sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Amor à flor da pele, de Wong Kar-wai



A passagem do tempo e a teia de pequenas emoções estão no centro da visão romântica e nostálgica do diretor chinês

Da invasão de filmes orientais que se concentrou desde meados dos anos 1990, aqueles que trazem a assinatura de Wong Kar-wai estão entre os que mais chamaram a atenção para o fenomenal cinema produzido nas três Chinas (a China continental, a ex-colônia inglesa Hong Kong, e Taiwan).

Distinto de muitos de seus colegas e ao mesmo tempo compartilhando com eles um gosto refinado pelo estetismo visual, os filmes de Wong também se destacam por um forte apelo emocional. Desde Amores expressos (1994), o diretor seduziu as platéias com sua visão romântica e ultracontemporânea dos desencontros amorosos.

Amor à flor da pele é o filme onde essa temática encontra uma forma que lhe encaixa à perfeição. Ambientada em 1962, a obra narra os encontros de um homem e uma mulher, ambos casados, que se conhecem num hotel quando seus respectivos parceiros estão longe. Entre os dois, tece-se uma teia de pequenos sentimentos, cumplicidade e erotismo sublimado, até que a história de amor esbarra nas convenções sociais e nunca chega a se efetivar. A nostalgia em tom amargo é reiterada pelo uso recorrente de duas canções na voz de Nat King Cole, "Aquellos ojos verdes" e "Quizás", que, por sua vez, repercutem os estados afetivos dos personagens.

O passar do tempo capturado em suas mínimas modificações, uma das obsessões do diretor (fortemente influenciado pelos primeiros trabalhos do francês Alain Resnais), é tornado visível aqui sob a forma de uma troca incessante dos vestidos usados pela protagonista, num total de 46. O figurino segue sempre o mesmo modelo, mas o tecido das roupas nunca se repte de uma cena para outra. O perfeccionismo do diretor reflete também no tempo que demorou para completar as filmagens: 15 meses.

Em seu trabalho seguinte, 2046 (2004), Wonf recupera e desenvolve elementos de Amor à flor da pele, como o personagem do escritor e o número do seu quarto de hotel neste título anterior, numa espécie de retomada quase musical do tema.

O filme, no Festival de Cannes de 2000, ganhou os prêmios de Melhor Ator (Tony Leung) e de Melhor Contribuição Técnica, para a fotografia assinada por Christopher Doyle, Pin Bing Lee e William Chang.

* Revista Bravo!, 2007, p,96