sábado, 24 de setembro de 2016

Boletim Letras 360º #185

Ursula K. Le Guin. A escritora estadunidense entra para o seleto grupo dos que ainda em vida tiveram sua obra incluída em The Library of America

Durante esta semana, foram essas as notícias que recolhemos em nossa página no Facebook, casa que chegou aos 45 mil amigos (isso é já uma cidade artístico-literária!). Até o final de setembro, publicaremos nossa próxima promoção em dupla celebração: aos amigos que nos chegam e ao início da passagem dos 10 anos do blog Letras.

Segunda-feira, 19/09

>>> Brasil: Depois de sabermos da chegada de O homem sem doença, eis outras novidades sobre o holandês Arnon Grunberg

A editora Rádio Londres torna um dos nomes mais conhecidos da literatura holandesa contemporânea mais acessível aos brasileiros. Adquiriu os direitos de outros dois livros do escritor: O refugiado (2003) e Moedervlekken (Marca de nascença), lançado na Holanda em maio deste ano. São livros que saem até o final de 2017.

Terça-feira, 20/09

>>> Brasil: As aventuras de Tintim, de Hergé, em edição fac-similar

Três edições são publicadas agora em setembro pela Globo Livros: Tintim no congo, Tintim na América e Os charutos do faraó. No primeiro, o jornalista e seu cão Milu desembarcam no antigo Congo Belga, na África, para realizar uma série de reportagens. Além de enfrentarem os perigos da selva, os dois encaram um perigoso bandido que está tentando expandir seus negócios de diamantes na região. No volume seguinte a dupla desembarca em Chicago para deter os homens de Al Capone. Após descobrir o paradeiro dos bandidos, Tintim e Milu vão parar em uma tribo de peles-vermelhas, e o encontro com os nativos americanos não será nada amigável. Por fim, no terceiro volume Tintim e Milu vão em busca da tumba perdida do faraó Kih-Oskh. Logo após a descoberta, percebem que ela na verdade é uma fachada para uma sociedade secreta de traficantes internacionais que escondem misteriosos charutos em sua base. Para mandá-los para trás das grades, Tintim e seu companheiro precisarão de uma boa dose de coragem e sorte. As edições fac-similares copiam as primeiras edições das aventuras publicadas pela primeira vez em 1931 e 1932.

Quarta-feira, 21/09

>>> Estados Unidos: Ursula K. Le Guin já figura na lista mais seleta da literatura estadunidense

Um grandes escritor sempre espera receber algumas notícias consagradoras de sua carreira: por exemplo, descobrir numa linda manhã de outubro que esperam sua presença na Suécia. No caso de um escritor estadunidense, além o almejado Prêmio Nobel, também se espera, para sua consagração, entrar para o cânone "The Library of America", o mais próximo da imortalidade entre capas duras. A coleção que se limita a Melville, Twain, Hawthorne e outros mortos destacados poucas vezes esteve segura de acrescentar entre eles um romancista ainda vivo; Eudora Welty, Saul Bellow e Philip Roth formam parte desse pouco. Agora também Ursula K. Le Guin. A ideia original da biblioteca era começar com alguns de sues clássicos de ficção científica. Mas ela insistiu que começasse pelas obras menos conhecidas. "Não quero que me reduzam em ser uma escritora de ficção científica", disse a escritora. "The Complete Orsinia de Le Guin" foi publicado agora em setembro; é o volume 281 da coleção. E inclui um romance pouco conhecido, Malafrena cuja narrativa é ambientada num país centro-europeu imaginário e se compõe de treze histórias relacionadas. O material inclui a primeira metade da carreira da escritora - desde o primeiro conto publicado em 1961 até 1990. Le Guin tem 86 anos.

Quinta-feira, 22/09

>>> Brasil: Até o fim de setembro, a primeira incursão de Luis Fernando Verissimo na literatura infantil

As gêmeas de Moscou, editado pelo selo infantil da Companhia das Letras, fala sobre solidariedade e rivalidade entre duas irmãs. A obra foi escrita sob encomenda da editora, mas Veríssimo diz que o convívio com a neta Lucinda, ajudou a desenvolver a história. O livro sai com ilustrações de Rogério Coelho, que já desenhou para infantis de Ferreira Gullar e Ruth Rocha.

>>> Brasil: Palmeirim de Inglaterra, uma novela portuguesa sobre a cavalaria escrita por Francisco de Moraes em 1544, ganha edição no Brasil

Para a edição publicada pela Ateliê Editorial, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra. O enredo está dividido em duas partes: a primeira trata do nascimento e as primeiras aventuras dos irmãos gêmeos, Palmeirim e Floriano, filhos de D. Duardos e Flérida. A segunda mostra os dois irmãos que saem pelo mundo, realizando façanhas ao lado de companheiros e damas, até culminar na grande batalha final entre “turcos” e “cristãos”, na qual sucumbem muitos dos heróis cuja trajetória acompanhamos nas páginas iniciais. Feitos de guerra e feitos de amor dão um colorido especial ao objetivo maior: a defesa da cristandade.

Sexta-feira, 23/09

>>> Portugal: A edição n.52 da Revista Blimunda, mensário da Fundação José Saramago, já está online

A edição traz conversa com os diretores do Freedom Theatre, companhia que esteve em turnê por Portugal neste mês de setembro e que aposta que o teatro pode ser uma alternativa para os jovens de regiões castigadas pela violência; a reportagem assinada por Ricardo Viel investiga o milagre de haver teatro entre os refugiados de Jenin, na Palestina. Outro destaque é sobre a Festa do Avante! que agora em 2016 marca os 40 anos da sua primeira edição; na revista uma crônica assinada por Sara Figueiredo Costa sobre a festa organizada pelo Partido Comunista Português. Na seção Saramaguiana uma das primeiras críticas ao romance O ano da morte de Ricardo Reis, livro de José Saramago que este mês de setembro regressa às livrarias portuguesas na nova edição da Porto Editora. Escrito por Leonor Xavier e publicado em novembro de 1984, poucas semanas depois da chegada do romance às livrarias, o texto destaca o caráter inovador do romance ao propor um “jogo entre o real imaginário e o imaginário real”, tendo o leitor como parceiro. Isso e mais pode ser lido aqui.

>>> Brasil: Dos livros para as telas do digital, uma versão pós-moderna de Iracema

Um dos clássicos da literatura brasileira, o livro de José de Alencar, ganhou uma versão digital para fazer parte da coleção Clássicos da literatura brasileira em e-books. Apresentado pela Primavera Editorial, além do texto original, o leitor tem acesso a um conjunto de perguntas de múltipla escolha e dissertativas sobre a obra, além de link para assistir videoaulas com explicações e comentários feitos por professores convidados. Tudo como um recurso para melhor facilitar o acesso dos leitores à linguagem poética de "Iracema" que sempre é tida como rebuscada e difícil. A publicação traz recursos para tornar o entendimento mais claro por meio de uma abordagem mais leve.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O dia em que Flávia me mostrou que trinta linhas é pouco demais

Por Rafael Kafka



Em algum dia da semana passada, lembrei-me de Flávia dando aula. Eu a conheci em um contexto de sala, mais especificamente no estágio de minha primeira graduação e desde então nutro profundo sentimento de amizade por ela, mesmo tendo visto-a tão poucas vezes em minha vida. Sempre me questionei acerca de tamanho carinho e penso que a lembrança ocorrida em uma aula que eu dava explicou-me, como uma rara epifania, as causas de tão profunda afeição.

