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Mostrando postagens de 2009

Férias

"A denúncia de tudo quanto mutila a espécie humana e impede sua felicidade nasce da confiança no homem (...) Agora, quando se imagina que a ciência nos ajudou a vencer o terror do desconhecido na Natureza, somos escravos das pressões sociais que essa mesma ciência criou. Quando nos convidam a agir independentemente, pedimos modelos, sistemas, autoridades. Se quisermos verdadeiramente emancipar o homem do medo e da dor, então a denúncia do que hoje se chama razão e ciência é o melhor serviço que a razão pode prestar."


Horkheimer

Ainda que tudo pareça um fim sem volta, há que se renovar sempre - é este o entendimento para o ano que se inicia.

Feliz ano novo.


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Os livros mais bacanas de 2009

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Por Pedro Fernandes



No fim de ano são colocadas em pauta, de papel ou de mente, os feitos e os desfeitos do ano que termina e projetam-se novas possibilidades para o ano que se inicia. Tem sido sempre assim e escapar desse ciclo, me parece, é tarefa fadada ao fracasso. Em 2008, aderi à moda das listinhas e coloquei aquilo que a meu ver foram as grandes presenças que me marcaram. Como tudo é cíclico, cá estou de novo a apontar os feitos que me serviram para ser a pessoa que hoje sou. Limito-me aos livros. Li muito esse ano, creio que mais ainda que nos outros anos, e cito algumas obras geniais, por tudo que este termo abarque. Não é, portanto, esta lista, uma que vise destacar aqueles títulos publicados no ano, mas aqueles que li e deixo o registro em sintonia com a recomendação.

1. Os sertões, de Euclides da Cunha: desde quando cursava o Ensino Médio que ouvia da professora de Língua Portuguesa que este, juntamente com a obra de Machado de Assis e de Guimarães Rosa (e não sei essa pro…

Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar

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Em homenagem ao universo feminino, consagrado diretor espanhol fala de perdão e da relação entre pais e filhos
As mulheres sempre ofereceram um pilar de sustentação ao cinema de Pedro Almodóvar: fortes, passionais, vingativas, elas são o veículo pelo qual o espanhol expõe seu humor exótico, os fetiches e desejos, as lembranças de infância. Talvez em nenhum outro momento elas tiveram maior destaque do que em Tudo sobre minha mãe, obra da fase madura e melancólica, marcada por melodramas. O período teve início com A flor do meu segredo (1995) e Carne trêmula (1997) e prosseguiu com o dolorido Fale com ela (2002), o sombrio Má educação (2004) e o recente Volver (2006). Na trama, Almodóvar reúne um pouco de almas (femininas) desorientadas e tece um drama delicado sobre o relacionamento entre pais e filhos, a autodestruição (e a subseqüente volta por cima) e o perdão.
Manuela (Cecilia Roth) leva seu filho Esteban (Eloy Azorín) para comemorar seus 17 anos assistindo a uma encenação de Um bo…

Manuel Rui, o verde e a janela de Sónia

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Por Pedro Fernandes


1. Essas notas ainda vêm do Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa realizado em setembro deste ano em Salvador. Em ouras ocasiões falei sobre Maria Teresa Horta, sobre Cleonice Berardinelli e agora abro espaço para falar sobre a figura do angolano Manuel Rui, com quem tive o privilégio de conversar e ver o  lançamento de seu novo livro Janela de Sónia,o qual ainda infelizmente o tempo não me deixou ler, mesmo tendo já começado várias vezes, uma, quando ainda no avião de volta para casa.
2. Manuel Rui é figura respeitadíssima na comunidade da literatura de língua de portuguesa. Foi o autor do Hino Nacional de Angola e como escritor autor de uma arrebatadora escrita que põe em questão a situação de África, de seu país de origem e de seu povo; pelo menos foi o que pude constatar nas sessenta primeiras páginas do Janela de Sónia e na leitura de alguns textos disponíveis na web sobre sua obra.

3. Nasceu em  Huambo, em 1941…

Voltar a Caim

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Por Pedro Fernandes




No Orkut há uma comunidade, das muitas dedicadas ao escritor português José Saramago, e da qual faço parte. Dificilmente apareço por lá em corpo de resposta ou de pergunta. Sempre passo de soslaio, leio superficialmente. Numa dessas minhas passagens, estava posto um questionamento acerca do recém lançado romance Caim. A pergunta era a clássica "o que você achou do livro". Das onze pessoas que já haviam respondido, havia alguns comentários consideráveis, bem pensados, outros somente a cumprir tabela. Fui tentado a ser o décimo segundo a entrar no diálogo, mais pelo fato de que um daqueles onze que haviam dado sua opinião - a grande maioria dizia ser este um livro ruim - ou, simplesmente consideravam o livro um lixo.

