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Mostrando postagens de 2010

Feliz Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade tem um poema cujo o título é "Receita de ano novo". Trata-se de um poema que se utiliza, podemos assim dizer, das corriqueirices culturais que é muito em voga por esses dias 31/12-01/01, mas pelo seu lado oposto. Isto é, enquanto se alardeia os quatro cantos determinadas convenções para que tudo seja perfeito na virada de ano, Drummond, injeta-lhe uma voz contrária que tem por finalidade recuperar o real sentido da data.
Um ano novo há que ser feito a cada dia. Não apenas num dia só. Também não é o fato de que tudo passará a ser o oposto daquilo de ruim que vivemos no ano que finda. Se assim fosse, cada ano que entra seria mais perfeito do que todos os outros que o antecederam. No entanto, sabemos que é o contrário. Com o ideal de que o ano novo fazemos cada um, e que a diferença que cada um faz é capaz de reposicionar determinados apartheids sociais que têm se mostrado tão corriqueiro é que achamos por bem voltar ao poema de Drummond para reiter…

Biblioteca Mindlin - Um mundo em páginas

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O filme-documentário já teve em cartaz na TV Brasil e na TV Escola. Trata-se de um filme que antes de servir ao registro de uma das personalidades mais significativas para a cultura do livro no Brasil é um gesto de homenagem ao bibliófilo José Mindlin e que depois de ser homenagem é um gesto de beleza artística em que dialogam num mesmo território mundos diversos, vozes diversas. E exala e pulsa, sobretudo, literatura.
Sob direção de Cristina Fonseca, o filme conta a história de José Mindlin e de sua fantástica biblioteca de livros raros, uma das maiores e mais importantes bibliotecas particulares do Brasil e da América Latina, dando foco a preciosidades inestimáveis que dão conta da formação histórica e literária no país. Apaixonado pelos livros, o jornalista, advogado e empresário reuniu, em mais de 80 anos de garimpagem, quase 40 mil títulos e raridades de valor inestimável, além de uma rara e rica coleção de gravuras, a única que se tem notícia no Brasil.
O documentário foi grava…

Ricardo Domeneck

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Por Pedro Fernandes

A primeira vez que li esse nome - Ricardo Domeneck - foi quando em conversa com o poeta Leontino Filho, antes de sua palestra sobre Raduan Nassar, em agosto de 2008. Leontino Filho me apresentava uma coleção chamada "Ás de colete" lançada pelas editoras 7Letras e Cosac Naify em 2007 e entre os títulos estava a cadela sem Logos.
Nascido em Bebedouro, São Paulo, 1977, Domeneck vive há sete anos em Berlim, onde dá aulas de inglês e organiza perfomances multimídia, entre outras atividades. Descobriu a poesia na adolescência, quando estudava nos Estados Unidos, lendo Poe, Walt Whitman, Emily Dickinson e Salinger. Entre seus poetas favoritos, costuma citar autores franceses, estadunidenses, argentinos e portugueses e, com certo desdém, diz não está interessado nas "intrigas de boteco" da poesia brasileira, ainda que alguns nomes lhe chamem atenção, como Paulo Leminski, Hilda Hilst, Murilo Mendes, Orides Fontela.

A ele não lhe interessa filiações a de…

Feliz Natal

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Já desde o dia 20 que o blog tem dado uma de Papai Noel virtual distribuindo o cartão de Natal para este ano. Tradição começada ainda em 2009, seguimos este ano ainda e enquanto existirmos, insistindo na ideia de que a tão simbólica e importante data dentro do calendário ocidental não deve servir apenas para ser uma euforia que morre depois de findar o mês de dezembro. O texto de Carlos Drummond de Andrade que ilustra o cartão de Natal desse ano se associa ao texto de José Saramago do cartão do ano passado e traduz muito desse sentimento.
Para baixar o cartão, clica aqui(é preciso dar um zoom para ler o texto).

