terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Yves Bonnefoy

Por Álex Vicente



Yves Bonnefoy terminou baixando a cabeça para essa “morte que diz não a toda metáfora”, como escreveu num de seus versos mais enigmáticos. O grande poeta francês, além de ensaísta e crítico de arte, professor universitário, tradutor de William Shakespeare e eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, morreu em Paris aos 93 anos no dia 1º de julho de 2016. Ficou para trás uma vida dedicada à linguagem poética que considerava um instrumento com o qual buscava iluminar a penumbra. Para Bonnefoy, a poesia era uma forma de “libertar as relações entre os homens dos prejuízos, ideologias e ilusões que os empobrecem”.

Autor de um conjunto de obras traduzidas para trinta línguas, Bonnefoy propôs uma poesia ligada à realidade, que desconfiava de abstrações, conceitualismos e dogmas que havia visto fracassar. Temia pela desaparição de uma arte que considerava inerente à experiência de existir e acreditava que, se acontecesse, a própria sociedade sucumbiria. Temia pelo fim da poesia porque ele era sinônimo do fim do mundo. “A poesia faz com que passemos do espírito da possessão, impulsionador de equívocos e da guerra, ao desejo de participação simples e direta no mundo”, explicava. Bonnefoy se debatia entre o materialismo mais prosaico e “a preocupação inata pela transcendência”. Não tinha rejeição pelo lirismo, embora nunca por mero exibicionismo, e perseguiu um alumbramento metafísico a partir do meio natural, onipresente em seus versos. “Amo a terra, o que vejo me emociona”.

Bonnefoy nasceu em Tours em 1923 no interior de uma família modesta formada por um pai operário no setor ferroviário e uma professora de ensino básico. Depois de iniciar seus estudos em Poitiers, mudou-se para Paris em 1943 para se inscrever na Sorbonne. Instalou-se num pequeno apartamento da rive gauche e passou noites inteiras lendo Paul Éluard, Tristan Tzara, Antonin Artaud. Não tardou em aproximar-se do círculo de André Breton e os surrealistas tardios, onde se encontrava o belga Christian Dotremont, célebre por seus hologramas e mais tarde fundou o grupo Cobra. Bonnefoy compartilhava com os surrealistas seu apego “por intensificar a consciência e a palavra” a partir da linguagem poética. Mas sua poesia se inspirava no mundo sensível e diferia da inclinação surrealista pelo sonho, porta de acesso a dimensões paralelas. Por esse motivo, rompeu com o movimento em 1947, embora nunca negou a profunda influência que teve em sua obra.



Meia década mais tarde, Bonnefoy tinha finalizado sua primeira antologia, Do movimento e imobilidade de Douve (1953), a que se seguiram Pedra escrita (1965) e O território interior (1971), mescla de texto autobiográfico e ensaio sobre o Quattrocento italiano. “Frequentemente um sentimento de inquietude me invade ante as encruzilhadas. Parece-me que nesses momentos, que nesse lugar ou quase: aí, a dois passos sobre o caminho que não tomei ... se abre um país de uma essência mais elevada, onde poderia viver e que agora já perdi” – escreveu nesse livro.
Não por acaso, Bonnefoy encontrava na dúvida de Hamlet o fundamento da modernidade. E sentia ressoar em sua cabeça a máxima de seu admirado Rimbaud sobre a insatisfação crônica de tantos mortais: “A vida está noutra parte”.

Outras de suas obras de destaque são Contos em sonhos (1977), Início e fim da neve (1991), A chuva de verão (1999) e As tábuas curvas (2001). Em sua trajetória poética, sobressaem duas certezas existenciais: a morte e a imperfeição. “Amar a perfeição porque essa é o limiar, / E negá-la tão logo se conhece, esquecer a sua morte, / A imperfeição é a maior”, deixou escrito num de seus poemas de 1958.

No seu pequeno escritório, situado em Montmartre, Bonnefoy também trabalhou em seus ensaios sobre a história da arte. Escreveu sobre a arte gótica e barroca, além de assinar obras sobre Goya, Picasso, Mondrian, Giacometti, Balthus e Miró. Outra de suas atividades principais foi a tradução, que equiparava a poesia por basear-se numa transformação da linguagem. Traduziu para o francês uma diversidade de obras de Shakespeare e se aprofundou em aspectos ignorados na leitura do seu teatro, como a representação da mulher a partir das personagens femininas. Fez o mesmo com Keats, Yeats, Petrarca e Leopardi.