Bem o que dizer de Caim? Qualquer leitor saramaguiano que se preze verá que este não é um grande livro (se tomarmos textos como o próprio Evangelho, seu correspondente, O ano da morte de Ricardo Reis, Ensaio sobre a cegueira, enfim); e talvez n…

Palavras sobre Palavras de pedra e cal

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Por Pedro Fernandes



Esta postagem inteira o leitor do Letras in.verso e re.verso sobre a publicação de Palavras de pedra e cal. Como explicado noutra ocasião por aqui, trata-se de uma breve antologia que reúne todos os meus poemas publicados em diversas vias online e muitos em circulação nesse blog, o primeiro motivo de vê-los juntos num mesmo arquivo.

O livreto amplia essa necessidade. E tomara que venha ganhar forma num material impresso, claro, ainda o instrumento de melhor realização de qualquer obra. É uma publicação gratuita, preparada com muito carinho e puro experimentalismo do autor, o responsável por todas as peças que integram a apresentação da antologia. Desde a capa, a concepção gráfica, a elaboração do blog, dos papéis de parede, dos vídeos.

Palavras de pedra cal assim apresentado deixa a critério do leitoro zelo em baixar, imprimir, ler, partilhar com outros leitores, mas com a cautela de citar sempre a fonte. É o mínimo de agrado. Também se o leitor tiver depois da leit…

Uma francesa trabalhadora

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Por Alberto Manguel


Em 23 de fevereiro de 1937, Virginia Woolf anota em seu diário que, no dia anterior, a tradutora para o francês de seu romance As ondas havia vindo consultá-la: “Não tenho nem tempo nem espaço para descrever a tradutora, salvo para dizer que levava umas lindas folhas de ouro em seu vestido negro; é uma mulher que suponho ocultar algo em seu passado; dada ao amor, intelectual; vive a metade do ano em Atenas; é parte do grupo de Jaloux [o influente crítico francês]; de lábios vermelhos; tenaz; uma francesa trabalhadora; amiga dos Margerie; prosaica”. Trata-se, acrescenta Woolf apressadamente, de uma “senhora ou senhorita Youniac (?) Não é esse seu nome”.
Seu nome (ou o nome que havia elegido) era Yourcenar. Por razões econômicas havia aceitado traduzir o romance de Woolf; o encargo lhe brindava com o privilégio de conhecê-la. Anos mais tarde, Yourcenar descreveria aquele encontro “na escuridão de um salão iluminado apenas pelo fulgor da casa”, onde as duas romancista…

Palavras de pedra e cal

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Em comemoração aos dois anos do blog Letras in.verso e re.verso terá lugar neste espaço daqui a dois dias, ou seja, em 18 de dezembro de 2009, o lançamento virtual do livreto Palavras de pedra e cal. O horário marcado é 19h, quando os leitores e transeuntes virtuais desse espaço terão à sua disponibilidade para baixar e ler online o material.
A edição reúne todos os poemas já publicados no blog na coluna Apenas meus poemas. Trata-se de uma antologia bastante heterogênea, composta do que posso chamar de amostra de meu iniciante exercício poético. A publicação é mais uma alternativa de o autor poder ver juntos os poemas dispersos, sejam noutros sites, seja neste blog, seja em jornais ou edições avulsas.

Para ter acesso a parte dos poemas que integram a antologia visite aqui.

Para divulgação sobre esse acontecimento, foi criado o blog Palavras de pedra e cal que tem por objetivo divulgar e servir ao lançamento do dia 18. É interesse que futuramente o espaço também possa abrigar os poema…

Estamos na merda

Pesquisas dessas que existem para comprovar o já comprovado, constatou que o brasileiro lê pouco. Lê tão pouco que foi mais fácil divulgar os números da catástrofe do que os números positivos: são 77 milhões de não leitores, dos quais 21 milhões são analfabetos; os leitores somam 95 milhões, e leem, em média, 1,3 livro por ano. Incluídas as obras didáticas e pedagógicas, o número sobe para 4,7. Os dados estão na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita com 5.012 pessoas em 311 municípios de todos os estados em 2007. Detalhes dos hábitos do brasileiro relacionados ao livro, revelados na pesquisa, atestam esta afirmação. O levantamento considera como não leitores aqueles que declararam não ter lido nenhum livro  nos últimos três meses, ainda que tenha lido ocasionalmente ou em outros meses do ano.
Tudo isso só vem explicar uma coisa: o nível de cultura do brasileiro beira ao barbarismo da Idade de Pedra e a capacidade de percepção da moléstia que corrói as entranhas desse País abai…

