sexta-feira, 26 de março de 2010

Lembranças, de Allen Coulter

Por Pedro Fernandes



Bem há uma série de questões a se falar desse filme (e falar mal como aponta a força da expressão). Mas, por que se dá ao trabalho de gastar saliva com uma obra ruim se nem crítico de cinema sou? Na pergunta está, pelo menos resposta: que o que vou dizer não deve ser levado a sério, porque não tem interesse de ofender o expectador capaz de se nutrir com histórias triviais. Apesar de minha leitura ser impulsionada por uma questão de gosto pessoal, não é para servir de atentado ao gosto de ninguém. É antes uma maneira de expressar por aqui a direção contrária dos comentários que me fizeram perder algumas horas, algum dinheiro, no cinema.

Aqui é o legítimo caso de alguém que se deixou levar pelas expectativas (lógico, positivas) de quando viu o seu trailer do filme. Sim, eles são feitos para fisgar futuros expectadores, eu sei; mas, há uns que mesmo essa ferramento oferece alguma barreira capaz de lhe impedir concluir o sacrilégio com a compra do ingresso e a perda de tempo ante a tela. Mas, expectador que se guia por certas intuições já poderia chegar a uma conclusão que o desfecho da coisa, quando entrou na sala do cinema, não iria ter fim construído pela expectativa ante o trailer.

É que dei de cara com um cinema apavorado de adolescentes que gritavam a toda hora que o Robert Pattinson dava as caras na tela; a última vez que isso me aconteceu foi quando tive de assistir ao lado de meu primo um dos títulos da franquia Homem Aranha. Sim, também houve gritaria quando Tobey Maguire apareceu numa cena de beijo. Mas, não foi aquilo que estava ao meu redor que contribuiu para formar uma parede para o filme; nem foi esse contexto que me levou a gastar saliva com Lembranças. Essas são questões que apenas ajudam a compor a cena do drama. 

Drama, aliás, que não alcança o lugar do dramalhãozinho barato construído por Allen Coulter. Junte um desajustado de meia tigela, desses que nem Freud explica seu desajuste, uma menininha que perde a mãe aos 10 anos, que sofre bullying na escola e tem o cabelo cortado a força numa festa daquelas pré-adolescentes, um Pierce Brosnan muito (muito) apagado fazendo papel de paizão sem tempo para família. Pronto! Está feito o jogo de todos erros que dão forma a esse filme.

Narrativa vazia, combinada com um diretor incapaz de extrair dos atores o limite de sua atuação (sim, porque já vi o Pattinson em situações melhores, e o Brosnan, então?). Há instantes iluminadores: o início do filme parece que, tal como trailer, vai convencer o expectador de que a história é boa. Mas, torna-se enfadonha porque repetitiva, como se estivéssemos num texto cujo fôlego era o de um curta-metragem e por toda força foi esticado até caber no tempo mínimo de um longa.

E para finalizar a desgraça, nessa narrativa sem qualquer nexo, papa rala, Allen Coulter vai reaproveitar da pior forma possível um acontecimento histórico para dizer que alcançou um fim espetacular: os ataques de 11 de setembro de 2001. É disso que é feito Lembranças. O drama é clichê e oportunista, portanto. Acentua-se ainda mais quando o Pattinson conhece a menininha que perdeu a mãe aos dez anos (dez anos depois) e vivem um romance tão amarelo quanto a cara do ator da saga Crepúsculo. De modo que, nada nesse filme dá para engolir.

Agora, a perda de tempo em queimar palavras com uma obra que merecia o silêncio, tem uma justificativa: é um grito contra a forma saturada de produzir cinema em larga escala; é minha forma de dizer o quanto é vão o choro de algumas adolescentes com o desfecho do filme. Esse é o legítimo caso de que um rosto ou um corpo bonito, como ilusoriamente pensam alguns, principalmente estes que necessitam ser levados pelo sucesso da franquia água-com-açúcar que mais reforça um tipo de vida que o problematiza, jamais são suficientes para contar uma história.