Apesar de o Nobel não lhe chegar às mãos, Bonnefoy recebeu outra diversidade de prêmios tão prestigiosos quanto, como o Grande Prêmio de Poesia da Academia Francesa em 1981 ou Goncourt de Poesia em 1987; também obteve o Prêmio da Feira de Guadalajara em 2013. “Os poemas têm significado. Quando se lê um é preciso perguntar à própria experiência, à memória. E a partir daí buscar a interpretação”, disse no seu discurso. Desde 1981, Bonnefoy era professor no Collège de France e ministrou aulas em numerosas universidades da Europa e dos Estados Unidos. Esteve casado com a atriz e escultora estadunidense Lucy Vines, com quem teve uma filha, Mathilde.

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Abaixo, um catálogo com o discurso de Yves Bonnefoy por ocasião da recepção do Prêmio FIL de Literatura e de três poemas do poeta. 


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A poesia de um iconoclasta

Por Pedro Fernandes



O registro de um sismo. Assim pode ser descrita a atitude de Oswald de Andrade em reunir num só volume sua obra poética. Poesias reunidas apareceu pela primeira vez em 1945 e anos depois passou por reedições que incluíram outros trabalhos do gênero produzidos pelo poeta. Assim, a obra agora publicada pela Companhia das Letras num projeto inovador e que acrescenta aos textos então conhecidos muitos inéditos replica as marcas deixadas pela Poesia Pau Brasil e ao mesmo tempo amplia os argumentos que justificam a importância de Oswald para a literatura brasileira. Ao todo, são 22 textos inéditos pinçados de cadernos e folhas soltas que integram o Fundo Oswald de Andrade no Centro de Documentação Alexandre Eulalio da Universidade Estadual de Campinas.

Através do itinerário poético de Oswald é possível perceber algumas marcas caras à nossa poesia como a procura por uma voz original capaz de, ainda longe, ser percebida enquanto tal no âmbito de um projeto literário nacional. Não é o caso de ser esta necessidade um desejo perecível daqueles que o antecederam. Mas Oswald se situa entre os interessados em levar ao limite esse projeto de uma literatura genuinamente brasileira quando decide não apenas pelo tratamento temático de cor local, como era feito por outros poetas, e também a forma e estruturação da obra – algo semelhante ao que muitos outros haviam feito noutras literaturas: Ronsard e Musset na França, Moeriken e Uhland na Alemanha, Chaucer e Burns na Inglaterra ou Whitman nos Estados Unidos, como lê corretamente Paulo Prado no prefácio que escreve para Pau Brasil, o primeiro livro de Oswald.

Pau Brasil é a realização das necessidades apontadas nos manifestos dirigidos pelo poeta paulistano cuja importância sempre aparece reduzida, ao lado da Semana de Arte Moderna de 1922, como desencadeador do modernismo na literatura brasileira. Didatismos à parte, aqueles textos estão muito além desse simples dado historiográfico; eles apontam para a formação de uma teoria e de um pensamento nutridos da mesma força, porém independentes, dos manifestos produzidos na Europa e com os quais o próprio Oswald teve contato antes de voltar ao seu país natal. Isto é, sua ambição estava claramente marcada pelo mesmo desejo impulsivo da febre das vanguardas, ao ponto de reverter os quadros não só da nossa literatura mas da literatura de fora. E se pode dizer que, se esse desejo não se realizou tal como interessava ao poeta – devido as circunstâncias históricas e políticas que condenavam o Brasil ao lugar de submundo da cultura – suas marcas certamente estiveram nas bases de constituição de outros movimentos levados, estes sim, para fora das fronteiras nacionais, como foi com a Poesia Concreta e o Poema Processo.

