Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2008

2050

encontrei-me nu. criança
sob uma abóbada celeste chumbo
num futuro passado a limpo distante
alheio a mim mesmo.

divaguei e divaguei
nas capoeiras rotas
poeirentas, amareladas,
por vezes escura,
vestida de morte.

desterros.
no céu cinza escarlate
um passado futuro desatado, distante
desdobra-se em gotas de estrelas
escusas, alheias a mim.

quisera reverter a abóbada celeste
a abóbada do meu pensamento
dissecar todo o lamento em fúria
da natureza escura, morta.

re(ver) o azul celeste
que carrego na abóbada do meu pensamento.
ex(por) o brilho vivo das estrelas.
acalentar o lamento fúria da natureza
vê-la em colorido, forma viva.


* Este poema foi publicado inicialmente no site Jornal de Poesias e Garganta da Serpente. Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Literatura pra quê?

Imagem
Por Pedro Fernandes
Grafitti: Moça Lendo - Beco Vila MadalenaData: 19-04-2008
Ao longo da história da arte e não diferente da tradição literária - do conjunto de textos escritos produzidos pela humanidade não para fins práticos (como manter registros, leis, fórmulas científicas, atas de sessões etc.) - tem sido perguntado quais valores e/ou funções práticas fundam esse campo. Comentemos acerca desse questionamento. Nossa fala se guia pela voz de Umberto Eco, "Sobre algumas funções da literatura".

Associada a esta indagação tem surgido uma linha do pensamento segundo o qual o texto literário se produz por amor de si mesmo, sendo sua leitura apenas para deleite, puro passatempo, uma ampliação dos conhecimentos fazendo dos leitores assíduos intelectuais - quando do caso dos leitores gerais, da prosa e da poesia -, ou puro e simples espaço de elevação espiritual - quando do caso dos leitores da poesia. A partir desta ainda há outra, oposta, segundo a qual a literatura comporta u…

Cora Coralina

Imagem
Conclusões de Aninha
Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula, entregou sem palavra. A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar E não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Da mesma forma aquela sentença: "A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar." Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador. Você faria isso, Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome? Conclusão: Na prática, a teoria é outra.


Cora …

Dossiê James Joyce: "Ulisses", histórias de uma história

Imagem
A história da publicação de Ulisses é em si mesma uma aventura fascinante. Depois de demorar sete anos para escrevê-lo, Joyce enfrentou complicação no processo que vai da edição à distribuição. Em parte, houve as circunstâncias que lhe escaparam do controle, mas em parte ele se entregou à compulsão de reescrever até o último instante antes da impressão; não resistiu ao convite da limpeza tipográfica das provas, que revelava o romance com um distanciamento que o manuscrito não proporcionava. 
A caligrafia de Joyce nem sempre era clara, a linguagem literária sem dúvida era incompreensível para os tipógrafos, e no vaivém o resultado foi uma edição com erros tipográficos. Os erros permaneceram nas edições subseqüentes. Só foram corrigidas na quarta edição da editora Odyssey Press, em 1932, com a ajuda de Stuart Gilbert, estudioso, tradutor e amigo de Joyce. Esta edição foi tida por muito tempo como a melhor.
Em 1977, porém, o neto e herdeiro de Joyce, Stephen Joyce, decidiu corrigir erro…

José Paulo Paes

Imagem
"Pode-se ler a poesia de José Paulo Paes, breve e aguda a cada lance em sua tendência constante ao epigrama, como se formasse um só cancioneiro da vida toda de um homem que respondeu com poemas aos apelos do mundo e de sua existência interior". (Davi Arriguci Jr)
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, São Paulo em 22 de julho de 1926 e faleceu em 9 de outubro, em São Paulo, de 1998. Poeta, tradutor, crítico e ensaísta, entre 1945 e 1948 estuda química industrial na cidade de Curitiba. Depois passa a trabalhar num laboratório farmacêutico.
Paralelo à profissão, José Paulo não deixou a literatura de lado. Mantém seu interesse desde o avô, que era livreiro. Ainda nos tempos de aluno em Curitiba colaborava com a revista dirigida por Dalton Trevisan, Joaquim. É dessa temporada que nasce o primeiro livro, O aluno, fortemente influenciado pela poesia de Drummond.

a poesia está morta mas juro que não fui eu eu até tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
imitei diligentemente…

Uma visita a intimidade de Oscar Wilde e Lord Alfred

Imagem
“É uma maravilha pensar que o vermelho rosa de seus lábios deve ter sido feito não apenas para a música e o canto mas para a loucura do beijo”

A frase assim solta pode ser atribuída a qualquer um que num momento de paixão aguda pode escrever sobre a pessoa amada. No entanto, tudo muda de figura quando somos dado a conhecer quem é seu autor e para quem foi escrito: Oscar Wilde comentando sua paixão por Alfred. Uma daquelas paixões proibidas que viraram amor e arrastou definitivamente a vida dos envolvidos para outro rumo. No caso do escritor inglês terá cumprido um itinerário de dupla face – deu-lhe sustento para ser quem é hoje Oscar Wilde e lhe deu também a descida de sua vida para o calabouço. Quando a homossexualidade ainda era crime e a perseguição aos gays era mais evidente que hoje, um amor do gênero era mais que transgressor, era também uma condenação.
Wilde conheceu Lord Alfred Douglas em junho de 1891, quando o rapaz tinha 21 anos, mas já era um poeta talentoso.  “Bosie”, c…

Um poema recortado do Jornal Trabuco

O JornalTrabuco trata do universo literário do curso de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Dentre as colunas está uma que se chama Sarau, dedicada à produção poética. Em sua primeira edição lançada no início do mês, foi incluído dois poemas de Pedro Fernandes: Salvação (publicado aqui em 2007) e outro, uma amostra de seu livro Sertanices. 