João do Rio

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No dia 24 de junho de 1921, o Rio de Janeiro acordou diante da seguinte notícia, glosada pelos principais jornais da cidade: "Uma notícia desoladoramente triste veiu surprehender, hotem, à noite, quantos trabalhavam nesta casa - o passamento de João Paulo Barreto, ou melhor 'João do Rio'" (A Razão, 24 jun 1921).
Quasi á meia-noite, uma telephonada annunciava-nos que Paulo Barreto, em caminho para casa, em um automóvel, se sentira mal e que fora conduzido a sede do 6º. districto policial, de onde já haviam chamado uma ambulância da Assistência Pública para socorrer o illustre enfermo; e três minutos depois, quando um de nossos companheiros descia  já as escadas para ir, de nossa parte, levar-lhe uma palavra de affetuoso conforto, outra telephonada tiniu a notícia de sua morte (O Paiz, 24 jun 1921)

Dois dias depois, outro evento superava em espetáculo e comoção a própria morte o conhecido jornalista - seu sepultamento:
Das janelas da redação de A Pátria, a massa popla…

José Saramago e questão literatura e utilidade

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Por Pedro Fernandes




Escrevi certa vez um texto que foi publicado no Caderno Domingo do Jornal De Fato acerca da tão instigante pergunta milenar já milenar porque tem servido ao debate entre gente diversa desde que a literatura é literatura. Hoje, na releitura de algumas falas do escritor português José Saramago, eis que dou com uma entrevista sua ao Clarín, em que a pergunta foi posta (a tradução para o português é livre) e cuja resposta vem corroborar com o que escrevi há alguns meses:

"Como escritor, seu meio de intervenção é a literatura. Podemos voltar a pensar se serve para algo? Se la literatura pode melhorar (ou piorar) a vida, o mundo?

Levamos séculos nos preguntando uns aos outros para que serve a literatura e o caso de que não exista resposta não desanimará aos futuros perguntadores. Não há resposta possível. Ou há infinitas: a literatura serve para entrar numa livraria e ficar em casa, por exemplo. Ou para ajudar a pensar. O upara nada. Por que esse sentido utilitário …

Patton - rebelde ou herói?, de Franklin J. Schaffner

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Feito em tempos de guerra no Vietnã, filme acompanha a vida de um general que sintetiza as contradições da América
O primeiro plano deste filme de Franklin J. Schaffner impressiona: a bandeira dos Estados Unidos toma quase toda a dimensão da tela larga do cinemascope, e, no cetro, surge o ator George C. Scott como o general George Patton. Ele declama um discurso brutal sobre a necessidade da guerra, incitando seus soldados à violência extrema e lembrando-lhes sobre a glória militar do país, "que jamais perdera uma guerra". Uma imagem oficial, em princípio, mas com a juventude norte-americana sendo massacrada no Vietnã, em 1970, seu conteúdo era, na verdade, irônico e amargo.
Como outras, essa superprodução apresentava a guerra em grandes tomadas espetaculares ao mesmo tempo em que detalha a carnificina. Trata-se de uma obra que não trai a convenção das biografias, mantendo-se fiel ao seu protagonista e preferindo os grandes acontecimentos, mas o discurso do filme identifica-…

Os imperdoáveis, de Clint Eastwood

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Reflexão madura e desencantada do universo dos velhos westerns na visão de um de seus protagonistas
Os imperdoáveis é um western sobre o fim dos westerns. Talvez na última obra-prima do gênero eternizado por John Ford, Howard Hawks e Sergio Leone, Clint Eastwood maquinou, ao mesmo tempo, uma homenagem aos seus mestres (há dedicatórias a Leone e a Don Diegel), um crepúsculo do estilo e uma revisão dos aspectos morais do bom e velho bangue-bangue, da figura do cowboy e do seu universo. Eastwood revisita também a própria carreira, que começou a se destacar na trilogia spaghetti de Leone e se solidificou com a série Dirty Harry. Nela, ele geralmente vive um homem solitário, amargo, bêbado e violento a ponto de não perdoar ninguém.
William Munny (interpretado pelo próprio Clint) teve um passado assim. Até que conheceu sua futura esposa, teve filhos e se tornou humilde criador de porcos. Agora viúvo, ele dedica-se a cuidar das crianças e a administrar sem muito sucesso seu sítio. Para conseg…

Dez filmes mais um que contam sobre a vida de escritores

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Este ano os cinemas trouxeram para as telas A última estação, filme de Michael Hoffman sobre os últimos anos da vida de Liev Tolstói. Estamos no ano de 1910 em Yasnaia Poliana, a propriedade rural onde o escritor de Guerra e paz viveu boa parte de sua vida. O título conta os período em que Tolstói esteve envolvido em levar adiante organizar seus direitos e seus ideias trabalhados em Poliana. O filme traz ainda a relação desenvolvida entre Tolstói e Bulgákov, quem trabalhou como seu secretário particular nesse período e, claro, toca em pontos conturbados do casamento com Sofía que temia uma retaliação do companheiro em não lhe deixar sequer os direitos sobre a obra.