Rachel de Queiroz

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Primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. O ano que finda marcou o centenário de nascimento da escritora nascida em Fortaleza (CE). Quando Rachel de Queiroz se estreia na literatura com o seu romance O quinze, em 1930, já a seca do sertão nordestino figurava enquanto elemento na ficção. O fato é Rachel não apenas ambienta a seca, mas faz dela tema e persona na sua obra. Além do que ela inaugura, como faz todo grande escritor, um estilo próprio. Dona de uma prosa árida, despojada, o avesso completo das possibilidades que se vinham sendo experimentadas nos territórios de escrita de sua época, Rachel de Queiroz está situada no início de um dos movimentos mais ricos de nossa literatura - o movimento regionalista.
Além romancista, Rachel foi cronista e dramaturga, sendo desta última profissão textos como Lampião (1953) e A beata Maria do Egito (1958). Depois de poemas esparsos publicados em livros diversos, recente descobre-se que também compôs livros do gênero muito …

A pedra do reino, de Ariano Suassuna

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Por Pedro Fernandes


Li este romance ainda no período de minha Graduação em Letras. Ainda não estava contaminado por essa coisa que vai infestando a quem se debanda para a vivência acadêmica. A coisa que digo é a teoria. A necessidade de apelo ao jogo teórico que corrói e adoece as mentes acadêmicas. Era o período em que o tempo ainda me sorria. Encarar um catatau de mais de 600 páginas foi proeza rara só vencida quando tive diante de mim a leitura do Dom Quixote. Por falar nesse clássico da literatura universal, enxergo, guardando, é óbvio, as devidas proporções, muito do romance-epopeia de Cervantes. Já veremos o porquê.
A pedra do reino foi publicado em 1970, e é até o presente, um romance cuja completude não é firme. Isso porque, o próprio escritor, ao comentar do projeto de escrita desse romance, assinala a existência de duas outras partes, compondo, assim, uma trilogia. Entretanto, nenhuma das duas vieram a público; fato justificado pelo esmero da dedicação que Ariano dedica às su…

Alguma poesia: o livro em seu tempo

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Alguma poesia foi o livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade. Sem a possibilidade de publicar a obra por alguma editora, o poeta não hesitou em pagar do próprio bolso a primeira tiragem de quinhentos exemplares. Quando publicado, logo tornou-se um ícone da cena modernista no Brasil. É nele que o leitor encontra peças como "Poema de sete faces", "No meio do caminho", "Cidadezinha qualquer", "Quadrilha". Mas, não foi só de louros que viveu essa obra; houveram algumas pedras no caminho do poeta.

Todos esses registros mais a quantidade de anos acumulados desde sua publicação em 1930 estão documentados nessa primorosa edição agora publicada pelo Instituto Moreira Salles. A edição faz par com a revisão de Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema, também publicadapelo Instituto. O livro é um marco nos oitenta anos de Alguma poesia, que aparece aqui reproduzido página a página fac-similar do volume que pertenceu ao próprio Carlos Drummo…

A 18, encontro com Saramago (VI)

Iniciativa posta na rede desde o dia 18 julho; todo 18 de cada mês durante noves meses leitores saramaguianos do mundo inteiro reúnem-se para ler um fragmento de sua obra e brindá-lo com uma taça de vinho. Este blog segue a iniciativa. O fragmento que leio hoje é do Memorial do convento.

"...tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quando é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabal…

Novamente, a escrita

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Por Pedro Fernandes


Já dizia o saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade que a luta com palavras é coisa vã. E é. Surgida com o pretexto de traduzir e organizar a fala, o processo da escrita configura-se como um processo doloroso, dramático, infinito, solitário. Doloroso e dramático porque sempre que nos deparamos com um tema para desenvolvermos um texto qualquer, oscilamos e, não são poucas as vezes que até desistimos pelo simples fato de não conseguirmos colocar/expor no papel aquilo que poderia ser nossa fala, nossa opinião. E não apenas isso.