Os manifestos de Oswald são ainda as primeiras teorizações sobre uma poesia nova e uma leitura antecipada de sua própria obra – a começar com os poemas do livro de 1925. O livro Pau Brasil saiu um ano depois do manifesto de mesmo nome. Nele, o poeta realiza uma série de apropriações, sobretudo temáticas e históricas, e transforma o material numa maneira diversa de se escrever poesia: a nudez do requintado e requentado jogo retórico comum à poética dos salões, a negação da forma pronta para a expressão do poema e a transformação da linguagem literária pelas forças da linguagem comum. O verso breve, destituído da sisudez, por exemplo, incorpora ora a brevidade da fala ora o humor popular, duas condições fundamentais no processo de transformação das formas literárias em qualquer literatura mas sempre tratado como irrelevância para os eruditos de nosso país, sempre compostos de uma elite acomodada em repetir os modelos ultrapassados do que aprendiam de fora e interessados no apagamento da cultura do povo. Não é demais acreditar que a elite intelectual do Brasil responde até hoje pelo crime de massacre da nossa cultura seja porque esteve interessada em filtrar numa bateia os falsos brilhantes seja porque produziu uma literatura postiça e inautêntica – inautêntica porque postiça.

Oswald teria tudo para cair na mesma cilada, mas há ovelhas negras em todo rebanho. Ao invés de se posicionar como um repetidor de formas preferiu insultar a velha elite arrefecida com o colorido tropical e das formas mais simples deu anima a uma linguagem autenticamente nossa, capaz de responder pelo registro de nossas fronteiras culturais dentro e fora do Brasil. Em Pau Brasil, o poeta revisa nossa própria história e com riso desbragado destrona a retórica balofa das versões oficiais. Sabe que a literatura é naturalmente a voz oficiosa – e por isso mesmo a mais genuína de dizer seu povo – e investe nesse trabalho.

A poesia de Oswald é impregnada duma ironia mordaz, cortante, do que ri na cara do covarde e o covarde não percebe o riso. Prova disso é o livro que publicará cinco anos depois do primeiro: Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade. Aqui, o poeta se apropria do julgamento sentenciado pelos eruditos que se riram de sua poesia para produzir um embaraço: não há assunto para a poesia porque todo assunto pode ser assunto de poesia. A volta corrosiva de sua voz contra o dogmatismo artístico-literário aparece num título que nega o livro que o antecede – “primeiro caderno” – e se perpetua pelas páginas seguintes ao misturar a escrita com o desenho livre e o tratamento sobre temas que evocam sua biografia e findam ao voltar aos lugares assumidos pela sua poesia em Pau Brasil.



Esse interesse de revelar a poesia na fronteira com outras expressões artísticas se reanima em títulos como Cântico dos cânticos para flauta e violão, o livro que sucede o de 1927, publicado mais de uma década depois do Primeiro caderno. Neste livro, Oswald roça nos temas mais líricos, produto, ao que parece de certo idílio revelado no livro anterior, e compõe, ainda atento à simplicidade dos dizeres, uma cantiga com tons de narrativa à maneira de uma extensa declaração de amor. É o poeta mais sisudo. Crescido e cansado da pilhéria? Não. Muito provavelmente descansando o riso a fim de revelar-se um aluno adolescente, depois de alfabetizado na escola Pau Brasil (menção ao registro impresso na abertura do livro Primeiro caderno). Ou seja, mesmo sisudo, Oswald rir-se.

A antologia, excluindo os inéditos agora apresentados, é um exercício crítico do próprio Oswald. Leia-se isso ao considerar os Poemas menores, alguns propositalmente datados e logo capazes de levar o leitor às relações com suas obras principais: “erro de português” e “epitáfio”, de 1925, por exemplo, são pela expressão e pela forma, poemas desconsiderados de Pau Brasil. “Hip! Hip! Hoover!”, de 1928, e “Glorioso destino do café”, de 1944, escritos que poderiam ser acrescentados a Pau Brasil e Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade respectivamente. Assim se apresentam, fora os poemas publicados em revistas e não recolhidos pelo autor na visita ao seu itinerário literário, os poemas inéditos agora reunidos na antologia.