Mas, depois de amarmos esse filme, fomos catar outros cujo tema é também a vida de escritores e deixamos essa listinha aos amigos leitores. Claro, há outros títulos que estarão a serviço de outra lista do gênero, se esta tiver a atenção merecida.

Anti-herói americano, 2003. Dirigido pela dupla Shari Springer Berman e Robert…

Dostoiévski para as telas

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Por Manuel da Costa Pinto



Dos livros de Dostoiévski, o mais adaptado para o cinema é Crime e castigo, certamente por causa da trama detetivesca e dos diálogos envolventes entre o protagonista Raskolnikov e o juiz de instrução Porfiri Pietróvitch. A trajetória começa com os clássicos homônimos estrelados por Peter Sorre em 1935 (direção de Josef von Sternberg) e Jean Gabin, que na versão francesa dirigida por Georges Lamin em 1956, faz o papel de Porfiri.
A lista inclui a versão em desenho animado, feita em 1953 pelo japonês Osamu Tezuka (o mestre dos mangás), e uma adaptação livre, algo maneirista, feita no Brasil pelo diretos Heitor Dhalia e pelo escritor Marçal Aquino: Nina (2004), longa no qual Raskolnikov se transforma na garota desajustada do título (interpretada por Guta Stresser), que vive num quarto de aluguel e é explorada por uma rabujenta senhora (Myrian Muniz). Uma asfixiante versão, que investe menos na trama policial do que na densidade psicológica do romance, é o filme …

Dois rios que cortam o sertão nordestino

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1. João Cabral de Melo Neto e Graciliano Ramos dispensam apresentação; são dois dos mais importantes nomes de sempre da Literatura Brasileira. E, apesar de autores de duas obras distintas há possibilidade de estabelecer conversas entre as duas.

2. Principalmente se o leitor lembrar de Morte e vida severina, um poema de verve épica que narra a trajetória do habitante do interior do Sertão nordestino rumo ao centro urbano, e Vidas secas, um romance cuja narrativa se constrói pela retirada não de uma personagem, um Severino, mas de uma família também para o centro urbano. Duas migrações motivadas pela vida escassa nessa região do Brasil; duas migrações perpassadas de uma crítica social muito às claras acerca dos desmandos do poder com os do Nordeste ou uma entrada num dos fossos sociais desse país. 

3. Estes e outros aspectos são retomados em duas falas que acontecem amanhã, dia 28 de novembro, a partir das 8h da manhã, no Auditório Central do Campus Avançado Professora Maria Eliza de Albu…

Os desafios de escrever um blogue

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Por Pedro Fernandes


Hoje faz exatos dois anos que abri esta página na internet. No fechamento do primeiro ano eu escrevi do interesse meu quando resolvi criar este blogue. Nasceu a ideia meio que por acaso, dizia; tinha o interesse apenas de divulgar um evento na Faculdade; evento em que eu iria ministrar um minicurso sobre a poeta potiguar Auta de Souza. Um blog me permitiria além de divulgar o tal minicurso expor o material produzido e/ou necessário no decorrer dele. Muita coisa publicada dessa ocasião foi deletada, porque como direi mais adiante, e como o leitor tem acompanhado, o blog ganhou outros rumos. 

É que permaneci conduzindo seduzido ou viciado pela ideia e achei que este deveria ser o espaço para que eu organizasse minhas leituras que fizesse na web; então comentaria publicamente por aqui ou traria o texto para cá, claro com as devidas referências. E o propósito durou até certo ponto, quando comecei a postar matérias também minhas: poesia, ensaios, artigos (dos artigos, gra…

Receita de um poeta

Não nos preocupemos com as palavras Elas caem não sei de onde
Vêm de cheio uma após outra A galope ou fugindo do negro de nós E escapam, derrapam, ficam e fincam em versos, por vezes destoados, mas versos.

Não faria sentido Ficar sentado, parado, perdido no vácuo do papel A suspirar por donzelas, por outros eus, pelo mundo A esse modo as palavras correm, têm medo de como serão usadas Elas preferem ser abusadas e caírem mortas-vivas, rotas, num verso sem fim.

