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Aurora Bernárdez, sem Julio Cortázar

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O nome de Aurora Bernárdez nunca conseguiu ser desassociado da figura de Julio Cortázar, com quem se casou em 1953 e com quem viveu em Paris durante a etapa mais prolífica do escritor argentino, incluindo a de criação de O jogo da amarelinha. Mas com a publicação de O livro de Aurora (Alfaguara), vem à luz uma faceta desconhecida desta tradutora argentina filha de galegos, viajante ativa e, agora, escritora póstuma.
A edição é publicada graças ao empenho do compositor e cineasta francês, amigo íntimo de Aurora Bernárdez desde o início dos anos 1980, e quem, junto com Julia Saltzamnn organiza o livro. Segundo Philippe Fénelon, não há mais nada além dos textos agora publicados. Isto é, este o primeiro e também o último livro da escritora.
Livro que é uma revelação mesmo para alguns do seu círculo de amizades, afinal, se os mais achegados a Aurora sabiam que ela escrevia, mesmo assim, grande parte não haviam lido nada. “Ninguém, exceto sua irmã Teresa e Perla Rotzait, sua amiga poeta d…

Boletim Letras 360º #224

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Neste domingo, 25 de junho, encerramos a promoção que sorteia um exemplar dos Contos completos, de Dostoiévski; como dissemos no Facebook, alcançando ou não a marca dos 200 inscritos, meta que havíamos estipulado para a realização do sorteio. Interessados em participar, basta ir aqui. Bom, sem delongas, eis, então, as notícias que copiamos esta semana no mural do Letras no Facebook. Muita novidade boa – diga-se.


Segunda-feira, 19/06
>>> Brasil: A Sesi-SP Editora lança o Auto da Sibila Cassandra, de Gil Vicente
A peça foi representada pela primeira vez no Mosteiro de Xabregas nas matinas do Natal à rainha viúva D. Leonor, provavelmente em 1503 ou 1513, embora a Compilação não dê nenhuma indicação sobre a data. Segundo as próprias palavras do autor, o auto trata "da presunção da Sibila Cassandra, que como por espírito profético soubesse o mistério da Encarnação, presumiu que ela era a virgem de quem o Senhor havia de nascer. E com esta opinião nunca quis casar". Ou se…

Como enfrentar Ulysses

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Por E. J. Rodríguez

Foi meu pai quem me aconselhou algumas vezes, com ênfase, a leitura de Ulysses. Suas recomendações sempre eram certeiras e sua paixão por este livro mais que evidente – ele havia lido quase de uma sentada a primeira vez e acreditou, crasso erro, que comigo ia acontecer a mesma coisa –, e então tentei mergulhar em sua leitura duas ou três vezes. E duas ou três vezes abandonei o romance depois de ler, ou melhor diria, de tropeçar entre linhas, durante um par de capítulos. Pensava que melhor dedicaria meus esforços a livros menos inóspitos.
Há algo no início do Ulysses que pode desfazer o ânimo inclusive dos leitores mais treinados e dispostos. Posso dizer, é o único livro que tive de abandonar não porque fosse um mal livro, mas porque me dava por vencido. Esta é uma sensação que muitos leitores experimentam com este romance, embora exista uma minoria privilegiada, ou sortuda, ou talvez mais evoluída, que consegue mergulhar na obra já num primeiro contato. Mas se escr…

A ilha, de Aldous Huxley

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Por Pedro Fernandes


O romance de tese é costumeiramente descrito como produto do naturalismo. Trata-se de uma prosa narrativa a serviço da demonstração de um determinado ponto de vista assumido pelo escritor. Mas, atenção! Em menor ou maior grau, toda obra literária, porque construída na e pela linguagem, está interessada em apresentar ou defender certa maneira de compreensão do mundo. Isto é, toda obra literária não está apartada de uma esfera ideológica como foi possível passar acreditar ingenuamente a partir de certo momento da história da literatura. O que, entretanto, favorece o conceito do romance-tese, é que, neste os pontos de vistas são muito transparentes e participam no enforme das personagens, situações e mesmo da atmosfera da narrativa; ou seja, não se trata meramente de uma incursão dispersa através da qual se materializa direta ou indiretamente uma dissertação sobre um tema ou uma questão qualquer. Outra observação pertinente: não se trata de uma forma presa ao período …

George Orwell e a podridão dos livros

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Por Javier Borràs



Um livro velho fede a moscas mortas, o pó rasga a garganta e deixa a língua pesada. Mas, durante o frio inverno londrino, na livraria Booklover’s Corner, ele precisa carregar quilos de romances em degradação, protegido com um lenço e sem aquecimento porque se não os vidros embaçam e os clientes não podem ver o mostruário. Quando um possível comprador entra pela porta, Eric Blair deve mostrar um sorriso e, na maioria das vezes, mentir. Odeia os clientes comuns, em especial as irritantes senhoras que buscam presentes para seus netos e os compradores pedantes de edições especiais, esses que acariciam a capa do livro que acabam de adquirir e o abandonam para sempre numa estante, onde acumula esse espesso purê de pó e cadáveres de insetos a que todo dia deve enfrentar este cansado livreiro. Durante seu longo turno de trabalho, deve se encarregar de raros ensaios que ninguém virá recolher, recusar quilos de romances que um senhor com odor a ranço tenta lhe vender, ou encon…

Três possibilidades sobre a Literatura Gay

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Por Luisgé Martín


Em 1897, Oscar Wilde escreveu na prisão de Reading uma extensa carta para seu amor Lord Alfred Douglas, Bosie, reconstruindo a atormentada relação que haviam mantido e que findou com o célebre julgamento no qual o escritor foi condenado a trabalhos forçados por “conduta indecente e sodomia”. Essa carta, publicada em partes pelos herdeiros pela primeira vez em 1905 com o título de De profundis, constitui de algum modo a pedra fundamental da literatura gay moderna, essa literatura que fala sobre “o amor que não se atreve a dizer seu nome”, como proclamava um verso do próprio Bosie.
Esse amor continuou sem atrever-se a dizer seu nome durante muito tempo. Thomas Mann ocultou o amor carnal entre Gustav von Aschenbach por Tadzio através de uma sublimação estética e espiritual. Konstantinos Kaváfis apenas permitiu que circulassem alguns de seus poemas em vida. E. M. Forster terminou de escrever Maurice, em 1914, mas não deixou publicá-lo se não depois de sua morte, em 1971.…

Inventário, de Heleno Godoy

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Por Pedro Fernandes



Duas coisas chamam atenção sobre a caprichada edição agora publicada pela Martelo Casa Editorial: a primeira delas é a celebração de um nome da nossa poesia contemporânea antes do ponto final de sua obra só colocado se duas tristes circunstâncias se imprimem, a morte do poeta ou sua desistência da lide com a palavra; a outra é a demonstração de que um projeto literário de grande envergadura estético-formal é sempre possível no âmbito de uma literatura que já nos deu tantos nomes de inegável talento para a criação e logo de contribuição indispensável à formação de um universo multissignificativo para a consolidação de um cânone nacional capaz de interpor fronteiras com outros de maior durabilidade e seara na qual todas as obras que vieram depois não terão deixado de dela se aproximar. As duas coisas são de grande valia.
Que a obra ainda é uma possibilidade de tocar a eternidade, esse lugar onde nunca nenhum de nós e nem mesmo os de presença assegurada num cânone uni…