quarta-feira, 24 de março de 2010

A garota de Mônaco, de Anne Fontaine

Por Pedro Fernandes



Às vezes, mesmo ao acaso, conseguimos não queimar o tempo à toa; geralmente tenho feito o trabalho de, antes de assistir a um filme no cinema, ler o crítica tem dito sobre. Resolvi, nesse caso, apenas apostar que estava indo a uma sessão Cine Cult e não poderia me decepcionar com o que encontraria por lá. Essa sessão ocorre na franquia Cinemark que, em Natal, funciona no Shopping Midway Mall; o horário tem sempre sido inconveniente. Mesmo não tendo uma hora fixada, sempre as sessões ocorrem às 14h; muito provavelmente uma provocação de que, quem vai ao cinema a essa hora é porque não tem o que fazer. Bom, ao menos o preço compensa: as sessões são mais baratas que as convencionais. Mas, o resultado é sempre sala quase vazia.

E o filme de Anne Fontaine ficou marcado (por isso essas notas aqui no blog) como uma das melhores produções que até hoje vi nessas sessões Cult; afinal, sempre que posso estou lá. A garota de Mônaco  é um filme da safra francesa de 2008. O enredo é simples, mas denso e envolvente, provando para o público duas características essenciais a qualquer obra cinematográfica: nada de efeitos mirabolantes, todo investimento no exercício narrativo e na maneira como os atores constroem suas personagens (as interpretações).

Há um advogado - Bertrand - que vai a Mônaco para defesa de uma acusada de ter matado o marido. No Principado de Mônaco é-lhe apresentado como guarda-costas, o segurança Christophe. Mas Mônaco com todo seu império da riqueza e do luxo, exibe personas desajustadas; é o caso de Audrey, uma jovem (com cara de ninfeta) com a qual o advogado se envolve e passa a ter sérios problemas pessoais dado a incompatibilidade de gêneros, marcadamente no comportamento e modos de vida de cada um.

O fato é que os tais sérios problemas põe em risco a própria existência profissional do advogado diante de um julgamento tão importante do qual participa. Audrey é a reencenação do mito Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov. De muito atraente meteoróloga que trabalha em uma emissora de TV, ela vai se apresentando ao longo da narrativa como aquela mulher capaz de tudo para conseguir espaço (e ela, diga-se de passagem é das espaçosas ao seu extremo), fama e dinheiro.

Anne Fontaine coloca em cena, assim, não apenas o problema da incompatibilidade de gêneros entre Bertrand e Audrey, mas a incompatibilidade de mundos; três mundos contraditórios e no centro deles um que é habitado por uma mulher bonita, envolvente e que sabe tratar seus parceiros na cama, logo,  impossível de não alcançar seus caprichos.

Não há nenhum pingo de suspense nesse filme; o tema parece ter sido substituído apenas pelos cortes sistemáticos nas cenas que deixam a cargo do telespectador preencher tais lacunas e ir montando como se fosse um joguinho de quebra-cabeças.

Mais que retrabalhar a forma da mulher fatal, A garota de Mônaco parece ser um tapa numa condição corriqueira na atualidade: a celebridade instantânea e a qualquer custo. Audrey é metáfora desse mundo construído pela força da manipulação (e não é à toa vir associada ao universo televisivo, quem mais tem contribuído para esse mundo-mentira).  Não há nada mais atual que isso.