Não há necessidade de arrumá-las como que numa prateleira Elas vêm faceira, gostam mesmo é da desordem Porque é na liberdade, no caos, que se ergue o sentido Que se mostram coerências, coesões É no desconexo que se ergue o poema.

* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Butch Cassidy e Sundance Kid, de George Roy Hill

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"Raindrops Keep Fallin' on my head", cantada por B. J. Thomas no longa, foi uma das músicas mais cultuadas da história do western

Este western conta a história, baseada em fatos reais, vivida pelos amigos Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford) e seu grupo de assaltantes de trens e bancos (Bando do Buraco na Parede), que fogem da polícia por todos os Estados Unidos e depois para a Bolívia. Juntos, eles funcionam como muitas outras duplas: Cassidy é o cérebro, expert em arquitetar planos para conseguir dinheiro ilegal. Sundance é o executor, atira como ninguém. Apesar de foras-da-lei, a dupla conquista a simpatia do público pelo humor. Assim, Roy Hill popularizou a lenda em torno da dupla de criminosos que já era conhecida, mas tornou os bandidos agradáveis ao público (graças também ao poder de sedução dos então galãs Newman e Redford, que retornariam juntos em 1973 em Golpe de mestre, outro grande sucesso do mesmo diretor).
O retrato da dupla no filme…

A sangue frio, de Truman Capote

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Por Pedro Fernandes




A sangue frio é tradução para o português do original In cold blood do estadunidense Truman Capote. O livro foi publicado em 1966, mas um ano antes da prestigiada revista The New Yorker adiantou aos leitores o primeiro dos quatro capítulos. Trata-se, em linhas gerais, de um romance que relata o assassinato de uma família de camponeses de Helcomb, interior dos Estados Unidos. O enredo gira em torno de Richard Hickock e Perry Smith que descrevem com certa maestria e em tom adocicado, muito pelo encantamento do escritor pelo caso e os assassinos (principalmente o segundo, com quem, dizem as más línguas, teria tido um envolvimento amoroso) o assassinato de Herb Clutter, Bonnie Clutter, sua esposa, e os seus dois filhos, Kenyon e Nancy.

Trata-se de uma obra que marcou a literatura estadunidense porque foi uma das primeiras do chamado rol literatura jornalística, em que o escritor se dedica a contar determinado fato de jornal na forma de romance. De certa maneira, uma rev…

Ler o Dom Quixote

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Por Pedro Fernandes




Depois de Crime e castigo, de Dostoiévski, essa me foi a obra mais cara à leitura, entretanto, me parece ser essa a característica do clássico: a de marcar seu leitor por todas as vias possíveis, como se a leitura, para ser tida realmente como tal, devesse nos jogar no seu calabouço e de lá nos arrastar aos poucos, trazendo-nos, dessa experiência, carregados de uma nova camada de humanidade agarrada à nossa figura.
Como disse certa vez, num texto anterior a este sobre Os sertões, de Euclides da Cunha, renovo aquelas imagens de grande teatro para o clássico de Cervantes. Composto numa época de transição, clara sátira ao fadado romance de cavalaria, entretanto, sem reduzir-se a tanto, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nos coloca diante de uma grande arena, que é a Europa medieval povoada de tipos que vão desde o mais popular e picaresco ao sofisticado e grave; Dom Quixote é, sem dúvidas, uma grande aventura da linguagem, conforme entendeu Michel Foucault, …

O poeta que há em Ariano Suassuna

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Para muitos, isso deve ser uma novidade. Conhecido mais pelo seu trabalho como dramaturgo pelo já consagrado sucesso O auto da compadecida e por sua produção romanesca com títulos como A pedra do reino, é necessário dizer que Ariano Suassuna é também poeta. Ainda anônimo, como reconhece o escritor num texto de 2000 para o jornal Folha de São Paulo; ao comentar acerca do diálogo entre ele e uma leitora, em que ela se apresenta como poeta anônima, Ariano desabafa: “Sou relativamente conhecido como romancista e mais como dramaturgo; como poeta sou ‘anônimo, casual, trágico, inconsequente’ e também ‘fruto e produto do casamento entre a urbanidade e a melancolia de pastos antigos’; pastos esses que, no meu caso, eram povoados de belas cabras agrestes, esquivas, quase selvagens e que pareciam pequenos antílopes, extraviados das savanas da África, das serras do Líbano ou das mesetas da Península Ibérica nos tabuleiros e carrascais dos sertão nordestino.”
Observações que a elas voltaremos ma…