Percebo nos anos todos em que dou aulas em escolas uma profunda dificuldade de meus alunos de escreverem mais do que o limite mínimo de linhas em provas de redação. Se tal limite é quinze é bem provável que todas as redações sigam o padrão desse número de linhas, com raras exceções que o ultrapassam. Atingir quinze linhas para muitos de meus estudantes é como vencer uma árdua maratona a cujo final eles chegam com os últimos suspiros de sua alma cansada.

Se procurar entender o que se passa com eles e explica essa dificuldade, bem provável que eu me depare com jovens sem hábitos de leitura e sem incentivos sociais e familiares para manutenção de tal hábito. Uma pequena conversa com os pequenos revela isso facilmente, com muitos deles expressando profundo desprezo pelos livros, algo que sem dúvida alguma parte meu coração.

Foi em uma aula de redação dessas que fui questionado sobre como melhorar a produção escrita e lembrei da história a qual marca meu primeiro diálogo com Flávia, diálogo este que me marcou profundamente e que me pego até hoje a recordar com sentimento de ternura bastante profundo. Eu estava em sala e passei a conversar com alguns alunos cujas redações eu tinha corrigido a mando da professora que me orientava o estágio naquele momento. Quando chamei-a, Flávia foi logo se justificando o seu texto ruim dizendo que se sentia limitada com o pequeno espaço de trinta linhas de uma redação modelo ENEM.

-Como assim? perguntei surpreso.

-É que tenho muitas coisas a dizer sempre, mas quando estou começando a desenvolver o texto, logo me deparo com o limite de linhas, disse entre sorridente e tristonha.

-Caramba. Isso é raro, viu? Fizeste lembrar de mim mesmo agora, pois sofria demais com esse problema de espaço nos meus tempos de cursinho.

-Sério?

-Seríssimo.

E passei a lhe relatar como eu, em meus tempos de pré-vestibular, na mesma instituição de ensino na qual nós dois nos encontrávamos – eu, quase a me formar em licenciatura em Letras, ela em um curso técnico integrado – levava notas ruins demais nos testes de redação, quando sempre imaginava que iria tirar uma nota incrível e ser altamente elogiado pelo professor da época, o que muito me deprimia e mexia com minha estima pessoal. Agora ali, estava diante de uma moça com a minha idade então – 18 anos – a sentir o mesmo tipo de angústia e isso de certa forma trazia a minha memória um profundo mar de coisas a refletir e a relembrar.

-E como lido com isso, professor?

-Bem, tens de te adequar, usar um texto seco e sólido. Não tem jeito. Há outros espaços onde podes escrever e falar mais, como um TCC no futuro. Mas ali tens de seguir o modelo e isso é bem complexo mesmo no início. Mas és inteligente e sei que vais lidar bem com isso. Pecas por excesso quando tem muita gente que peca por falta mesmo.


Não lembro ao certo o desenrolar do debate e muitas das frases acima são paráfrases de lembranças pessoais. Apenas lembro que essa moça saiu dali mais sorridente e aliviada e anos depois citaria essa conversa como algo que lhe deu confiança para escrever mais e melhor. Encontra-se, inclusive, prestes a se forma em Serviço Social, curso que exige muito do poder de leitura e de discussão de um ser. Obviamente, senti-me muito feliz de ouvir tamanha coisa de uma pessoa que, hoje percebo, marcou demais minha vida de professor com uma simples frase: a reclamação do tamanho de uma redação do ENEM.

Quando eu a ouvi falar, lembrei-me de todo um processo de aquisição de leitura que eu tive em minha vida. Das tardes lendo em casa ou no CENTUR, procurando preencher o tempo entre as crises de angústia andarilha que eu tinha naquele período, as quais culminaram em uma tuberculose. Lembro de como eu sempre tive profundas dificuldades em me adequar a padrões, pois sentia que se me adequasse a um eu poderia perder a possibilidade de ler, de viver, de ser mais para ficar preso em uma rotina tecnocrata e salarial. Lembro de como minha mente sempre estava cheio de minhas próprias angústias e de meu desejo de entender e melhorar o mundo de alguma forma. De como trinta linhas era pouco demais para eu expressar tudo o que sentia diante do mundo doido que estava diante de mim.

Tal sensação de inquietude foi o que me motivou a dar aulas. Gostaria de causá-la em meus alunos sempre que possível. Flávia, naquele momento, me fez relembrar com mais intensidade as principais motivações que me levaram até então e eu vi diante de mim alguém com o mesmo efeito inquietante da leitura, o mesmo desejo de falar e de escrever tudo o que viesse à mente, que passei a admirar ainda mais após conhecer a chamada literatura beat. Aquele desvairismo foi o que me deu forças para querer provocar os alunos que entrassem em contato comigo.

Penso que falhei em diversos pontos nessa empreitada, mas sempre mirei causar essa inquietude. Ao contar a história de como uma pessoa leitora achava trinta linhas pouco espaço, lembrei do efeito que Flávia me causou naquela aula anos atrás e senti uma profunda vontade de dar o abraço mais aconchegante que eu daria em minha vida se a visse naquele momento. Apenas me recompus de um pequeno momento de emoção e segui a dar aula, olhando para aqueles jovens me sentindo alegre de ter podido experienciar algo tão incrível e deprimido por sentir que muita gente vai morrer sem saber que quinze linhas não é um espaço tão grande assim: trinta linhas é que é pequeno mesmo quando a mente estar cheia de devorar tudo o que encontramos diante de nós.

***

Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cobra Norato, uma passagem para o imaginário popular brasileiro


Desde sua primeira edição, em 1931, que o poema Cobra Norato, de Raul Bopp é lido como uma das melhores expressões da literatura brasileira modernista. Entretanto, é preciso que o leitor saiba que essa compreensão está para o nível do tema e não da forma poética. Embora o poeta tenha se aproveitado antropofagicamente de várias versões de uma lenda oral indígena e feito uso do verso livre, sua ideia, diferentemente de outros textos desse período, não se constrói por expressões como a metapoesia, a paródia, o poema-piada ou o uso da linguagem oral. 

Mesmo assim, não pela época em que foi publicado – pós-semana de 1922 e quando o seu autor já havia se tornado um dos importantes divulgadores do Modernismo, à frente da Revista de Antropofagia – mas por incorporar-se nesse período de altos contrastes, naquela linha definida por tantos críticos, a de lamento pela perda da tradição ou apagamento da tradição, causada em parte, diga-se, pelo próprio vento do espírito modernista, sempre sedento pelo novo.

A integração do poema à cena modernista brasileira deu a ele um protagonismo entre os textos canônicos de nossa literatura que dificilmente alcançaria sozinho; o próprio Raul Bopp viu-se, reiteradas vezes, mais como um editor, propagandista do movimento de 22, que mesmo como literato. Sua obra literária, aliás, é bastante breve e a escrita de Cobra Norato se deveu mais ao apoio incontestável de amigos como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, este último nome a quem Bopp atribui o nascimento do antropofagismo literário: “O nome [Movimento Antropofágico] surgiu por acaso. Uma noite, Tarsila e Oswald resolveram levar um grupo que frequentava o Solar a um restaurante. Especialidade da casa: rãs. Uns aderiram à ideia, outros ficaram com os pratos mais corriqueiros. Quando, entre aplausos, chegou a comida, Oswald levantou-se e começou a fazer o elogio à rã, uma blague para explicar a teoria da evolução das espécies. Tarsila interveio: ‘Somos quase antropófagos’. E entre outras tiradas, Oswald proclamou Tupy or not tupy, that’s the question. Logo depois, Tarsila pintou o quadro e batizou de O antropófago. Assim, Oswald propôs desencadear um movimento de reação genuinamente brasileiro”.