A brevidade da obra poética de Oswald patente nos poucos livros que publicou e na dimensão desses livros atestam que sua obra esteve a serviço de um projeto maior: Oswald foi iconoclasta e  como tal seu interesse foi propiciar o levante dos seus contemporâneos a se desapegarem das antigas formas e se mostrarem capazes de levar adiante suas inquietações da maneira mais autêntica possível e assim inaugurar uma nova correnteza de forças criativas no cenário literário brasileiro. Dedicou-se mais a esse propósito que em produzir uma obra prolífica. Esse papel é muito caro à cena de qualquer manifestação artística em qualquer parte do mundo. Sem ele, estaríamos eternamente presos na órbita da repetição vazia. Este é outro acento revelado pela antologia agora publicada. 

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Boletim Letras 360º #206

Aqui estamos uma vez mais com as notícias que foram publicadas durante a semana na página do Letras no Facebook, a cidade virtual que alcança, agora, mais de 58 mil amigos. Ainda sobre números, neste final de semana o blog deve ultrapassar 1 milhão de acessos, recorde que vem em boa hora: neste 2017, o Letras chega aos 10 anos online. Não é tudo?

Marcel Proust está entre nós. Descoberta de vídeo raro revela possível imagem do autor de Em busco do tempo perdido. Mais detalhes ao longo deste Boletim.


Segunda-feira, 13/02

>>> Brasil: O primeiro volume com as canções de Bob Dylan chega às livrarias brasileiras em abril

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2016 e um dos grandes artistas de todos os tempos, Bob Dylan transformou para sempre a música popular americana. Agora, as canções lendárias ganham edição no Brasil e revelam um artista que jamais quis se fixar em fórmulas de sucesso ou em demandas mercadológicas e que experimentou dezenas de caminhos criativos. O primeiro volume traz as letras dos discos de estúdio e das gravações ao vivo, bem como variações, revisões e material inédito dos arquivos do compositor. Os discos deste primeiro volume cobrem os anos de 1961 a 1974 e a edição é bilíngue. O trabalho de tradução é de Caetano W. Galindo.

>>> Brasil: Uma edição especial para As cidades invisíveis, de Italo Calvino

"Se meu livro As cidades invisíveis continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjeturas", assim se refere a este livro o próprio Italo Calvino. O famoso viajante Marco Polo descreve para Kublai Khan as incontáveis cidades do imenso império do conquistador mongol. Neste livro, a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar um símbolo complexo e inesgotável da experiência humana. A Companhia das Letras prepara uma especial para a obra com desenhos inéditos de Matteo Pericoli realizados especialmente para a edição. A edição chega às livrarias em abril.

Terça-feira, 14/02

>>> Brasil: Sai em março o novo romance do Prêmio Nobel de Literatura, Ohan Pamuk

A principal personagem da obra de Orhan Pamuk não costuma ser uma pessoa, mas uma cidade: Istambul. No novo romance não é diferente. A transformação da cidade ao longo de várias décadas é apresentada pelos olhos de um vendedor ambulante, Mevlut, que passeia pelas ruas com potes de iogurte, arroz, ervilha e boza — uma bebida turca típica, feita com trigo fermentado. Nascido num pobre vilarejo, Mevlut sai de casa aos doze anos rumo à cidade grande. Ali começa uma série de tentativas falhadas de estudar, abrir negócios, engajar-se politicamente. Quando chega à meia-idade, todos a seu redor estão de olho nas benesses fugazes de uma Turquia que se moderniza. "Uma sensação estranha" é apresentado como um quadro brilhante da vida entre os recém-chegados que transformaram Istambul ao longo dos últimos cinquenta anos. A tradução é de Luciano Vieira Machado.

>>> Brasil: Prepara-se uma edição da obra poética de Yahya Hassan

O poeta começou a escrever poesia aos 12 anos. Ele é filho de pais palestinos. Nasceu em Aarhus, na Dinamarca. Isso marcou sua vida e, logo, sua obra. O seu único livro Yahya Hassan, que leva o seu próprio nome, é um retrato do que foi sua infância e adolescência foi um grande fenômeno entre os leitores. Agora, seguindo a tendência da busca por sua obra, sairá a edição brasileira pela martelo casa editorial. O anúncio é de que em junho o livro esteja disponível. A tradução do dinamarquês é de Luciano Dutra. Em 2014, escrevemos sobre a obra de Hassan.