Articular ideias e signos é mais complicado do que possa parecer ao mais entendido de fluxos verbais e gramaticais. Agora, infinito é tal processo porque, quando retomamos um texto nosso qualquer subtraímos ou adicionamos ideias. Encontramos absurdos. Coisas que supostamente não diríamos ontem se tivéssemos os olhos de hoje. E solitário porque para produzir temos, na maioria das vezes, de nos subtrairmos do mundo para travar uma batalha que se…

Sobre prêmios, sobre valores

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Por Pedro Fernandes



Escreve-se para preencher vazios, para fazer separações contra a realidade, contra as circunstâncias
Mario Vargas Llosa


É verdade que muito se tem falado acerca do poder da Literatura. Até hoje, entretanto, e isso eu já disse outras vezes, até hoje, repito, nunca ouvi dizer que algum texto literário, por mais importante que seja, tenha salvado a humanidade de algum rumo grotesco dos muitos que já passamos: das ditaduras, das guerras, da fome, da miséria... E digo isso porque entendo que a função da literatura reside noutra esfera. Se não tem um sentido de salvação daquilo que, enquanto humanos, forjamos, a literatura tem sim a capacidade de introduzir na humanidade o real sentido da comunidade a qual ela se diz fazer parte. Entendo a literatura com o poder de, ao fazermo-nos humanos, levar essa comunidade a um espaço mais habitável, ainda que por força da imaginação. E se assim faz, pela força da imaginação, já temos meio caminho andado, não? Afinal, aquilo a que c…

Rever Zila, sempre

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Por Pedro Fernandes



No último dia 13 de dezembro, ontem, fez-se lembranças pela morte de Zila Mamede. Poeta potiguar, dona de uma obra literária singular. 25 anos de quando foi ao encontro do mar para mergulhar eternamente noutro mar - o da literatura.

Sobre ela, a também poeta Marize Castro disse, com muita propriedade: “deixou uma obra para nortear, para servir de guia para quem escreve e lê.  Em Zila nada é excesso. Tudo é garimpo, concisão. Além, claro, sensibilidade”.
Por ocasião da data, devo lembrar agora que, entre setembro e outubro de 2009, copiei um texto do poeta Paulo de Tarso Correia de Melo publicado como uma espécie de introdução à poética de Zila Mamede neste que foi a última edição do seu Navegos(Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte); o títuloé uma antologia organizada e publicada ainda em vida pela poeta. O texto perfaz todo o conjunto da obra de Zila, livro a livro. Chamei a publicação, alimentada por fotos suas e poemas dos livros lidos de "…

Uma página para Ana C.

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Poeta normalmente associada à Geração Marginal, movimento dos anos 1970, Ana Cristina Cesar ou como se assinava Ana C. nasceu em 1952, no Rio de Janeiro. Filha de Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cezar, a poeta desenvolveu cedo o gosto pela leitura: aos quatro anos, segundo relato paterno incluído na cronologia de sua Correspondência Incompleta, publicada em 1999, já ditava versos para a mãe e, em 1959, então com sete anos, publicava poemas no Suplemento Literário, do Jornal Tribuna da Imprensa. Com o lançamento de edições dedicadas a escritora pelo Instituto Moreira Salles, a instituição dedicou-lhe uma página na internet, onde é possível acessar uma leva de informações sobre Ana C., desde sua vida e obra, a fotos (como a que ilustra esta post) e informações sobre a fortuna crítica da autora. Aqui