Raul Bopp começou a escrever Cobra Norato uma década antes da sua publicação. O livro é resultado de suas andanças pelo norte do Brasil. “A estada de pouco mais de um ano na Amazônia deixou em mim assinaladas influências. Cenários imensos, que se estendiam com a presença do rio por toda parte, refletiam-se com estranha fascinação no espírito da gente. A floresta era uma esfinge indecifrada. Agitavam-se enigmas nas vozes anônimas do mato. Inconscientemente, fui sentindo uma nova maneira de apreciar as coisas. A própria malária, contraída em minhas viagens, acomodou meu espírito na humildade, criando um mundo surrealista, com espaços imaginários. Ensaiei, nessa época, além do esboço de Cobra Norato, alguns poemas avulsos: ‘Mãe febre’, ‘Pântano’, ‘Sapo’, ‘Cidade selvagem’. Procurei restituir em versos, impressões recolhidas em minhas andanças na região”.



Da região foi que Bopp ouviu e agregou uma sorte de lendas e causos para a criação do seu poema famoso: a lenda do Boto, da Cobra Norato – nome com o qual batiza seu texto – e da Cobra Grande, são algumas delas. Para as lendas há diversas versões: a de que a cobra escravizava as tribos e exigia em troca uma jovem virgem; a de que vive embaixo da igreja de Marajó depois de vencida por Nossa Senhora, essa uma clara versão em que se misturam as crendices populares com os discursos religiosos católicos trazidos pelos portugueses. Outra das versões,  recorda Luís da Câmara Cascudo em seu Dicionário do folclore brasileiro retrata que uma índia tomava banho entre os rios Amazonas e Trombetas quando foi engravidada pela Cobra Grande; ela deu à luz a duas crianças, Norato e Maria Caninana. A menina era uma peste e o menino, muito bom, viu-se obrigado a matá-la; castigado, Norato tornou-se cobra e sempre à noite se transformava num rapaz sedutor. Para desfazer o encanto alguém precisaria ferir a cabeça da cobra e pingar leite na sua boca.

Motivado pelo tom fantástico e a diversidade de versões para a história, o poeta gaúcho cria sua própria versão inserindo no seu desfecho um causo popular; nela, Cobra Norato, para sair do encanto em que foi transformado, terá de vencer uma sorte de situações, num percurso que simula a jornada do herói, a fim de conseguir, no fim da viagem, sua condição de homem e o coração da filha da rainha Luzia. Por isso, este é um texto que se filia ainda à longa tradição da criação literária épica.

Já o tom de fábula infantil com o de realismo fantástico que compõe com Macunaíma, de Mário de Andrade e Martim Cererê, de Cassiano Ricardo uma trilogia mítica do nosso modernismo não é gratuito; entre as várias revisões operadas pelo autor, uma delas, a de 1929, visava fazer o poema integrar uma coleção por ele pensada para a literatura infantil, a Bibliotequinha Antropofágica, projeto que não saiu do papel. O interesse não estragou o texto; pelo contrário, o fez densamente mais rico e ampliou a sorte do público leitor. 

No instante em que se integra para uma linha da literatura brasileira nascida com José de Alencar ou Gonçalves Dias, no exercício de busca pelas raízes do autenticamente nacional, da literatura divorciada das influências estrangeiras, Bopp populariza o mito amazônico, num claro interesse que foi o do grupo antropofágico por integração entre os diversos Brasis. Essas observações reforçam não só o burilar da linguagem, mas o lento processo de construção de uma obra capaz de servir às bases fundamentais do Modernismo, tal como outras já haviam galgado esse lugar. 

O poema é composto por 33 cantos breves e ilustra um circuito do herói. No primeiro se apresenta uma proposição acerca da condição de Norato de homem-cobra e o seu desejo em “tornar-se” humano, dado o interesse pela filha da rainha Luzia –

Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raízes
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato

– Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar

A noite chega mansinho
Estrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra.

Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo

Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com sua filha
– Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono escorregou nas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos

– e nos demais toda a sorte de acontecimentos decorrentes da longa empreitada. Cobra Norato funde prosa (forma) e poesia (estrutura); é uma narrativa em versos das venturas e desventuras de um herói – tema caro à literatura universal desde a empreitada de Ulisses no retorno de Troia na Odisseia.

Como bem definiu outros leitores, porque as aventuras aí desenvolvidas parecem situadas num plano onírico, aquele onde todas as possibilidades são realizáveis, pode ler-se ainda como a saga de um eu-poético em busca do amor. Como numa aventura de heróis, terá de vencer uma sorte de etapas, provações, por rios e florestas, num interstício de repulsa e atração por esses lugares até alcançar o outro extremo de sua condição.

Como num conto de fadas, o caminho até à filha da rainha Luzia é povoado de sentinelas e armadilhas que o herói, à base da astúcia, precisará vencer: sapos beiçudos, charcos, o cururu, Cobra Grande. Em todas elas, e até à entrada do buraco da Boiúna, contará com ajudas diversas: como os amuletos doados pelo Pai do Mato que o ajuda contra os sapos beiçudos ou o Tatu-de-bunda-seca que o leva sair do charco e embrenhar-se mata adentro até chegar ao seu destino final. 

O poema é ainda um embate entre duas forças da natureza – o bem e o mal – em que o último, curiosamente, engendra o primeiro, e correspondem dessa maneira um desvelar de pelo menos duas condições do Brasil – a primitiva e a moderna – compondo uma reconstrução do país por uma identidade autêntica e genuína, qual compreendia os primeiro alvores do movimento modernista no país.

Uma e outra condição é exibida no poema pela figuração de temas do imaginário amazônico e o toque da tradição portuguesa como um elemento fundamental no engendramento das nossas fábulas primeiras. Sabe-se que, a filha da rainha Luzia, reúne traços de duas histórias diferentes do imaginário luso: a da filha do rei Sebastião e a da rainha Luzia.

Pela riqueza de temas, da construção da narrativa e do diálogo que constrói seguindo a forma da cartilha da antropofagia é notável que a reedição dessa obra, renova os seus valores para outra geração que ainda precisa descobrir a força do texto de Raul Bopp e de um momento fundamental para a história da nossa literatura.   


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O caso Meursault, de Kamel Daoud


Por Pedro Fernandes



“Um francês mata um árabe deitado em uma praia deserta. São duas horas da tarde no verão de 1942. Cinco tiros, seguidos de um processo. O assassino é condenado à morte por ter enterrado mal sua mãe e ter falado sobre com demasiada indiferença. Tecnicamente, a morte se deve ao sol ou ao puro ócio. A pedido de um cafetão chamado Raymond que está contrariado com uma puta, o seu herói escreve uma carta ameaçadora, o caso se degenera e depois parece se resolver com um assassinato. O árabe é morto porque o assassino acha que ele quer vingar a prostituta, ou talvez porque ele se atreve, indolentemente, a fazer a sesta” – assim o narrador de O caso Meursault resume a obra mais conhecida de Albert Camus, O estrangeiro. É este romance, o ponto de partida para a narrativa de um livro cujo tratamento é o de preencher os silêncios ou reanimar os rumores em torno do acontecimento-chave para a obra que o antecede.

