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Mostrando postagens de Fevereiro, 2008

Políticos, políticos, políticos e (conscientização, votos e musiquinhas)

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Por Pedro Fernandes



Políticos brasileiros só podem ser mortos com estacas, água benta ou exorcismo realizado pelo próprio papa. A teoria mais popular diz que são orcs de Sauron disfarçados, enquanto outros defendem a idéia de que na verdade são primos pobres do Drácula curtindo a aposentadoria em um país tropical.
Aliada a toda utilidade surgem futilidades. A epígrafe acima foi coletada de um site, o Desciclopédia, que é na verdade uma enciclopédia criada pelos usuários da rede mundial de computadores, apenas para divulgar bobagens, conspirações e mentiras (quer dizer, algumas não deixem de ter certo traço de verdade). A intenção de colocar uma epígrafe como esta em um artigo sobre política é plausível porque soa algo de seriedade no fundo de toda brincadeira; e tão pura, a verdade, que parte da boca do povo. No limiar de pensamentos como este duas conclusões perigosas se formam:

1. o povo brasileiro sente-se em crise com seus representantes. O controverso é o fato de ser desse tipo de e…

Goethe: uma figura da modernidade e do romantismo

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Goethe é uma personagem que desperta paixões controvertidas ainda hoje e é um nome da cultura germânica a quem devemos as primeiras pedras da modernidade e a inauguração do sentimento romântico do culto à genialidade e inclusive, certa atitude inédita até então, que é a de ver no escritor a presença viva do Criador, o que seus contemporâneos consideraram a simples chama da vaidade. “Sempre foi tratado como um sujeito mimado e privilegiado”, dizia Eckermann, autor de Conversações com Goethe.  “Não queria me lamentar do curso de minha vida, mas na realidade não foi mais que trabalho e esforço, e posso dizer que ao longo de meus 75 anos, apenas passei quatro semanas agradáveis. De minha atividade tanto interior como exterior, se exigiu demais”.
Goethe nasceu em Frankfurt no dia 29 de agosto de 1749, no seio de uma família que, pelo lado materno, se dedicava às leis, e pelo lado paterno era de artesãos e comerciantes abastados. Realizou os estudos de advocacia em Leipzig e Estrasburgo, c…

Bertolt Brecht

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São raras as vezes em que a popularidade de um artista se confunde com a grandiosidade de seu trabalho. Não que a grandiosidade de um trabalho artístico esteja atrelada (ou deva estar necessariamente presa) a um circuito fechado de profundos entendedores e apreciadores. Aliás, talvez esta separação tenha sido o grande agravante ou pelo menos parte dele, quando o assunto é o grande declínio sofrido pelas artes na sociedade contemporânea. Mas, o desenvolvimento dessa ideia pode servir para outro debate que poderemos produzir por aqui; por enquanto, serve-nos de base para verificar o amplo campo de influências que a obra de um artista produziu aos de seu tempo e aos que vieram depois dele e ainda para visualizar sua popularidade.
Bertolt Brecht colocou seu trabalho a serviço de uma ideologia – não a comum, mas a de interrogação sobre o mundo e a ordem predominante. Terão acusado de arte panfletária e vazia esteticamente? Sim. Muitas vezes. O fato é que sua obra é um grito pungente sobr…

O Legado de Bellow

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Por J. M. Coetzee


1. Entre os romancistas estadunidenses da segunda metade do século XX, Saul Bellow sobressai como um dos gigantes, talvez o gigante. Seu período principal abarca desde o começo dos anos cinquenta (As aventuras de Augie March) até meados dos setenta (O legado de Humboldt), ainda que, todavia, em 2000 tenha publicado uma narrativa notável (Revelstein). A Biblioteca Nacional dos EstadosUnidos publicou agora os três primeiros livros de Bellow num único volume de mil páginas: Dangling Man (1944), A vítima (1947) e As aventuras de Augie March (1953). Bellow se converte, assim, no primeiro escritor de romances que recebe em vida o imprimátur da biblioteca.
Dangling man é um romance curto em forma de diário. O escritor do diário é um jovem de Chicago, Joseph, formado em História desempregado e mantido pelo trabalho de sua esposa. É o ano de 1942; os Estados Unidos estão em guerra e Joseph permanece na expectativa que o chamem à junta de recrutamento. Enquanto espera usa seu di…

Sindicato de ladrões, de Elia Kazan

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Performance do protagonista transformou-se em modelo nas aulas de interpretação


Já a primeira cena impressiona: homens saem enfileirados de um barraco ordinário no cais, com navio ao fundo, numa região degradada. Não é um cenário, mas uma tomada feita em locação na região portuária de Nova York pelo grande cineasta Elia Kazan. Sindicato de ladrões é uma das produções que renovaram a Hollywood clássica, ao lado de, por exemplo, Juventude Transviada (1955), de Nicholas Rey, e Anjo do Mal (1953), de Samuel Fuller. Na época do seu lançamento, o filme de Kazan foi um assombro. O realismo das imagens, com seus personagens em roupas amarfanhadas, o frio real nas ruas geladas do inverno nova-iorquino, tudo isso era, senão inédito, raríssimo num cinema que se resolvia em encenações de estúdios.