A literatura faz sentido

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Por Pedro Fernandes


A literatura, enquanto expressão verdadeiramente artística que é, é deságue para um conjunto de elementos sócio-histórico-culturais, isto é, possui a capacidade expressiva de reunir em si materialidades ideológicas e expectativas coletivas que dão tom de dada época. Isso a que Goethe vai chamar de Zeitgeist, ou espécie de fio comum, de mesma cor, que perpassa uma colcha de ponta a outra produzindo uma interdependência mútua entre os diversos fios que compõem a sua tessitura.
Tanto parece ser assim que os atuais quadros de dissolução apresentados com toda a veemência possível desde o advento daquilo que consideramos por modernismo vão sendo, de modos diversos, impressos no corpo da literatura sob o signo das vanguardas, consideradas estas como a revolução que nunca antes existiu no campo das manifestações artísticas. Haveremos, entretanto, de exibir certa ponderação, com afirmações como estas. A literatura teve sempre um caráter não de abolir a mesmice, mas de se po…

O discurso de Vargas Llosa ao receber o Prêmio Nobel

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"Para lo único que sirves es para escribir"

A frase é da companheira de Vargas Llosa, Patricia, e vem citada no seu discurso de recebimento do Prêmio Nobel de Literatura, na cerimônia realizada ontem, 08 de dezembro. Segundo a imprensa espanhola, o escritor chorou e fez todos chorarem. Não que tenha feito um discurso-drama mexicano, mas Llosa soube articular questões literárias, pessoais e políticas, num modo caudaloso e sobretudo de denúncia social. E qualquer um que tenha alguma sensibilidade, ante as palavras do autor de Conversas no catedral estará à beira do choro, sobretudo quando com as passagens em que o peruano fala da literatura, de sua importância para a história da humanidade, para a nossa existência e a sua existência. A evocação do sentido para a literatura, a denúncia forte aos imperialismos da política e da religião, e mais que tudo um sonho ainda vivo de uma América e um mundo no exercício pleno da palavra liberdade. É este um discurso histórico, realmente…

Novamente, Ferreira Gullar

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Segundo nota publicada no mês de setembro deste ano na coluna Gente Boa, e de que se agora tomei conhecimento, enquanto fazia uma ronda pela internet para um post sobre o poeta maranhense, Ferreira Gullar entregou, por esta época, a Maria Amélia Mello, da editora José Olympio, os originais de O homem como invenção de si mesmo. Provavelmente este será o seu próximo livro; trata-se de um monólogo em um ato.
Em julho, o poeta, em seu apartamento em Copacabana, Rio de Janeiro, deu uma entrevista para Bruno Dorigatti e Ramon Mello do Portal Saraiva. Na entrevista, Ferreira Gullar volta a São Luís, sua terra natal e relembra sua infância; fala do contato com a poesia, da busca pela subversão linguística, do Poema enterrado, dos anos de exílio e do momento atual, aos 80 anos, ganhador do Prêmio Camões e em ainda em pleno vapor nas suas atividades. Os vídeos a seguir são de duas entrevistas que o poeta deu ao Portal Saraiva - estão publicados na página em que se pode ler o texto dos jorn…

Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema

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Para marcar os 40 anos do poema "No meio do caminho", Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1967, o livro Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema, no qual reuniu uma ampla seleção com o que foi dito sobre os famosos versos. No último dia 24 de novembro chegou às livrarias, por através do Instituto Moreira Salles uma nova edição do livro. A edição é ampliada pelo poeta Eucanaã Ferraz.
Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema traz todo o conteúdo de sua versão original: texto de apresentação de Arnaldo Saraiva e fortuna crítica do poema mais discutido do modernismo literário brasileiro, publicado pela primeira vez na Revista de Antropofagia, em 1928. A publicação traz também duas seções inéditas: "Ainda a pedra", que complementa a seleção feita por Drummond com textos, charges e ilustrações sobre o poema posteriores a 1967; e "Biografia da biografia", que reúne resenhas e comentários sobre o livro desde seu lançamento.
Segundo Euca…