A narrativa proposta por Kamel Daoud, no entanto, não se resume a esse exercício de tapa-lacunas; trata-se de uma composição erguida no campo das hipóteses, porque afinal, o seu narrador não é, mesmo com toda insistência para quem lhe ouve de que o que diz é a mais pura verdade, confiável. Os preenchimentos que aí se dão são de nome: o árabe assassinado por Meursault ganha nome (tema, aliás, determinante neste romance, conforme compreenderemos mais tarde) e família. Mas, o desenrolar dos acontecimentos que determinam sua morte é integralmente posto em xeque e não nos é oferecida qualquer resposta acabada. Essa talvez seja a grandiosidade do texto do escritor argelino: desconstruir, de certa maneira, a narrativa de Camus, mas sem destituí-la da condição há muito assumida. Do contrário, Kamel se propõe a reforçar o status do absurdo, natureza original de O estrangeiro.

Narrado em primeira pessoa por quem seria o único sobrevivente mais próximo do árabe assassinado numa praia da Argélia no triste período de ocupação da região pela França, há uma sorte de ruídos que mais elevam o grau de mistério sobre o fato-chave de O estrangeiro. Isso porque esse narrador, quando torna a falar sobre o irmão Moussa, está sempre tomado por uma condição emotiva propiciada pelo avanço dos efeitos do álcool (a narrativa de O caso Meursault é um monólogo – Haroun, o narrador conta uma sorte de impressões para um ouvinte-investigador interessado, ao que parece, na descoberta das lacunas deixadas por Meursault na narrativa de O estrangeiro); quando o irmão foi assassinado, Haroun ainda era criança e o que tem na memória são flashes sobre o comportamento negativo e de luto da mãe pela perda do filho mais querido e como ele teve toda a vida atingida por esse acontecimento; e, essa é a razão para a existência de O caso..., na condição em que se dá a morte de Moussa, não resta qualquer pista deixada sobre a razão do fim trágico nem o que se passou depois, a não ser o integral apagamento da existência dessa figura por Meursault.

Impossível de oferecer uma resposta acabada sobre o que aconteceu a Moussa, o narrador reescreve à sua maneira a tomada da existência pelo sem-sentido – tal qual a de Meursault – levada ao mesmo ponto do narrador camusiano, como se a vida, essa coisa construída pelo próprio esforço do homem, não a ficção, fosse uma contínua repetição especular. Não significa entender por repetição uma trajetória sobreposta a outra e sim uma trajetória derivada de outra e variável; o leitor de O caso Meursault compreenderá isso quando se deparar com as relações de Haroun entre o texto bíblico, da morte de Abel por Caim e da morte do irmão por Meursault. É como disséssemos que somos seres em cadeia e o mínimo reflexo pode se tornar em algo de grandes efeitos para um indivíduo ou é reverberação contínua para os fluxos da história.

Narrar, como ato de externar um acontecimento, é uma maneira de expulsar certos demônios; a escrita é coadjuvante nesse processo, quando não, no sentido psicanalítico, sobretudo para aquele sujeito tomado pelo isolamento do mundo, uma maneira tal como a narrativa. No caso de Haroun, quem não escreve porque o domínio da língua francesa se dá pela competência de ouvir e falar – é o narrar para outrem o que cumpre esse papel. Enquanto isso, a escrita serve-lhe noutra tarefa – a de não apagamento da memória do irmão, dele próprio e da família. Em O caso Meursault narrar é última maneira de Haroun ser ele, este que é uma figura tomada pela misantropia, e cujo único refúgio que lhe resta é um bar na periferia de Omã. A primeira está na repetição do acontecimento-chave de O estrangeiro, protagonizado por ele e sua mãe; uma maneira de recriar indiretamente a tragédia acontecida com o irmão e oferecer certa explicação sobre o acontecido.

No esforço de expiação do passado, Haroun, depois do contato com a narrativa de Meursault, interessa-se em aprender a língua do assassino para, um dia quem sabe, ser capaz de ao menos dizer o nome do irmão morto – isto é, uma tentativa de ressurreição de Moussa pela linguagem, meio pelo qual sua memória foi antes apagada. A apropriação da língua ganha significação nesse romance porque faz da sua narrativa, desde sua origem, um caso de antropofagia criativa; não é somente o tema e a situação que fomentam O caso Meursault, é ainda a língua, meio pelo qual se desprende uma linguagem própria para a própria existência do narrado. Haroun coloca-se, dessa maneira, como um estrangeiro, qual Meursault – e para saltar do interior da ficção, qual foram os escritores que escreveram na língua que não eram a sua.



No âmbito da compreensão da escrita como registro e manutenção da memória, é válido citar a extensa preocupação do narrador com a perda e a preservação do nome do irmão: “Moussa, Moussa, Moussa... Gosto, às vezes de repetir esse nome, para que ele não desapareça do alfabeto. Insisto nesse ponto e quero que você escreva em alto e bom som. Um homem acaba de receber o seu nome meio século depois de sua morte e de seu nascimento. Insisto nisso”; “É importante atribuir um nome a um morto, tanto quanto a um recém-nascido. É importante, sim. Meu irmão se chamava Moussa”; “Imagine só, meu irmão poderia ter ficado famoso se o seu autor tivesse ao menos dignado a lhe atribuir um nome, H’med, Kaddour ou Hammou, apenas um nome, ora! Mamãe poderia ter conseguido uma pensão como viúva de mártir, e eu teria um irmão conhecido e reconhecido do qual poderia me vangloriar. Mas, não, ele não lhe deu nome nenhum, porque, senão, meu irmão criaria um problema de consciência para o assassino: não se mata um homem facilmente quando ele tem um nome”; “Um ponto, em especial, me atormenta sempre: como foi que o meu irmão foi parar naquela praia? Nunca saberemos. Esse detalhe vira um mistério infinito e causa vertigem quando se pergunta, em seguida, como é que um homem pode perder o seu nome, depois a sua vida e, ainda, o seu próprio cadáver, tudo isso em um único dia”; “Em vez de encontrar nessa história as últimas palavras do meu irmão, a descrição da sua respiração, suas reações diante do assassino, suas marcas e seu rosto, como eu esperava, encontrei apenas duas linhas sobre um árabe. A palavra ‘árabe’ aparece ali vinte e cinco vezes, sem nenhuma menção a um nome qualquer, em nenhum momento”. À história, lembra-nos Haroun, só passam os nomes.

O caso Meursault, apesar do título, não é, como se vê um romance de investigação. É um romance de hipóteses. Uma narrativa sobre os efeitos da morte como desagregadora da família, metonímia para se pensar na própria condição de confronto entre nações. De certa maneira, parte de Haroun (essa obsessão pelo irmão e a maneira de estar sempre à sua sombra) é uma metáfora sobre a Argélia independente ainda assombrada e tomada dos efeitos e mazelas do período de colonização francesa. A um só tempo é também, o marginal, porque não coaduna com certas condições, quais sejam a corrupção e o fanatismo religioso. A escrita é, dessa maneira, um exercício de libertação da imagem do outro e, pela refiguração do indivíduo, a refiguração de uma nação.

