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Mostrando postagens de Novembro, 2007

José Lezama Lima: o peregrino imóvel

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Por Eliseo Alberto


José Lezama Lima (1910-1976), poeta universal do século XX cubano morou apenas em duas casas em 66 anos e só viajou três vezes ao estrangeiro – quando criança, aos Estados Unidos, e adulto, ao México e à Jamaica. Ao recordá-lo, além da admiração, não posso deixar de perguntar-me se será certo que na hora de sentarmo-nos a relatar a história de nossos povos órfãos, ao menos nas versões emocionais do acontecido, a contundência da “verdade” resulta mais importante que a vibração do “mito”. A vida e a obra de Lezama logram um equilíbrio de aparência muito forte: desde a descoberta de sua vocação literária, feitiço que terá convertido em seu próprio talismã, sua idolatria, o escritor enclausurou o nome José entre quatro paredes de verbos e sonoridades; essa submissão, sem dúvida, foi o estímulo suficiente para realizar a façanha de nos propor um mundo tão deslumbrante como real, uma Cuba, uma Havana, um espaço onde a imagem devia estar à frente aos feitos, na convicção d…

David Mourão-Ferreira: o homem e a obra

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Por Teresa Martins Marques


David Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa, em 24 de Fevereiro de 1927, tendo falecido nesta mesma cidade, em 16 de Junho de 1996. Personalidade multifacetada, foi poeta, ficcionista, tradutor, dramaturgo, ensaísta, cronista, crítico literário, conferencista, professor. Licenciou-se em Filologia Românica (1951) com a tese «Três Coordenadas na Poesia de Sá de Miranda», pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Integrou os corpos redactoriais das revistas Seara Nova e Graal (1956-1957). Teve a seu cargo a rubrica de crítica de poesia no Diário Popular (1954-1957). A partir deste ano exerceu funções docentes na Faculdade de Letras como assistente, tendo desenvolvido um excepcional trabalho de organização e regência da recém criada cadeira de Teoria da Literatura, onde desenvolve estudos pioneiros em Portugal, sobre o new criticism. Em 1963 o seu contrato foi rescindido, vindo a ser novamente reconduzido a partir de 1970, leccionando Literatura Portuguesa …

salvação

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Despido de minha alma,
Na calma da noite,
Anjo decaído,
Divaguei por terras alheias de meu pensamento vago.
Encontrei como minha cara espichada num Cristo
– esquema ilusório.

Uma lágrima virada em rio caudaloso.
Voz suave no silêncio do tempo,
Estou preso num leve desespero.
Enxergo-me atraído pelo inferno dantes.
Não quero mais dormir.

Olhei minha alma por vezes cortada no espelho,
Cheiro de morte no ar,
Estou prestes a pular no cansaço de meus olhos.
Desperdicei meu tempo preso em mim.

Preciso de palavras pra esse caso de emergência.
Pra cumprir um poema sem nexo.
Sem cor, sem amor, um poema suicida.
Preciso das sombras delas pra dilatar meu funeral.
Debaixo do tempo me esconderei,
Amarrado no desespero.

Nunca me vi alma vil presa – estranhei.
Cedo ou tarde tenho de me despedir de mim.
Voltar ao começo:
Anjo decaído preso no tempo
– pensamento vago.
Cara espichada em versos verde lodo
– Cristo bugre.
Alma cingida por fitas vermelhas
– o desespero, uma solidão nua.
Prestes a jogar-s…

Minicurso Auta de Souza in verso e (re) verso

Este é o minicurso será administrado por Pedro Fernandes, aluno do curso de Letras/Língua Portuguesa, a partir de quarta-feira, dia 04 de dezembro, durante a XIV Semana de Letras e Artes da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

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Auta de Souza nasceu em Macaíba (RN), em 12 de setembro de 1876. Filha de Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza e irmã de dois políticos e intelectuais, Henrique Castriciano e Eloy de Souza, aos 14 anos apareceram os primeiros sinais da tuberculose, obrigando-a a abandonar os estudos e a iniciar uma longa viagem pelo interior do Rio Grande do Norte em busca da cura.

É uma das autoras potiguares que mais ficou conhecida fora do estado. Sua poesia, de um romantismo ultrapassado e com leves traços simbolistas, circulou nas rodas literárias do país despertando sempre muita emoção e interesse, e foi fartamente incluída nas antologias e manuais de poesia das primeiras décadas.

A peregrinação pela cura não surtiu efeito e Auta de Souza mor…