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Mostrando postagens de Maio, 2008

Os sete samuarais, de Akira Kurosawa

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Acusado de dar as costas para sua cultura, nesta obra o cineasta mescla uma dinâmica de ação com uma tradição tipicamente japonesa

Na juventude, Akira Kurosawa desejava ser pintor. Incentivado pelo irmão mais velho, cinéfilo de carteirinha, e apaixonado pela produção americana (sobretudo a de seu ídolo John Ford), enveredou pelos caminhos da Sétima Arte para não sair mais. O passado artístico, porém, nunca deixou de influenciar os métodos de trabalho do diretor: todos os seus longas foram concebidos por meio de um meticuloso trabalho de composição. Kurosawa fazia storyboards enormes em forma de quadros, levava meses filmando e utilizava no mínimo três câmeras para cada cena. Tanto esforço deu resultado: tornou-se o mais respeitado cineasta japonês. Deixou marcas em obras tão distintas quanto os westerns de Sergio Leone, a saga de Guerra nas estrelas (1982-86) e os pontos de vista múltiplos de Quentin Tarantino (saídos de Rashomon, de 1950). Só sofreu a resistência em seu país natal, o…

Raduan Nassar

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Raduan Nassar nasceu em Pindorama, cidade do interior do Estado de São Paulo. Seus pais, João Nassar e Chafika Cassis, haviam se casado em 1919 na aldeia de Ibel-Saki, no sul do Líbano e em 1920 imigraram para o Brasil; a família junta-se a parentes que já estavam no país e começam a trabalhar no ramo do comércio, no interior do Rio de Janeiro. Um ano depois, mudam-se para a cidade de Itajobi, interior de São Paulo e mais tarde, em 1923, para Pindorama. Na cidade onde nasceu, o pai do escritor abriu uma venda que logo seria transformada numa loja de tecidos, aCasa Nassar.

Em 1943, Raduan inicia seus estudos no Grupo Escolar de Pindorama. Expansivo e de ótima memória, o aluno é freqüentemente chamado para recitar poemas nas datas comemorativas, mesmo com sua dificuldade em pronunciar corretamente o r fraco. Segundo ele, neste ano tem "uma das melhores alegrias da infância" de que se lembra, ao ganhar um casal de galinhas-de-angola do pai.

Como é de costume nos interiores do B…

Fernando Pessoa e a Coca-Cola

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Fernando Pessoa foi um homem de ideias – ninguém duvidará disso. Mas, realizá-las, bem, realizá-las é outra história. Ganhou a vida mais como tradutor de inglês para o português, numa época em que Portugal mantinha uma profunda dependência com a Inglaterra. E como sujeito tido para ideias poderia, se tivesse jeito com elas se tornado um homem de negócios?
Possivelmente. Sabe-se que foi um dos inventores da famosa revista responsável pela consolidação do modernismo em terras portuguesas, a Orpheu; esta talvez um dos seus primeiros empreendimentos, mas que só durou três edições, uma delas não publicada. Antes, havia criada a editora e tipografia Íbis, instalada em 1907 no Bairro da Glória e mal funcionou; no mesmo ramo, criou em 1921, a Editora Olisipo que só publicou três antologias de poemas em língua inglesa, A invenção do dia claro, de Almada Negreiros, o folheto Sodoma divinizada, de Raul Leal, Canções, de António Botto (essas últimas publicações apreendidas pela censura) e só. Pl…

Marguerite Yourcenar

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Durante toda sua vida, Marguerite Yourcenar se esquivou de qualquer tipo de confidência, inclusive quando escreveu sua autobiografia, O labirinto do mundo. O primeiro volume, Recordações de família (1974) está dedicado à figura de sua mãe e à sua família, e o segundo, Arquivos do norte (1977) à família de seu pai, um homem aventureiro. Segundo muitos críticos, a ideologia, as paixões e a concepção de mundo da escritora devem ser buscadas nos seus livros e não nos acontecimentos de sua biografia, que ela simplesmente cuidou de manter em silêncio por considerar, provavelmente, que não tinham o menor interesse para os seus leitores.
Em meio século de literatura, Marguerite Yourcenar compôs uma obra breve e de alta qualidade: catorze livros em prosa, dois de poemas, seis peças de teatro e seis volumes de traduções. Nunca deu nenhum por terminado e toda sua obra foi reescrita uma e outra vez. A escritora deixava que as edições esgotassem e impedia uma nova publicação durante anos; era qua…