Há muito o que se dizer, além dessas notas, sobre esta que é, como se vê, uma acertada e grandiosa estreia de Kamel Daoud no romance. O caso Meursault é uma engenhosa narrativa que reafirma a destituição do valor negativo atribuído à ficção, esse território nunca oposição ao que figura fora do texto literário, e que é capaz de estar sempre em expansão, como o universo e sugerir a entrada em dimensões sobre as quais sempre se sabe contínuas, mas sempre se vê como acabadas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A graça imortal de David Foster Wallace

Por Rodrigo Fresán



Um fantasma percorre a América do Norte (e o resto dos continentes) e esse fantasma é o de David Foster Wallace. E seu cada vez mais vital espectro (seu corpo nascido em 1962, sua alma aparecida em 2008, previu rapidamente o suicídio) reaparece trazendo nas mãos as sagradas escrituras do romance pelo qual é melhor lembrado e, talvez, pior compreendido e apressadamente imortalizado.

Graça infinita, publicado em 1996, aqui e agora, figurando em toda em toda e qualquer lista sobre as jovens marcas do fim e começo do milênio literário (ao lado de American Psycho, de Bret Easton Ellis, quem considera Wallace um farsante hipervalorizado). Graça infinita não cai de moda porque é uma moda em si mesma. Um desses livros – como A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, Moby Dick, O homem sem qualidades, Ulysses ou Em busca do tempo perdido que permanecem, mesmo sem sequer ser aberto, nas mesas de cabeceira ou nas listas de promessas a não se cumprir para as leituras de ano novo. Um totem / fetiche que se divide entre adoradores, entre os que tecem juras de amor por ele ou o maldizem, entre os que o consideram um inventivo grande romance estadunidense ou nada mais, e nada menos, que a invenção de outro romance grande made in USA.

Já desde seu título o próprio Wallace antecipou a dúvida e o mal-entendido: sai desse momento em que Hamlet sustém a caveira do bufão Yorick e evoca sua “inteligência interminável” mas, ao mesmo tempo, insinua a possibilidade de que tudo seja como uma dessas piadas que seguem e seguem sem alcançar jamais o arremate de seu desfecho. E se sabem os audaciosos e convertidos que até ali chegaram: mais de mil páginas e numerosas notas depois, Graça infinita finda sem acabar de um todo, como no ar azul desse céu com nuvens brancas que ilustrava sua primeira edição.

Por isso mesmo, a lenda continua e o lendário não detém sua marcha. Vinte anos depois é reeditado nos Estados Unidos uma edição comemorativa assinalando suas duas primeiras décadas como clássico; edição com prefácio do escritor e cronista Tom Bisell. A única coisa estranha nessas celebrações é que nenhum colega maior ou menor esteticamente mais próximo a Wallace como Thomas Pynchon, Don DeLillo, William H. Gass, Joshua Cohen, William T. Vollmann, Blake Butler, entre outros, se animem, apoiem ou mesmo sejam convidados a honrar o monstro, sucedendo a primeira ressurreição de há dez anos. Então, agora parece que há só o Wallace retocando erratas com introdução de Dave Eggers, discípulo feliz, quem propõe o livro como dardo / branco perfeito à hora do eterno duelo do difícil contra o fácil.  

Primeira edição de Graça infinita.


O que mudou neste tempo? É claro que a estatura mítica de Wallace, quem segundo Javier Calvo, tradutor de Graça infinita para o espanhol, é hoje percebido como "um Kurt Cobain da literatura, epítome da agonia da criação, congelado em sua roupagem dos anos noventa, não se apagou". O que acontece como nestes casos (de Sylvia Plath a Roberto Bolaño) é que sua obra inteira passa a ser lida com base em sua biografia. Assim, agora, os depressivos tenistas, homens de família e revolucionários presos num filme mortal em Graça infinita com reflexos distorcidos mas fieis – embora sem cair em tiques e taras da autoficção tão em voga – têm seu melhor lugar, embora quando publicada a obra esta já havia se convertido quase num produto de sucesso, potenciado pela pena infinita de seu precoce auto-eject. Isto é, há um olho de cronista social que ao olhar para sociedade como olha recria-a para os de seu tempo e os filhos de seu tempo.

Gesto finito, último e mortal, consequência em parte, talvez, do fracasso assumido de não encontrar a volta a essa outra “coisa grande” que acabou ficando por concluir – O rei pálido. Desde então, Wallace tem habitado memoirs de amigos como Jonathan Franzen e de ex-namoradas como Mary Karr; tem sido o transparente inspirador de personagens embaçadas em romances como Liberdade (de Franzen) ou A trama nupcial (de Jeffrey Eugenides); protagonista de um recente bipic; recopilado póstumo em modo de entrevista ou em peças soltas; sujeito a ser dissecado cada vez mais por numerosos volumes acadêmicos que vão da análise de seus motivos sintáticos e religiosos a questões tratadas pelo chamado pós-modernismo; sujeito de uma biografia que o desmistifica e ao mesmo tempo o engrandece; matéria radioativa a figurar em isolados e numerosos guias de leitura; e até desconstruído e voltado a construção numa versão de Lego a cargo de – detalhe muito wallaceano – um menino de 11 anos que talvez nem exista, quem sabe.

Que desfrutem se, por fim, se atrevem ao seu descobrimento ou redescobrimento. E, certamente, inevitavelmente voltaremos a falar sobre tudo isso em dez anos, quando não haveremos deixado de falar – e, oxalá, de ler a obra de Wallace.

Ligações a esta post:
>>> Leia mais sobre Graça infinita


* Este texto é uma versão de "El chiste inmortal de Foster Wallace cumple 20 años" publicado no jornal El País.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Revisitando Mário de Sá-Carneiro: uma homenagem no ano do centenário da sua morte

Por Maria Vaz



Escrever sobre um grande vulto é sempre assim: difícil. Uma alma que escreve vagueia sempre por mundos envoltos em sentidos, em que as palavras se perdem ou não ecoam a devida intensidade da sua mundividência. Sobra-nos a tarefa de adivinhar, nas entrelinhas daquilo que se disse e se escreveu, um pedaço de céu ou um qualquer brilho que alguém esqueceu. Dito isto, falar de Mário de Sá-Carneiro implica subir e descer as escadas dos deuses e, inevitavelmente, confrontar a iluminação do cume do Olimpo com o submundo de Hades.

Teorias há no sentido de que um homem se resumiria a uma previsibilidade de acontecimentos entre duas datas: o nascimento e a morte. Mas quando falamos de poetas e de poesia, tocamos um mundo do absoluto em que a morte nada significa além da transformação da matéria: o corpo vai, mas ficam as palavras e os sentimentos petrificados em estrofes, combatendo a energia destrutiva de um tempo em que tudo perece. Eles permanecem. Estão condenados à eternidade pela analogia existencial de quem lê. Por mais que milhares de mentes leiam as mesmas palavras e não as compreendam com o seu sentido original, uma ínfima percentagem que o atinja, faz tudo valer a pena.

No fundo, nada nos resta além da negação da racionalidade delimitadora em presumíveis consequencialismos determinantes de uma vida. Por mais que compreendamos as tendências do meio familiar, ou dos meios em que deambulou, não podemos reduzir a vida de um poeta a essas previsibilidades. Previsível é a razão. Falar de um poeta como Mário de Sá-Carneiro implica a compreensão de um mundo caótico de emoções inclassificáveis com palavras banalizadas e, com isso, desprovidas de toda a intensidade com que foram escritas. Implica uma viagem interior. Uma saída da superficialidade em que nos perdemos. Implica um toque de caos e, ao mesmo tempo, alguma razão que nos permita vislumbrar o abismo e recuperar a luz.

