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Obras-primas perdidas e felizmente recuperadas

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A história da literatura está cheia de casos de obras destruídas, censuradas ou extraviadas. Por exemplo, Huckleberry Finn, de Mark Twain, foi objeto de repetidas proibições nas escolas estadunidenses devido ao uso da palavra nigger (negrada), vocábulo que nos Estados Unidos adquiriu um peso semelhante ao que começa a se trilhar nas discussões sobre racismo no Brasil dos últimos anos.
Além da censura, outra pilha de milhões de livros serviu de alimento para o fogo. Nem mesmo nós, de história tão recente, deixamos de ter nosso Fahrenheit 451. Foi assim, no nosso país naqueles anos infernais da Ditadura com obras de Jorge Amado. Mais de mil exemplares de livros seus foram queimados em praça pública pela polícia do regime, em Salvador, enquanto o escritor era levado para a cadeia.
Mas é sobre outra lista igualmente extensa que este texto precisa citar: a de obras que nunca foram sequer publicadas porque foram perdidas, acidentalmente ou conscientemente, e que muitos anos depois vieram …

Baudelaire & Poe, Ltda.

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Por Rafael Ruiz

Leia-me e saberás me amar. Assim adverte Baudelaire seus leitores. E faz, além disso, num dos melhores livros da história da literatura: As flores do mal. Isto de leia-me e saberás me amar sempre me pareceu um convite mágico, desafiante e até corajoso, mas sobretudo triste. Baudelaire foi acima de tudo um necessitado de amor. Desde seu sentimento de dândi, desde seus poemas retorcidos, desde sua fama de depreciar tudo e todos, dá continuamente a impressão de buscar amor no artifício das letras, no jogo de inteligências da palavra escrita. O mesmo ocorre com Poe, um que alguém aprende a amá-lo como pessoa lendo-o. Não leia sua biografia, nem mergulhe em seu anedotário e muito menos no que os seus contemporâneos afirmam que fez ou deixou de fazer. Apenas leia-o e saberá amá-lo. Baudelaire e Poe forjaram um tipo de leitor que poderia entendê-los e estavam seguros de que se alguém os lessem adequadamente os amariam de maneira incondicional. Tinham razão e por isso encontra…

Boletim Letras 360º #211

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Os leitores que acompanham o Letras desde tempos remotos sabem do nosso esforço por oferecer conteúdo de qualidade e a prova disso está no reconhecimento que silenciosamente galgamos dia após dia. Em 2017, marca-se a passagem de 10 anos online. E já agora apresentamos a primeira das novidades para marcar essa data: inauguramos uma nova interface. Ainda na construção dos ajustes, mas com conteúdo integralmente acessível (quer dizer, quase, que ainda há postagens em revisão). Breve anunciaremos a chegada de novos colaboradores. E assim seguimos – até quando formos possível seguir. Aproveitamos para assinalar duas outras boas notícias: sai hoje o resultado da promoção que sorteia um exemplar de A montanha mágica, de Thomas Mann (Companhia das Letras); e a nossa página no Facebook ultrapassou os 61 mil seguidores! Somos muito gratos.
Segunda-feira, 20/03
>>> Brasil: Um livro, dois inéditos: edição reúne textos de Friedrich Schlegel sobre a poesia
O autor foi uma voz determinante …

A situação humana, de Aldous Huxley

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Por Pedro Fernandes


O livro mais conhecido de Aldous Huxley é, sem dúvidas, Admirável mundo novo, considerado nas listas das melhores narrativas distópicas de sempre. Mas, o inglês é autor de uma extensa e variada obra que inclui, entre outros textos, ensaios intervencionistas como os que estão reunidos em A situação humana.
Os textosserviram a um conjunto de conferências oferecidas nos Estados Unidos entre fevereiro e dezembro de 1959 e são de extrema valia por vários aspectos: uma compreensão sobre o pensamento de Huxley sobre o homem e a sociedade; a revelação de uma consciência à frente de seu tempo ao se referir a temas que ainda são muito caros nas pautas políticas contemporâneas; um legado para as gerações futuras sobre novas maneiras de pensar o homem e a sociedade perfazendo o perfil necessário aos novos tempos do intelectual engajado, capaz de responder determinadas questões embaraçosas cujas respostas tratadas pelos especialistas parecem não alcançar um limite fora do pape…

Dez livros escritos sob a influência de drogas

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Existe um velho debate se o uso de drogas psicoativas pode potencializar a inspiração de um escritor, favorecendo sua prosa ou sua poesia, levando-o a jardins alternativos de realidade onde pode fluir o Logos de forma cristalina (língua crisálida) ou se alterar os sentidos é sempre um entorpecimento da lucidez consciente e permanente de quem encontra a claridade na essência inalterável das coisas. A resposta pode se guiar pela primeira alternativa. Utilizar substâncias químicas ou naturais pode aguçar o hemisfério cerebral encarregado de processar a linguagem, chegando por vezes ao aumento da percepção das palavras. Também é evidente que, para muitas pessoas, consumir drogas pode distorcer sua percepção e o abuso inclusive pode fazer-lhes perder a magia natural. De qualquer forma, a relação entre as drogas e a literatura é estreita e por si mesma historicamente estimulante. As palavras, como o cigarro ou os remédios, também são drogas.
Para fins práticos não classificamos o álcool co…

A gênese de O velho e o mar, de Ernest Hemingway

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O velho e o mar é, certamente, um dos textos mais conhecidos da obra de Ernest Hemingway. Foi publicado pela primeira vez em 1952 na revista Life e logo o genial texto se converteu numa das obras-primas do século XX para a literatura estadunidense e valeu ao escritor o Prêmio Pulitzer no ano seguinte. Hemingway ainda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura um ano depois.
O conto imortalizou os mares de Cuba e os pescadores do povoado cubano de Cojimar. “Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele”. Se disse que a personagem de Hemingway – Santiago – foi inspirada em Gregorio Fuentes, o lendário dono do iate Pilar, com quem o escritor saía para pescar.
Outros, por sua vez, preferem suspeitar que o seu verdadeiro modelo foi um velho pescador de Cojimar chamado Anselmo, embora possa ter usado na composição da narrativa e da personagem elementos de Cachi…

A casa de ler no escuro, de Maria Azenha

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Por Pedro Fernandes

A vida pode ser uma mulher atravessando a rua A mulher pode ser uma criança com uma flor de cinzas na boca A flor pode ser um homem enforcado na lua
Os versos que abrem este texto são do poema “Aviso”, do livro A casa de ler no escuro, um dos vários títulos da poeta portuguesa Maria Azenha – este publicado no Brasil e entre os melhores de poesia editados por aqui em 2016. Antes de olhar mais de perto a antologia, é preciso sublinhar que o livro é um pequeno ponto na constelação poética da poeta, porque sua singularidade divide lugar com outros poemas como os reunidos em De amor ardem os bosques.
Neste, há todo um trabalho em torno da palavra que nomeia a obra, o que não chega a constituir o diferencial de A casa, porque aí as preocupações do eu-poético são também outras. Mas, em De amor tudo está alinhado para um só propósito e sua poesia é percepção simbólica em torno de uma palavra, como águas que correm para um mesmo reservatório. Trata-se de uma poesia cujo in…