>>> Brasil: Uma edição especial de A hora da estrela, último livro de Clarice Lispector que completa 40 anos em 2017

A edição em capa dura e sobrecapa traz seis textos críticos assinados por nomes como Nadia Gotlib, Eduardo Portella, o irlandês Colm Tóibín, a francesa Hélène Cixous, entre outros. Traz ainda um caderno extra com reproduções em fac-símile do manuscrito original de Clarice Lispector e dos últimos bilhetes escritos pela autora. A edição sai em maio pela Rocco. Publicado em outubro de 1977 — Clarice morreu em dezembro do mesmo ano —, A hora da estrela é o romance mais popular da autora, e já foi publicado em 27 países.

Quarta-feira, 15/02

>>> França: Estas podem ser as únicas imagens em filme de Marcel Proust

É o que afirma o professor e pesquisador Jean-Pierre Sirois-Trahan, da Universidade do Québec. O filme de 1904 foi encontrado por ele nos arquivos do Centro Nacional do Cinema, em Paris e mostra o escritor no casamento de uma amiga. A descoberta foi revelada no último número da Revue d'études proustiennes, uma revista destinada aos estudos do célebre romancista. Produzido provavelmente para o arquivos familiar privado da família, a suposta aparição de Proust se dá no 37º segundo, quando um homem sozinho, usando chapéu, desce as escadas da igreja onde acontece a cerimônia. Em seu artigo, Trahan admite que é difícil afirmar com certeza se é mesmo Proust, mas acredita que a silhueta e o perfil correspondem. Outro fator importante é que se trata do casamento de Élaine Greffulhe, filha da condessa Greffulhe, amiga de Proust e principal modelo para Oriane de Guermantes, personagem de Em busca do tempo perdido. Veja o vídeo aqui.

>>> Portugal: O Livro do desassossego e os planos que Fernando Pessoa deixou para a publicação das suas obras ganharão uma edição digital

E deverá estar online nos próximos meses. As duas plataformas, ainda em fase de desenvolvimento, foram apresentadas no Congresso Internacional Fernando Pessoa pelos seus principais responsáveis, Manuel Portela e Pedro Sepúlveda, numa sessão intitulada “Pessoa e arquivo”. A ideia de criar um arquivo digital do Livro do desassossego remonta a 2009, e é a ele que o pesquisador tem dedicado os últimos cinco anos da sua vida. O projeto inicial era o da criação de uma edição digital que representasse as edições do Livro de Jacinto Prado Coelho, Teresa Sobral Cunha, Richard Zenith e Jerónimo Pizarro (a mais recente), permitindo “perceber como é que os editores tinham construído estas edições” e estabelecendo um comparação entre elas e os documentos do espólio pessoano. Porém, Portela acabou por optar por uma abordagem diferente — a de transformar Pessoa num Pessoa do século XXI e o Livro do Desassossego numa “obra que é lida por computadores", por máquinas”. A edição online do planejamento editorial irá reunir 400 documentos.

Quinta-feira, 16/02

>>> Alemanha:  Federico García Lorca, figura-chave de um documentário sobre a repressão a homossexuais, lésbicas e transexuais nos anos da ditadura franquista

Bones of contention, de Andrea Weiss, tem estreia mundial no Festival de Berlim. Trata-se de um filme em que se cruzam três histórias: a luta pela recuperação da memória histórica centrada em encontrar 120 mil corpos de vítimas enterradas em valas comuns; a repressão aos LGBTQ durante esses bárbaros anos da ditadura franquista; e o assassinato de Federico García Lorca, linha que perpassa as duas primeiras, visto que o poeta foi morto por ser “homossexual e comunista”, cf. descreve um boletim policial de 1965 que só veio a lume há dois anos e cujos restos mortais, depois de todos os esforços, nunca foram localizados.