Comer, rezar, amar, de Ryan Murphy

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Por Pedro Fernandes


O filme é uma releitura do Best-Seller duvidoso Eat, Pray, Love: One Woman’s Search for Everything Across Italy, India and Indonésia de Elizabeth Gilbert. No filme, o centro dos holofotes para a protagonista vivida por Julia Roberts. O estrelismo de Julia entretanto não fez o filme decolar. Comer, rezar, amar finda sendo um filme clichê mais parecido com um catálogo de auto-ajuda do que um drama, no sentido do termo.
Após uma separação, a protagonista lança-se numa aventura em busca de outros prazeres que venham (por que não pensar assim) substituir os prazeres da carne. Apenas o voto de luxúria não é apresentado, assim, desse modo, tão escrachado que falo. Mas a verdade é que o prazer pela comida vem como elemento, ou verbo primeiro que, além de substituir o outro verbo, amar, vem para se não, amenizar tal o verbo, já que o que prevalece, no meio de tanta comilança e reza, é o amor, seguindo, é óbvio, o clichê de que sem amor ninguém é alguém.
Na insatisfação do …

Pelos 90 anos de Clarice Lispector, inéditos

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Difícil é imaginar Clarice Lispector aos 90. Foi o aniversário que a escritora completou no último dia 10 de dezembro. Seria que, até essa idade, a nossa escritora produziria obras de tamanha magnitude como as que criou no seu estágio de maturidade literária? Nunca teremos uma resposta para a pergunta. Mas peças daquela Clarice ainda há muitas por revelar.

E sabendo disso e, claro, pelo simbolismo da natividade clariciana é que o Instituto Moreira Salles (IMS), começou, pelo referido dia 10 de dezembro, a publicar alguns inéditos da escritora de A hora da estrela. E permanecerá publicando ao longo do mês de dezembro. Os inéditos tratam-se de documentos selecionados dos arquivos literários de Clarice, onde se encontram manuscritos e datiloscritos. A primeira peça publicada foi uma entrevista concedida pela escritora ao Jornal do Brasil na figura de Nevinha Pinheiro em 15 de dezembro de 1977 - seis dias depois da morte da escritora.
É sabido também que o nome de Clarice Lispector integ…

Clarice, conversas sobre uma paixão

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Clarice Lispector é uma das escritoras mais celebradas, discutidas e difundidas da contemporaneidade. Sua extensa obra tem como tema principal a vida. Ela com sutileza, fala da existência, do ato de ser. Em 2010 comemora-se os 90 anos de nascimento dessa importante escritora brasileira e os 50 anos do lançamento de seu livro de contos Laços de Família. Foi para marcar essa data, divulgar sua obra e estimular a reflexão sobre a mesma que nasceu a ideia da realização do Seminário Clarice, conversas sobre uma paixão. O Seminário terá lugar, entre os dias 08 e 10 de dezembro de 2010, no Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza/CE.
A proposta é reunir estudiosos, estudantes e apreciadores na realização de três dias de imersão na vida e obra da autora. Os convidados para o evento são, antes de tudo, amantes do tema e provenientes de diferentes áreas de atuação (cinema, literatura, direito entre outros) assumindo, por isso, pontos-de-vista distintos sobre o mesmo objeto. Desse modo tent…

Resultado da promoção 3 anos de Letras in.verso e re.verso

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De acordo com nota divulgada hoje a tarde, 01 de dezembro de 2010, na página do Letras in.verso e re.verso no Facebook, o nome do ganhador da promoção de aniversário de três anos do blogue é o Cleber Benvindo.Concorria à promoção todo aquele que segue o Letras in.verso e re.verso no Facebook, Orkut e/ou Twitter e enviou a ficha de inscrição para participar do lance. O ganhador segue a página do blogue na comunidade do Orkut e através do Twitter. É morador de Presidente Prudente, São Paulo. Motivado pelo espírito da campanha da União dos Escritores Potiguares, o Letras in.verso e re.verso dará ao sortudo o livro da poeta Diva Cunha, Resina, mais uma edição da Revista Oeste, publicação do Instituto de Cultura do Oeste Potiguar.
Fica os cumprimentos a todos aqueles que participaram da promoção.