Como essa geração de cineastas fazia filmes que também respondiam às incertezas e desilusões do povo norte-americano na virada dos anos 1040 para os 50, Kazan levou para o seu cinema tanto as discussões…

Boca suja (fragmento)

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in verso, poesis, in poesia, [re] verso

i'm f r a g m e n t a d o espartilhado

violentado por maiúsculas superiores

machine desejante

filho um cruzzamentto homofóbico e apocalíptico -

deus in diabo / diaboindeus


* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

O poderoso chefão, de Francis Ford Coppola

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Saga da família no mundo do crime consolida marca autoral na Hollywood dos anos 1970

O Poderoso Chefão é fruto do casamento entre duas tradições de cinema distintas, a da Hollywood industrial com o filme de arte europeu. Em termos práticos, um grande estúdio financiou a criação extremamente autoral de Francis Ford Coppola, que, ao mesmo tempo, cumpria as exigências de um produto comercial.
A Paramount, nos anos 1970, momento em que os grandes estúdios trabalhavam sem as regras rígidas do período de ouro (entre os anos 1920 e 1950), estava francamente aberta aos novos cineastas e deu a chance a Coppola demonstrar do que era capaz. Ele dirigiu com o mesmo afinco que teria se estivesse sob vigia dos executivos da casa; se falhasse, eles o teriam substituído.
Mesmo nesse clima tenso, o cineasta conseguiu verter em imagens o romance homônimo de Mario Puzo, que mostra a saga de Vito Corleone (Marlon Brando) na América, lutando para manter intacto o núcleo familiar – que ultrapassa parentes …

Estudei e num aprendi português

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Por Pedro Fernandes



A aula de gramática deve implicar numa atuação participante de professor e alunos, movidos pelo desejo da descoberta científica. A ordenação dos achados é uma fase final no procedimento pedagógico.
(Ataliba Castilho)
Os estudos do francês Ferdinand Saussure (1857 – 1913) o fizeram considerado pai da Lingüística por ter redimensionado e ao mesmo tempo revolucionado as questões que se referem à língua e à linguagem. Nestes moldes, a teoria saussuriana será precursora de transformações diretas ou indiretas no que compete ao campo do ensino de língua materna. Ao dividir o signo em langue e parole, a Lingüística fundamentada em novas concepções passa a ser considerada inimiga ferrenha do tradicionalismo gramatical. Isso porque ela passa a considerar uma heterogeneidade lingüística, frente à homogeneidade pretendida pela gramática normativa. Então, a fim de se manterem na tradição a idéia é atirar granadas espalhando mitos de que a Lingüística concorda – e até apregoa! – c…

No extenso horizonte sangue

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no extenso horizonte-sangue
que desenha-se ao longe
enxergo-me nu. desnorteado. desordenado.
fugindo de mim no espaço.

e no vôo rasante
rasgo o céu diamante.
esbarro nas tintas d'aquarela-aurora.
por horas fico suspenso.
o globo corroendo minha coluna.
com seu peso.

desacordo.
enxergo dentro de mim.
minhas entranhas podres.
arranco-as fora:
fígado. baço. intestinos.
e poluo os oceanos.

pendente.
com min'alma nas mãos.
sou vil amante do caos.
da solidão.
de perto transmutado.
dilacerado. desfigurado.

no extenso horizonte-morte.
a escuridão escondeu minha face.
estou cego debatendo-me em trevas.
fugindo de mim no espaço.


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Poema-conto de sonho-cabaré

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na tarde sombria que alarde
ouço por baixo dos panos sujos, ensebados
de suor e gozo
os gemidos frenéticos
vindos do quarto ao lado.

parece uma ladainha
cantada, gritada em latim vulgar
ou um grito rasgado de rito
de ave-maria barroca.

e mais tarde
sob o desvario frenético
da última trepa da noite
como açoite aos meus ouvidos
a sirene de uma ambulância
e de carros de polícia
cercam o casebre
debruçado na beira da estrada
solitária e vazia.

alguma coisa comia meu pensamento
entre o entra-e-sai de meu órgão copiosamente
inebriado no orvalho do sulco vaginal.

a prostituta vizinha
que gritava e gemia
encontra-se nua e estrangulada
no meu pensamento.

quando de súbito acordo e recordo
mentalmente de nada,
passou,
um sonho,
uma polução noturna.


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Erico Verissimo

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“O que penso de mim mesmo? Depende da ocasião. Nos momentos escuros, minha tendência é considerar tudo quanto produzi até hoje medíocre ou mesmo mau. Nas horas claras, porém, olho com mais indulgência para a minha obra e concluo que, dentre os vinte e poucos livros que escrevi até hoje, uns três ou quatro possuem alguma importância e pelo menos um deles – creio que O continente – sobreviverá por algum tempo. Sei que não sou, nunca fui, writer’s writer, um escritor para escritores. Não sou um inovador, não trouxe nenhuma contribuição original para a arte de ficção. Tenho dito  escrito repetidamente que me considero, antes de mais nada, um contador de histórias. Ora, nos tempos que correm, contar histórias parece ser aos olhos dos críticos o grande pecado moral literário. A chamada ‘boa crítica’ considera a história ou estória, como queiram, uma fama inferior de arte. Na minha opinião isso é, por um lado, uma atitude esnobe e, por outro lado, um equívoco semântico segundo o qual a hist…