Como apontam todas as biografias ‘mainstream’ (daquelas que começam no nascimento e terminam na morte, seguindo uma linha previsível de dados fácticos grafados na ordem do tempo), Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890. Mas as datas são coisas de Saturno. E um poeta incompreendido e boémio pertencerá sempre à imprevisibilidade de Urano: um ser à frente do seu tempo. Com toda a trama em que a melancolia entra em miscigenação com a ansiedade pela libertação, com todos os sentimentos de desajuste social que isso carrega.

frontispício de caderno de poesia manuscrita de Mário de Sá-Carneiro.

Como podemos verificar, o poeta nasceu no seio de uma família abastada, que sempre lhe proporcionou a educação de elite e os prazeres materiais que o dinheiro pode comprar. Não obstante, nunca lhe retiraram a ‘sede’ de qualquer coisa supra-material: um qualquer ‘pequeno nada’ agregador de sentido da existência, que parece ter encontrado e deixado fugir. Veja-se, nesse sentido, um excerto do poema ‘quase’, da sua obra ‘Dispersão’.

Um pouco mais de sol — eu era brasa, 
Um pouco mais de azul — eu era além. 
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 
(…)

Quási o amor, quási o triunfo e a chama, 
Quási o princípio e o fim — quási a expansão... 
Mas na minh'alma tudo se derrama... 
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou... 
— Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, 
Asa que se elançou mas não voou...
(…)


Num impeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

(…)

Desse modo, restou-lhe sempre a procura (do absoluto ou do profundo) e o vazio das respostas em que extasiou o corpo mas não a alma. Afinal, a vida boémia que manteve, quer em Coimbra quer em Paris (onde viveu até à data da sua morte), fomentou os excessos que o álcool e o sexo pelo sexo podem proporcionar: a insensibilidade tão contrária à emoção de que precisava e que, do seu ‘eu’ mais profundo, originou estrofes como as seguintes, do seu poema ‘Como eu não possuo’, também da obra ‘Dispersão’.

Olho em volta de mim. Todos possuem — 
Um afecto, um sorriso ou um abraço. 
Só para mim as ânsias se diluem 
E não possuo mesmo quando enlaço. 
(…)

Quero sentir. Não sei... perco-me todo... 
Não posso afeiçoar-me nem ser eu: 
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu, 
Falta-me unção pra me afundar no lôdo.
(…)

Como eu desejo a que ali vai na rua, 
Tão ágil, tão agreste, tão de amor... 
Como eu quisera emmaranhá-la nua, 
Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!...

Desejo errado... Se a tivera um dia, 
Toda sem véus, a carne estilizada 
Sob o meu corpo arfando transbordada, 
Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria...

Eu vibraria só agonizante 
Sobre o seu corpo de êxtases dourados, 
(…)


Destarte, podemos antever nessas estrofes o vazio do ciclo vicioso que o levou a perecer. Para mim que, tal como o poeta, estudei em Coimbra, torna-se facilmente imaginável a sua vida quotidiana, diurna e nocturna, naquela que é apelidada de ‘cidade do conhecimento’. Facilmente consigo imaginá-lo na euforia das noites em torno da velha Sé. Talvez, na altura, com um copo de traçadinho¹ na mão, enquanto apregoava ideias apenas apreensíveis pelo seu círculo de amigos, em que a profundidade intelectual e emocional seriam proporcionais aos excessos prorrogáveis até ao bater matinal da velha cabra. Por esse motivo, Mário de Sá-Carneiro não conseguiu sequer terminar o primeiro ano em Direito e cedo de desiludiu com Coimbra, pelo que decidiu ir estudar para a Sorbonne, em Paris. Não obstante, foi por essa altura que conheceu aquele que se viria a tornar-se o seu maior confidente, Fernando Pessoa: com quem trocou correspondências até à data da sua morte e com quem chegou a colaborar para a famosa revista Orpheu.  

Talvez, pelo meio dessa vida boémia, tenha escrito alguns dos seus melhores poemas: percalços entre a razão e as emoções, com toques de modernismo impregnados pela análise do ‘eu’ (que, neste caso, é banalmente catalogada como narcisismo e não como uma análise da personalidade e da angústia interna ou das crises de identidade, que jamais o abandonaram).

Fernando Pessoa

Sob o meu ponto de vista, a amizade com Fernando Pessoa encontra-se envolta em compreensões que vão além daquilo que inicialmente os uniu: a poesia. Muitos escreveram sobre essa amizade questionando a orientação sexual de Mário de Sá-Carneiro. Contudo, independentemente dessa questão (cuja resposta certa nunca saberemos, restando-nos a ideia subjectivamente criada pela leitura das cartas que trocaram), em comum parecem ter a indefinição do ‘eu’: enquanto Pessoa dizia (e sabia ser vários), Sá-Carneiro parecia ter essa capacidade, que negava, e lhe causava psicoses existenciais. Verificar isso torna-se curioso, sobretudo devido aos conhecimentos esotéricos de Fernando Pessoa e a todo o semblante misterioso entre o hipotético misticismo ou esquizofrenia, bem como os estudos sobre várias (pseudo)ciências esotéricas. Parece-me nítido que, enquanto Pessoa tinha consciência do ‘eu’ e do ‘outro’, Mário de Sá-Carneiro não a tinha, perdendo-se no caos interior. Fica o mistério do seu poema ‘7’.

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


A partir daí, fácil seria partirmos para o poema que deu nome à sua obra ‘Dispersão’, em que se torna notório o seu conflito interno entre ser um, ser vários e, consequentemente, não saber mais aquilo que efectivamente se é. Fenómeno a que se juntou a carência emocional (talvez pela perda precoce da mãe) e um qualquer síndrome interno de ‘abandono à liberdade do mundo’ que, muito embora  o seu pai pudesse pagar, era desprovida de afecto.

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar,
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
(…)

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).
(…)

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
(…)

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
(…)


Por esse motivo, Mário de Sá-Carneiro, como o próprio definira, sentia-se sempre um “isolado”, um sonhador, alguém em busca incansável de si mesmo. Vejamos o seu poema ‘escavação’.

Numa ânsia de Ter alguma cousa
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh’alma perdida não repousa!

Nada tenho, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo
E cinzas, cinzas, só em vez de fogo...
– Onde existo que não existo em mim?

(…)

Podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que Mário de Sá-Carneiro foi um poeta (e escritor, tradutor, novelista) além do banal, do tradicional. Um modernista. Um inconvencional. Um incompreendido. Um perdido entre os excessos emocionais, a paradoxal incapacidade de sentir e a tentativa de racionalizar as emoções e de compreender o ‘eu’. Alguém sempre quase na catarse, na loucura, no excesso de si mesmo, na obsessão pelo que havia de vir, que nunca veio. Alguém que se perdia na dor e no pessimismo da insusceptibilidade de se compreender. Por tudo isso, não teve qualquer pudor em escrever um conto (‘ a confissão de Lúcio’), em que aborda a perversidade,  o amor homossexual, o crime, a loucura e o suicídio: uma das suas principais obras de rotura com o tradicional.

