas como sobre o porquê da personagem à beira de um casório se decide vagar pelos labirintos do sonho.

Perde-se, repito, com o conteúdo o encanto do livro de Lewis Carroll, já que a Alice "original" é um livro com excelentes personagens e situações erguidas sob os paradoxos, nos labirintos daquilo que convencionou-se inconsciente humano.

O que se perde na Alice de Burton é, já que falei em paradoxo, o paradoxo da linguagem, os jogos semânticos com as palavras que ora são o que não são, que ora se despem das significâncias comuns e se fazem intricados novelos. Já alguém disse que a palavra é o verdadeiro protagonista da obra de Carroll.

E o filme acaba por rodar uma simples historieta de luta do bem contra o mal cujo final já é previsível desde a chegada de Alice ao mundo subterrâneo. Salva-se a ideia; salvam-se as interpretações; salvam-se os efeitos especiais (que precisam do cinema para fazer sentido, duvido que num simples televisor consiga causar o mesmo impacto). É esperar para saber sobre a continuidade. A obra original tem ainda Alice através do espelho.