>>> Brasil: A Biblioteca Azul traz mais uma edição da obra da escritora Alice Munro 

Em O progresso do amor, a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2013, volta a oferecer aos seus leitores a simplicidade e a maestria que renderam o reconhecimento extraordinário à sua escrita. Uma mulher divorciada que retorna para a casa de sua infância, onde ligações profundas se confrontam com a memória de seus pais. O cuidado dos adultos com as crianças e a fragilidade que permeia a relação com a verdade entre pais e filhos. Um jovem rapaz que, ao se lembrar de um aterrorizante incidente da infância, tem um embate com a responsabilidade que assumiu pelo seu desafortunado irmão caçula. Um homem leva a namorada a uma visita à sua ex-esposa, apenas para se sentir próximo novamente de sua parceira distante. Nesses e em outros contos, Alice Munro prova mais uma vez ser uma sensível e apaixonada cronista de nosso tempo. A tradução é de Pedro Sette-Câmara.

Sexta-feira, 17/02

>>> Brasil: Já não faltarão edições Bartleby, um dos contos mais conhecidos de Herman Melville

A Ubu Editora reconduzirá às livrarias a tradução de Irene Hirsch publicada em 2005 pela antiga Cosac Naify de Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street. Atualmente outras duas edições circulam entre os leitores brasileiros: uma de 2014, da Grua Livros, na coleção Arte da Novela, com versão de Bruno Gambarotto (Bartleby, o escrevente); outra de 2015, da Autêntica Editora — Bartleby, o escrevente: uma história de Wall Street, numa tradução de Tomaz Tadeu. Neste ano, a José Olympio (cf. anunciamos aqui) também publicará sua edição: Bartlevy, o escrivão, uma antiga tradução, a de A. B. Pinheiro de Lemos que antes foi publicada na coleção "Sabor literário". O livro que serviu de leitura a nomes como Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Giorgio Agamben e que influenciou escritores como Jorge Luis Borges é responsável por nos colocar diante de uma das personagens mais enigmáticas da literatura, antevisão do absurdo e da melancolia da vida moderna.

>>> Brasil: Sai em março Um amor incômodo, de Elena Ferrante, obra descrita como "uma história perversa e delicada sobre mãe e filha unidas por um complicado nó de mentiras e emoções"

Aos quarenta e cinco anos, Delia retorna a sua cidade natal, Nápoles, na Itália, para enterrar a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas: a humilde costureira, que se acostumou a esconder a beleza com peças simples e sem graça, usava nada além de um sutiã caro no momento da morte. Revelações perturbadoras a respeito dos últimos dias de Amalia impelem Delia a descobrir a verdade por trás do trágico acontecimento. Avançando pelas ruas caóticas e sufocantes de sua infância, a filha vai confrontar os três homens que figuraram de forma proeminente no passado de sua mãe: o irmão irascível de Amalia, conhecido por lançar insultos indistintamente a conhecidos e estranhos; o ex-marido, pai de Delia, um pintor medíocre que não se importava em desrespeitar a esposa em público; e Caserta, uma figura sombria e lasciva, cujo casamento nunca o impediu de cortejar outras mulheres. O livro sai pela Intrínseca e tradução é de Marcello Lino.

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O complexo de Portnoy, de Philip Roth

 Por Pedro Fernandes




Um grito desbocado contra um sistema fabricado para punir seus indivíduos. Esta é uma só das possibilidades de leitura do romance que se inscreve entre os primeiros – e logo entre os que projetaram o nome do escritor Philip Roth. Publicado no final da década de 1960, nele se condensa todo o espírito de rebeldia nascido anos antes num Estados Unidos que embora tenha vendido a imagem de símbolo da liberdade sempre foi um país retrógrado, no sentido moral e dos costumes, e opressor, contra todos aqueles que divergem do status quo determinado pelo ideal social imposto pelo poder.

Philip Roth não ataca abertamente esse modelo social porque está imbuído do espírito artístico de não se revelar abertamente sobre o que repudia – a estratégia não é burlar o poder, mas de rir-se dele e não ser acusado de romancista panfletário. O resultado é uma arma de alta precisão indispensável desde sempre: quando da sua publicação e muito depois, porque ainda que os EEUU resolvam seu grande complexo, este será um retrato indispensável para olhar o passado desse país. Nisso reside a perspicácia da grande obra literária.