Um homem como Mário jamais se sentiria confortável fora do seu ‘habitat’ intelectual e boémio. Inconformado com a incapacidade de sentir e incapaz de constância suficiente para superar relações (sexuais) fugazes, em que as emoções eram bloqueadas (talvez por medo de perda); incapaz de se compreender a si mesmo; perdido no caos em que os sentidos se degeneram e original a ‘perda de sentido’ da existência; e, agora, também com problemas de falta de dinheiro, envia a seguinte carta de despedida ao seu amigo Fernando Pessoa.

“Meu querido Amigo. 

A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas «cartas de despedida»... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. [...] 


Mário de Sá-Carneiro, carta a Fernando Pessoa, do dia 31 de março de 1916.”

Anos mais tarde, na Revista Athena, Fernando Pessoa escreveu sobre este nosso eterno Mário de Sá-Carneiro, com carinho (não obstante a invocação de pitadas de filosofia ‘quase ao jeito de Ricardo Reis’), que só não é perceptível pelos distraídos que se perdem nas formas:

“Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.

Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terrafuit.” (…) “Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim.”

Em jeito de conclusão, resta-nos afirmar que Mário de Sá-Carneiro não pode ser catalogado como menos do que uma estrela de brilho intenso, naquela que constitui a constelação eterna dos corpos de poetas que já partiram e que, por isso, objectivaram a sua obra poética, ainda que nunca, por mais que se tente, se consiga objetivizar a sua existência.. Este ano o calendário marca o centenário da morte do nosso poeta, cuja obra jamais morrerá, porque pertence à imaterialidade do mundo das ideias, susceptíveis de eternidade, ainda que a sua vida tenha sido (apesar de tão intensa) tão curta.

O ser humano pode ser óptimo para analisar o seu semelhante, mas nunca conseguiria a imparcialidade necessária para se avaliar a si próprio, pelo ego e pelo subjectivismo viciado da sua ideia de si. E, se calhar, como bem invoca o heterónimo do seu grande amigo Pessoa (Alberto Caeiro): “pensar é estar doente dos olhos”. Ou, como bem afirma Oscar Wilde, no seu De Profundis (livro que se diz que Mário de Sá-Carneiro teria lido antes do seu suicídio):

"(…) reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?”

Notas:

¹ Traçadinho é uma bebida típica em Coimbra. A sua fama serviu, inclusive, de mote a uma música cantada pelas tunas académicas e que dificilmente é esquecida pelos estudantes que por lá passaram.

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sábado, 17 de setembro de 2016

Boletim Letras 360º #184

Machado de Assis preside sessão na Academia Brasileira de Letras

Enquanto fechávamos a edição deste boletim, encontramos a notícia publicada no Estado sobre a descoberta de um livro de Machado de Assis que nunca foi veio a lume (leia mais no fim do boletim). A descoberta alinha-se a outras três feitas recentemente em torno do escritor brasileiro: a da crônica desconhecida em que o autor chora a morte da mãe, a do poema "O grito do Ipiranga" e a desta fotografia, publicada no último final de semana na Folha de São Paulo: trata-se da primeira imagem que se tem notícia de Machado de Assis a presidir uma sessão da Academia Brasileira de Letras. Foi publicada na revista Leitura para todos, de 1905. E só é possível dizer que o escritor está na imagem por causa da descrição apresentada no rodapé que diz ser o escritor o espectro que está entre dois homens, na mesa, à esquerda da foto (cf. marcado). A foto foi encontrada pelo pesquisador Felipe Rissato, o mesmo, que em junho realizou a primeira das três descobertas. O registro mostrado na imagem é o da sessão da ABL que, em 1905, elegeu o escritor Mário de Alencar como imortal.

Segunda-feira, 12/09

>>> Brasil: Na lista de livros esperados para 2016, estava o novo romance de Milton Hatoum; agora com a divulgação das mais variadas publicações para o segundo semestre do ano, nada do escritor

Em entrevista para jornal Correio de Uberlândia o escritor disse que o livro só deve sair mesmo no ano que vem. "Esse ano não vou terminar nada, mas quem sabe ano que vem? Antes que ele acabe comigo", diz. O último romance de Hatoum foi publicado em 2008, Órfãos do Eldorado. E, desde então, trabalha nesse novo projeto que já tem um título provisório: “O lugar mais sombrio”. A obra é dividida em dois volumes: o primeiro é ambientado em Brasília e São Paulo e tem como pano de fundo o período da Ditadura Militar (1964-1985). "São histórias de vida de vários personagens. É uma pesquisa sobre a vida desses personagens. A fórmula é bem diferente dos meus outros romances", adiantou.

A edição crítica de Os sertões que marca a estreia da editora Ubu.


>>> Brasil: Uma edição definitiva de Os sertões, de Euclides da Cunha

A obra seria publicada pela extinta Cosac Naify. E sai agora pela novíssima editora Ubu. O livro em questão, que é sem dúvidas marco fundamental nos estudos sobre a formação do Brasil, foi escrito a partir de um trabalho jornalístico sobre a rebelião de Canudos, liderada por Antonio Conselheiro e duramente reprimida pelo governo. Baseada em teorias deterministas em voga na época, a obra aborda cientificamente a influência do meio sobre o homem, como mostra a própria estrutura dos capítulos: "A terra", "O homem", "A luta". A edição recupera o trabalho crítico de Walnice Nogueira Galvão, e acrescenta uma extensa fortuna crítica, a reprodução de páginas das cadernetas de campo de Euclides da Cunha e um conjunto de imagens de Flávio de Barros, único registro fotográfico conhecido do conflito. Trata-se de uma edição comemorativa publicada por ocasião dos 150 anos de nascimento de Euclides da Cunha.

Terça-feira, 13/09

>>> Rússia: O Google, o estúdio Mosfilm e Museu Mikhail Bulgákov se reuniram para celebrar duas ocasiões especiais: o 125º aniversário de Bulgákov e os 50 anos desde que seu aclamado romance O Mestre e Margarida foi lançado

A ideia é que qualquer pessoa possa fazer um teste para ser narradora de uma parte dessa obra. Por meio do site “O Mestre e Margarida: Eu estava lá”, lançado pelo Google, os interessados conversam em russo com dois dos personagens do romance, Koroviev e o gato Behemoth. Após breve bate-papo, eles decidem qual dos locais do romance mais combinam com o perfil do candidato, que é então teletransportado – seja à mansão de Margarida, um hospital mental, ou um apartamento. Já em seu possível posto, o internauta é então convidado a fazer um teste, isto é, um pequeno vídeo lendo um trecho do romance. Este não é, porém, o primeiro projeto do gênero. Uma leitura online recorde foi realizada em 2014 (cf. divulgamos aqui), quando o romance Anna Karenina, de Tolstói, foi transmitido ao vivo por três dias ininterruptos. O prazo de inscrição para ser um dos narradores de “O Mestre e Margarida” é 5 de outubro. A transmissão ao vivo pelo YouTube estreará o novo formato 360º do Google, que permite ao espectador mudar o ângulo da câmera e observar o que existe ao redor do narrador, e ocorrerá nos dias 11 e 12 de novembro.

Quarta-feira, 14/09

>>> Brasil: Uma caixa com o conjunto de novelas de Corpo de baile, de Guimarães Rosa

Publicado originalmente em 1956 e composto de dois volumes com sete novelas, na segunda edição, o livro foi publicado num volume único e, em edições posteriores, o autor mesmo tornou a dividir esses trabalhos em três livros menores: Manuelzão e Miguilim, com as novelas "Campo geral" e "Uma história de amor"; No Urubuquaquá, no Pinhém, com as novelas "O recado do morro", "Cara-de-bronze" e "A história de Lélio e Lina"; e Noites do sertão. A Editora Nova Fronteira, que trabalhado numa reedição da obra de Guimarães Rosa em edições capa dura, reuniu as três obras numa caixa refazendo a trajetória pensada pelo escritor.