Ainda Rachel de Queiroz, "O Não Me Deixes"

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O Não Me Deixes – suas histórias e sua cozinha é o primeiro livro da escritora Rachel de Queiroz que ganha reedição pela José Olympio Editora (o livro havia sido editado pela Editora Siciliano em 2000). Esta obra da romancista  não foge o seu tema preferido: o nordeste brasileiro. Aqui, ela mescla lembranças e gastronomia e apresenta algumas raridades da culinária sertaneja. A escritora revela o preparo de diversas receitas já consagradas em todo o Brasil e fala sobre os muitos ingredientes típicos da região. A descrição das mais diversas delícias aprendidas em Não me Deixe, fazenda da família no Ceará, revelam os costumes e os gostos do povo sertanejo. Já em outubro a José Olympio através havia lançado Tantos Anos, livro que reúne uma mistura de lembranças e receitas.

Mais do que revelar traços de uma cultura da qual a escritora fez parte, O Não Me Deixes é composto de uma memória afetiva que vem não através dos hábitos culinários, mas dos cheiros e sensações corporais provocados do …

Mandacaru, o inédito de Rachel de Queiroz

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No dia 17 de novembro passado fechou-se o ciclo sobre o primeiro centenário da escritora Rachel de Queiroz. No Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles (IMS) lançou uma coletânea com dez poemas da escritora. Intitulada Mandacaru a antologia é uma compilação fac-similar de manuscritos até então inéditos e pertencentes ao Fundo Rachel de Queiroz do Instituto. O livro estava integralmente organizado pela escritora, mas desistiu de vê-los publicados e o que restou, além de fragmentos divulgados pela imprensa, onde ela foi sempre muito ativa como cronista, foi a compilação que generosamente entregou a sua amiga Alba Frota. 

Alba guardou o caderno e antes de sua morte em 1987 devolveu para a família de Rachel. O material acabou indo junto com os cerca de cinco mil itens hoje pertencentes ao IMS. Escrito em 1927, mas com data na capa de 1928, como se assinalasse certa revisão final sobre os textos, os poemas datam do período em que a escritora estreou na imprensa: nesse mesmo ano, Raquel es…

Fecha-se mais um ciclo. Abre-se outro

Por Pedro Fernandes

Escrevo essa nota num sábado porque o 27 de novembro é a data mais importante deste veículo que existe desde 2010. Sim, é aniversário do Letras in.verso e re.verso e se ele ainda sobrevive três anos depois é porque, mesmo não me dando nenhum retorno, acredito que seja um instrumento de escrita importante, sobretudo, para mim. É um espaço que nasceu, nunca me cansarei de contar essa história, do acaso e hoje continua respirando esses mesmos ares.

Então fecha-se o terceiro ano deste blog; é um ciclo. Abre-se outro. Vamos ver o que reserva esse quanto ano que agora se inaugura. Que traga bons frutos como os dois que daqui ganharam forma: sabem do Caderno-revista 7faces? E do SeloLetras in.verso e re.verso?
Pela data, dei uma repaginada no espaço. E os seguidores do blog no Facebook, Orkut e Twitter podem ainda enviar suas fichas de inscrição para participarem da promoção posta no ar desde o dia 06 de novembro: aqui.