2001 - uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick

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Ficção científica revolucionária discute a aventura do homem para compreender o mistério da criação

A odisséia no espaço narrado em 1968 pelo genial Stanley Kubrick pode parecer tediosa quando vista por olhos acostumados ao ritmo incessante das aventuras intergaláticas de Guerra nas estrelas (1977). Mas, desde seu ponto de partida, trata-se de uma obra surpreendente: o diretor filma um grupo de hominídeos da pré-história disputando domínios à base de paus e pedras. Por perto, um enigmático monólito, que reaparecerá em outra etapa do filme como seu símbolo mais marcante. Até que um pedaço de ferramenta arremessado para o alto funde-se com a imagem de uma espaçonave cruzando o cosmos. Assim, neste famoso plano que esboça um salto no tempo de milênios, está dado o tom filosófico que só cresce ao longo da narrativa.
Sabe-se que os astronautas terão de enfrentar um computador que assumiu o controle da nave, HAL 9000. Construído para gerenciar a missão a Júpiter, o mecanismo tecnológico fala…

John Steinbeck no cinema

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O cinema foi generoso como Steinbeck e ele com o cinema. Foram feitas, desde que alcançou a notoriedade ainda jovem (publicou em plena efervescência liberal rooseveltiana As vinhas da ira em 1937 e havia nascido em 1902, tinha, portanto, 35 anos) 17 filmes sobre obras suas e não seria estranho ver outras nos próximos anos. O sucesso cedo levou também a ser quisto para a escrita de alguns roteiros – tarefa que levou ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original pelo filme Um barco e nove destinos, de Alfred Hitchcock.
Da extensa leva de títulos há quatro filmes mais famosos cuja narrativa é produto de uma adaptação da obra de Steinbeck. Além de As vinhas da ira, adaptada por John Ford em 1940, houve Boêmios errantes, dirigido pela solvência e sutileza com que Victor Fleming representava as ambiguidades sexuais nas relações entre amigos – Spencer Tracy e John Garfield executaram com maestria um desses primorosos duetos masculinos que aparecem nos ensaios a gênio de Hollywood.
Não po…

Por que ler os clássicos: os livros de Italo Calvino (Parte 1)

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Se uma parte dos escritores preferem não avançar sobre o tema de quais são os seus livros preferidos a título de não causar mal-entendidos entre os da sua comunidade, uma pequena quantidade prefere citar os clássicos, outra esnobá-los, outra só falar sobre o assunto quando interpelado por gente muito próxima e mais outra que prefere não citar ninguém, mesmo tendo sua lista de preferidos, como sabemos que todos têm.
Italo Calvino foi um dos poucos que preferiu, não só registrar suas leituras fundamentais no extenso trabalho de crítica literária que é exemplo para qualquer iniciante ou reconhecido na área, como comentá-las sistematicamente ao ponto de, naturalmente, oferecer-nos uma resposta para uma das perguntas mais cabeludas da literatura: o que é um clássico? E todo esse itinerário de leitor lhe forneceu algumas especulações e formulações só dadas à aproximação aos que guardam pelos livros uma paixão fora do limite de culto ao objeto, mas pela sua forma e o conteúdo.
Em 1981 escre…

Manual de pintura de caligrafia, de José Saramago

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Manual de pintura e caligrafia é o primeiro romance de José Saramago; pelo menos até enquanto o escritor português não admitiu publicamente que aquele A viúva, publicado em 1947, com outro nome, Terra do pecado era um romance que estaria na sua tábua bibliográfica. É uma obra que traz, desde seu título, uma marca na escrita saramaguiana: a de revisão das terminologias e, logo, de conceitos, dados aos gêneros. Chamar um romance de manual e de pintura e caligrafia tem toda uma diversidade de sentidos que foge da ideia que se tem de um manual - geralmente descritivo e prescritivo - coisa que o texto em questão não é.