>>> Brasil: Uma reedição (econômica) de O Guesa, de Sousândrade, pela Demônio Negro

Em 2009, o selo editorial havia publicado uma edição para colecionadores da obra: uma recomposição do texto original com ortografia e projeto gráfico oitocentista. Anos depois, o livro ganha uma edição para todos os leitores. O poema épico com 13 cantos e 176 estrofes cujo protagonista é um ser errante em travessia pelo continente americano é uma obra-prima da nossa literatura, embora pouco conhecida e com público bastante restrito dada a fama de texto difícil. A obra inclui prefácio de Augusto de Campos.

Quinta-feira, 15/09

>>> Brasil: Obra com a poesia completa de Oswald de Andrade

O livro integra o trabalho de reedição da obra do modernista pela Companhia das Letras cf. anunciamos por aqui em 2015. A poesia de Oswald de Andrade é de uma atualidade que chega a ser atordoante. O poema-piada, o poema telegráfico, a lírica que reencena — com sátira — nossa história, o deboche, o jogo verbal e a anotação ferina. Em volumes como Pau Brasil, Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade e Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão, Oswald se mostra o “pai” de manifestações como o Concretismo, a Tropicália e a poesia marginal. Além das obras publicadas por Oswald, o volume traz um grupo significativo de poemas nunca reunidos em livro. A edição conta com textos em prosa com apreciações críticas do próprio Oswald e de Carlos Drummond de Andrade, Mário da Silva Brito e Haroldo de Campos.

>>> Brasil: A editora Rádio Londres apresenta mais um romance de Arnon Grunberg

O homem sem doença narra as desventuras tragicômicas no Oriente Médio de Samarendra Ambani, jovem e idealista arquiteto suíço. Sam, como é conhecido pelos amigos, mora em Zurique com a mãe e uma irmã deficiente da qual ele mesmo cuida, e trabalha num pequeno estúdio de arquitetura montado com um sócio. Ao participar de um concurso para a construção de um teatro de ópera em Bagdá, lançado por uma obscura organização internacional chefiada pelo misterioso Hamid Shakir Mahmoud, é selecionado e, posteriormente, convidado para ir ao Iraque. A viagem, iniciada em clima de ingênuo otimismo, rapidamente se transforma em uma experiência traumatizante: no país devastado pela violência, Sam vivenciará a brutalidade da guerra na própria pele: enganado, absurdamente acusado por alguns policiais – que também poderiam ser integrantes de uma milícia – de ser espião, é preso, interrogado e torturado, conseguindo retornar para Zurique graças apenas à inesperada intervenção da Cruz Vermelha. Uma vez em Zurique, Sam tenta retomar a normalidade, mas, ferido no corpo e na mente, não consegue e, pouco tempo depois, viaja para Dubai, a fim de acompanhar o projeto de construção de uma grandiosa biblioteca. No emirado, nosso herói é novamente acusado de espionagem e até de assassinato, acusações que o levarão a um trágico e surreal epílogo. Uma história trágica contada com irresistível ironia, O homem sem doença é um impiedoso ato de acusação contra o idealismo e a hipocrisia do Ocidente, que logra, ao mesmo tempo, divertir e chocar o leitor.

Sexta-feira, 16/09

>>> Brasil: Uma coleção que é marco para a literatura brasileira: as tradicionais histórias orais de quatro etnias indígenas da Amazônia foram cuidadosamente transcritas para o português

O trabalho é fruto de pesquisas de vários colaboradores importantes da área. E o resultado é a Coleção Mundo indígena. São, no total, sete livros de contos vindos das tribos Caxinauá, Guarani, Yanomami e Hupdäh. Mais de cinco centenas de textos com ilustrações e projeto gráfico inovador. Uma publicação da Editora Hedra.

>>> Brasil: Três novos títulos da Elena Ferrante chegam às livrarias entre outubro de novembro

Já falamos aqui sobre a aquisição dos direitos de publicação da escritora italiana pela Editora Intrínseca. É dela, os dois lançamentos para o mês seguinte: A filha perdida é descrito como um relato de verdades dolorosas e perturbadoras. Publicado originalmente em 2006 este é o terceiro romance de Ferrante e é considerado um divisor de águas na sua escrita; o outro é Uma noite na praia, narrativa em que ela retoma o universo do romance agora citado para contar uma fábula sombria a partir do ponto de vista de Celina, uma boneca que é perdida em uma praia. O terceiro título é a tão aguardada continuidade da tetralogia napolitana, que sai pela Biblioteca Azul.

Sábado, 17/09

>>> Brasil: O livro de Machado de Assis que nunca foi publicado.

Essa informação faz parte da descoberta de agora pelo professor Wilton Marques – o mesmo que apresentou o poema inédito “O grito do Ipiranga” (cf. falamos aqui) – da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e divulgada pelo Estado. A descoberta se dá numa ocasião em pesquisa sobre a presença de literatos em jornais. Numa altura lê no Mercantil: “Mais um volume de versos se anuncia, e podemos já dizer mais um poeta se vai revelar. Modesto e muito jovem são, além de felizes inspirações, qualidades bastantes para recomendarem o nome do Sr. Machado de Assis, autor do livro cuja publicação se nos anuncia”. Machado era, então, um garoto de 19 anos. Um ano e meio depois sem que nada tivesse ocorrido, outra menção ao volume, em janeiro de 1860: “Vai publicar-se uma coleção de versos com o título de Livro dos Vinte Anos. O autor é um moço que enceta apenas a carreira das letras. Talento viçoso e original, o Sr. Machado de Assis promete mais um poeta e um prosador distinto no país. Nas poesias ligeiras ou ensaios de prosa que tem publicado até hoje, revela o Sr. Assis qualidades notáveis que recomendam o seu nome. O público receberá sem dúvida o seu livro como merece o talento do autor, que tem tanto de real como de modesto. Na atualidade é uma associação rara”. Um mês e outro anúncio, agora no Correio da Tarde: “Livro dos Vinte Anos por Machado de Assis. Um volume de 200 a 240 páginas; 2$. Assina-se nas lojas de costume e na tipografia do Sr. Paula Brito, onde é impresso”. E 156 anos depois, nunca mais se ouviu falar sobre o assunto. Por que o livro nunca foi lançado? O número de assinantes não foi suficiente para bancar a impressão nesta espécie de vaquinha do século 19? Machado não gostou do resultado do trabalho? Brigou com o editor? Por que nunca se falou nesta obra? Wilton Marques fica com a hipótese da consciência literária de Machado e da mudança de interesse. “Tem uma expressão de Jean-Michel Massa que diz que Machado tinha uma autocrítica vigilante muito forte. Exigia muito do texto na busca de um comprometimento com o dado estético, com a formalidade do texto literário. E por isso ele jogava muita coisa fora”, comenta o professor. Vale lembrar que quando organizou Poesias completas (1901) – porque, como disse em carta ao editor Garnier, queria deixar esta obra como sua bagagem poética –, ele excluiu muitos poemas de outros títulos que ele mesmo tinha organizado. “Esse exercício de autocrítica é muito forte e mais um indício de que ele abandonou o livro”. (Via: Estado)

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