Abaixo, deixo um vídeo comemorativo que foi postado…

O Poema Enterrado: uma experiência-limite

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Por Ferreira Gullar
Entre 1959 e 1961, quando nasceu e eclodiu o movimento neoconcreto, tornei-me amigo de Hélio Oiticica, que eu tinha como uma espécie de irmão mais novo. Ele, aliás, era o mais moço do grupo e o último a se juntar a ele, tanto que não participou da primeira exposição neoconcreta, inaugurada em março de 1959, no MAM do Rio, nem assinou o manifesto, publicado naquela ocasião.
Mas Hélio, de todos, era o mais determinado a buscar novos caminhos de expressão, a levar adiante as propostas que surgiam do trabalho e da troca de ideias e de experiências. Ele estava convencido de que a arte neoconcreta abrira um território novo à criação artística. Esse era um tema frequente em nossas conversas, que, na verdade, se limitavam a algumas hipóteses sem resposta. A resposta não estava no discurso, mas no trabalho criador.
O incêndio, que recentemente destruiu grande parte de suas obras, chegou-me como uma notícia inverossímil pelo telefone, quando a repórter me falou da perda de m…

Tropa de Elite 2, de José Padilha

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Por Pedro Fernandes


Já não havia ido bem com a cara do primeiro. E desse segundo então, me perdoem os milhões de expectadores que já foram ao cinema e aplaudiram o Capitão Nascimento, não gostei mesmo. Tropa de Elite 2 assume uma face daquilo de pior que podemos ser - a face do embrutecimento dos corpos e da substituição do humano por androides de carne, osso, arma e violência.

Não que se trate de um filme de apologia à violência, mas é um filme que extrapola o limite do homem como homem e isso é ruim. E não venha me dizer que o que se vê nele é o retrato real daquilo que se tornou o Brasil, sobretudo o Rio de Janeiro. Nem sempre o real é aquilo que se vê e o Tropa de elite 2 mais me pareceu uma encenação do itinerário da violência que está diariamente estampado nos telejornais. Parece que depois de aprendermos a filmar favelas e tiras estamos fadado a esse círculo.
Assisti ao filme ainda na sua estreia. Sessões lotadas. E tanto é o público que o filme ainda se agarra na maior parte …

Reedição para Novas cartas portuguesas

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Por Eduardo Pitta

Em Maio de 1971, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa pegaram na tradução portuguesa, feita por Eugénio de Andrade, de Lettres Portugaises (1669), compilação de cinco cartas de amor endereçadas por Mariana Alcoforado a um oficial francês, com o intuito de "desmontar e re-montar" os limites da linguagem.

Partiam da compilação de Claude Barbin das cinco cartas atribuídas ora à freira de Beja, ora a Gabriel-Joseph de Guilleragues. Dezenas de traduções e reedições em várias línguas, desde 1669, eram motivo bastante. Novas Cartas Portuguesas publicou-se em Abril de 1972, sob chancela dos Estúdios Cor, editora dirigida por Natália Correia.

O livro aguentou três dias em livraria. A PIDE recolheu e destruiu todos os exemplares disponíveis. Marcelo Caetano mandou instaurar processo judicial às três autoras, que foram levadas a tribunal. Motivo? O "conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública" da obra. Inter…

Notas sobre o II Festival Literário da Praia da Pipa (FLIPIPA)

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Por Pedro Fernandes

A
O visor do celular marca-me 8h da manhã. Era essa a hora que eu partia, no dia 18 de novembro, para uma das praias mais badaladas do litoral do Rio Grande do Norte. Praia batizada há muito, ainda pelos anos de mil e quinhentos e tanto, dado o formato de uma das falésias ser o de uma pipa (falésias, aliás, que povoam toda a praia). A praia tornou-se o destino turístico de todo aquele que vem a Natal. Vir a Natal e não ir a Pipa, não veio a Natal. Conhecida por além das belezas naturais, pela intensa noite, os dois elementos juntos só poderia culminar num espaço para promoção cultural. E se o tom salobre do mar e o calor do sol não são ingredientes para, dentro da cultura, a inserção da literatura, a ideia desfez-se. Pipa é já espaço ideal, justamente por estas características, para agregar discussões literárias. Em 2009, realizou-se o I Festival Literário da Pipa. Na agenda do evento, nomes importantes, como o da escritora Nélida Piñon. Se todas falas entoaram louv…