Lido pela crítica como um romance cujas margens vem povoadas por ecos de uma biografia do próprio autor - sendo, portanto, o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Entendendo que a crítica às vezes fala tanto que beira a linha do indevido, prefiro ver que a materialidade deste texto é tão somente do território da ficção, afinal todo trabalho do tipo é permeado pela imaginaç…

Maiakóvski: o farol que era um poeta*

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Por Francis Combes




Sou poeta, e exatamente por isso é que sou interessante. É sobre isso que escrevo; sobre o resto só foi defendido com a palavra.
Maiakóvski


Antes mesmo de ter colocado "o ponto final com uma bala" em sua própria vida, Vladímir Maiakóvski tinha saltado para a história. Durante o período soviético, ele, que não queria estátua como monumento póstumo, mas um fogo de artifício, foi com freqüência estatuado, fixado na pose do "poeta da revolução", quando era deixado na sombra (e por muitas vezes censurado) o que nele ultrapassava o cenário da época. Stálin não tinha escrito "Maiakóvski é o melhor e mais talentoso poeta da época soviética. A indiferença à sua memória é um crime"? Maiakóvski tornou-se assim um "clássico"... Certos poemas seus eram conhecidos de todos e ensinados às crianças. Lembro-me de ter visto no cemitério de Novodievitchi, lenços de pioneiros colocados sobre seu túmulo... Seu apartamento tinha sido transformado em…

O mensageiro do diabo, de Charles Laughton

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Robert Mitchum se encaixa com perfeição no papel de um psicopata que assombra criancinhas nesta grande fábula sombria

Quando fez O mensageiro do Diabo, o currículo de Charles Laugton tinha apenas uma co-direção (O homem da Torre Eiffel, de 1951). Era na atuação que este inglês fizera seu renome, até então com mais de 50 papéis – alguns deles, desempenhados soberbos sob a direção de gênios como Alfred Hitchock e Jean Renoir. Tal experiência nos sets de filmagem parece ter se transportado para este longa-metragem, peça única, inimitável e, ao mesmo tempo, herdeira de outros estilos cinematográficos.

O filme possui imagens em preto-e-branco bem contrastado, semelhante às fotografias do expressionismo alemão e do noir norte-americano. Se a estética é influência dos austríacos Fritz Lang e Otto Preminger (este, quando já filmava nos Estados Unidos obras como Alma em pânico, de 1952), o tom da história é o do Hitchock, com engendrado suspense mesclado com humor. Mas a violência é maior e, d…

O homem nu, Fernando Sabino

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Talvez a maneira mais fácil de conhecer um pouco da obra de Fernando Sabino seja começando por assistir um filme dirigido por Hugo Carvana e baseado numa crônica de mesmo do escritor – O homem nu. O filme tem o ator Claudio Marzo no papel principal. Deixou uma obra extensa; sendo talvez um dos mais prolíficos escritores da literatura brasileira.
Nascido em 1923 em Belo Horizonte, era nervoso, vivo, inteligente, e, de tanto escutar a conversa dos adultos atrás da porta, achou que devia ser mesmo diferente dos outros. Pode-se dizer que foi um sujeito precoce ainda que a palavra, quando ouvida pela primeira vez pelo ainda garoto, tenha lhe soado quase que como uma ofensa. Aos sete decidiu que já podia tomar banho sem ajuda da ama Floripes; aprendeu a ler sozinho; apaixonou-se muito cedo (pela professora); foi campeão de natação; teve seu primeiro conto publicado quando tinha só 13 anos. Mas a primeira namorada, Letícia, foi quem recebeu a confissão do menino – “Quando eu crescer, vou s…