Previsões

Minha avó costumava em certos meses do ano
Pôr sobre a casa numa tabua morros de sal,
Doze ao todo, os doze meses do ano:
Janeiro. Fevereiro. Março. Abril. Maio.São João.
Santana. Agosto. Setembro. Outubro. Novembro. Dezembro.

No dia seguinte contava a quantidade do derreter
E dessa quantidade via os meses chuvosos,
Os menos e os mais,
Também os meses secos –
Estes, de Santana em diante serão secos.

Nos meses de São João e Santana
Se um bando de garças cortasse o azul pardo
Nas tardes afogueadas
É que a seca estabanada encontrava o sertão.

E era mesmo: as garças se iam deixando para trás
Uma caatinga de verde esmorecido,
Capim amarelo…

Dossiê James Joyce: um guia para entender "Ulysses"

Imagem
Ulisses tem lá suas dificuldades, claro. Isso significa que o leitor que não estiver preparado para enfrentá-las corre o risco de se decepcionar. É preciso conhecer o caminho a se trilhar, sob pena de se perder. A sinopse a seguir abre uma picada na densa floresta literária de Joyce. Conduz o leitor, capítulo a capítulo, à essência do enredo e das técnicas narrativas. Joyce é parcimonioso na indicação de pistas. A única referência que serve mais ou menos de guia é o título do livro: o nome latinizado do herói da Odisséia, de Homero. A leitura de Homero seria enriquecedora, embora não obrigatória, porque os paralelos com a epopéia grega servem sobretudo de base estrutural, funcionam como metáfora profunda - estabelecida com ironia, humor e seriedade - do heróico no homem comum na era moderna. A idéia de um guia não era estranha ao próprio Joyce. Reconhecendo a complexidade do livro, ele elaborou um diagrama explicativo "para uso doméstico". No diagrama, Joyce adotou a divisã…

Fotograma feito de sertanices

Imagem
Quatro 1: espelhos do sertão 

Já acena este agosto – o principia
De suas tragédias ou de suas alegrias
Muito do seu de narrativa
Em curtos capítulos
Componho-o em versos
Que juntos o chamo de poema

Com um feixe de poemas que
Intimamente conversam comigo
Toda vez que os leio ou releio
Tento pintar em quadros espelhados
O que há anos inspirado em matéria de memória
Chamo de sertanices.

Quadro 2: invenção do sertão

Muitos dos episódios que se desdobram
Se revelam, enovelam, empoetizam-se
Na pureza e no lirismo da paisagem sertaneja
Afinal são sertanices.

Porque o sertão em seu enlevo encantatório
Define-se em poesia por si mesmo –
Com o seu destino, seus homens,
Suas raízes, suas lembranças.

Quadro 3: sertanices

O sertão que me vêm à memória
Perambula do mais amplo horizonte imaginável
Perpassa por figuras algures
E emerge pela rachadura das palavras
Desfraldadas em closes enigmáticos
Que juntas chamo de sertanices.

Um arquétipo colossal
Do escape por um triz
Da queda destas memórias em pa…

Acossado, de Jean-Luc Godard

Imagem
Com improvisação e referências que misturam o pop e o erudito, cineasta injetou oxigênio no modo de filmar

Na metade da década de 1950, um grupo de atrevidos cinéfilos franceses, apaixonados por Hollywood e cheios de idéias na cabeça desenvolveu a chamada Teoria do Autor. Nas páginas da revista Cahiers du Cinèma, os então críticos Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol e Eric Rohmer endeusavam diretores hollywoodianos e europeus, nas obras dos quais identificavam uma assinatura e formatos narrativos que traziam modernidade à linguagem do cinema. Um dos modelos era o neo-realismo de Roberto Rosselini, que filmava nas ruas, com fracos recursos de produção e sem seguir um roteiro à risca. Por meio desse exercício de admiração e de capacidade analítica, nasceu um dos movimentos mais cultuados e influentes da Europa, a Nouvelle Vague (Nova Onda), um exemplo de renovação na linguagem cinematográfica.

Desse conjunto de grandes nomes, o de Godard tornou-se o mais …

Dossiê James Joyce: peças para um retrato do artista (III)

Imagem
Enquanto prosseguia a seriação do livro Um retrato... o escritor começa a escrever o romance Ulysses. Por esta época, 1914, foram muitos os reveses - basta lembrar que então eclodia a Primeira Guerra Mundial. E é por causa da guerra que Joyce sai de Trieste (apesar de pretender continuar por lá) e vai para Zurique - Suíça -, onde fica até 1919. Depois de quatro rejeições pelas editoras do seu livro Um retrato... Joyce o tem publicado pela conhecida editora Harriet Shaw Weaver, a mesma responsável pelo The Egoist.

Com o fim da guerra, em outubro de 1919, Joyce volta para Trieste, agora território italiano em sua boa parte. Mas, ao encontrar a cidade como um caos, o escritor volta novamente para Paris, onde residiria por longos vinte anos. Adquirindo uma certa estabilidade, Ulysses nasce nesse momento, em 1921, depois de trabalhar nele desde seus vinte oito anos de idade, quando ainda escrevia o conjunto de contos de Dublinenses.

Originalmente teria o romance 22 capítulos, mas ao longo…