Mas, de que maneira, Roth, tece suas implicações sobre os danos causados pelo modelo social estadunidense? O romancista recorre a outro modelo e é a partir de sua caricatura que o leitor mais atento logo perceberá que a crítica é não especificamente ao modelo usado e sim ao modelo inferido. A narrativa principia como uma tentativa de biografia de uma personagem e acaba por ser apenas um amontoado de situações que não respondem pelo propósito. Isto é, também estrutural e formalmente, o leitor se encontrará diante de um projeto narrativo frustrado – confluindo tema, estrutura e forma para um só propósito: aviltar uma sociedade incapaz de responder pelos atos e sem quaisquer perspectivas de sair das estreitas linhas que desde o alvorecer da história se fazem desenhadas.

A biografia do indivíduo como impossibilidade se apresenta de maneira diversa no romance: ora é o fato de uma existência irrelevante, se considerarmos que a vida que melhor se ajusta ao ideal biográfico é aquela cuja existência se pontua por situações extraordinárias e no caso de Alexander Portnoy, o narrador do romance, seu maior feito está nas tentativas de romper com a moral fabricada pela família judaica; ora é o caso de não estarmos diante da tradicional figura interessada em tornar crível sua existência mas encontrar em qual ponto de sua história reside a gênese de seu complexo. O que o leitor encontra é um homem de meia-idade recriando determinadas passagens de sua vida para um psicanalista, num discurso que tateia entre a memória e a invenção. Se por um lado, reforça-se o imperativo sobre qual existência é melhor biografada, por outro, lida com a possibilidade fornecida pela psicanálise desde Freud segundo a qual o que nos define são as histórias que vivemos e, logo, todos temos nossas próprias biografias. Embora para o psicanalista tais histórias possam nos servir de iluminação para percebermos quais são os lugares nevrálgicos de nossos dramas.

O drama de Portnoy – ou seu complexo, para fazer jus ao título da obra – reside na impossibilidade de se libertar da culpa, primeiro imposta e depois autoimposta, de suas atitudes como indivíduo e cidadão. Seu complexo está em não conseguir precisar onde estão os limites entre a vida comum, privada, e a vida pública. Se isso revela uma verdade universal – a que responde por uma compreensão da vida fabricada entre a verdade e a desfaçatez, por assim dizer –, instala um dilema, quando o sujeito se vê incapaz de transitar entre uma linha e outra seja porque queira a vida pública tal como a vida privada e vice-versa. Esse drama parece se manifestar claramente no exato momento quando o indivíduo começa suas experiências sexuais. A vida sexual, uma das dimensões que se oculta, e a vida comum, existir como se o que se oculta não fizesse parte de nós, coloca o indivíduo ante esse complexo. Se em grande parte superamos – o que talvez não seja uma verdade concreta – Portnoy é alguém cuja existência parou presa nesse dilema. E dada sua formação de estreita regra não consegue deixar de compreender tudo o que faz na dimensão privada como um impeditivo para o que não dá certo fora dela, além do sentimento de culpa que sucede suas ações.



Como esse complexo individual é tornado coletivo ou metonímia sobre a relação indivíduo-sociedade? A mãe de Alex é a perfeita encarnação das forças deterministas do sujeito social – o esforço para a consolidação de um modelo padrão consistiu na repreensão e na punição, desde os imperativos da religião e a invenção do pecado aos do Estado e a invenção das leis, tudo são, instrumentos de controle, autodomesticações da existência gerido por outro grande padrão, o de que somos criaturas racionais. É pela razão que Alex questiona como a razão o tornou sujeito frustrado e incapaz de conviver com suas próprias obsessões e aqui o nome da razão é Sophie:

“Era minha mãe que era capaz de fazer qualquer coisa; ela própria tinha de reconhecer que talvez fosse boa demais. E como um menino com a minha inteligência, com meus poderes de observação, poderia duvidar dessa avaliação? Ela sabia fazer, por exemplo, gelatina com fatias de pêssego suspensas dentro, pêssegos que simplesmente flutuavam, desafiando a lei da gravidade. Ela sabia fazer bolo com gosto de banana. [...] Vigiava o açougueiro ‘como um gavião’, para usar suas próprias palavras, para que ele não deixasse de passar no moedor kosher a carne que ela comprava. Telefonava para todas as mulheres do prédio que tinham pendurado roupa na corda dos fundos – até mesmo para a gói divorciada do andar de cima, num dia em que estava particularmente magnânima – dizendo que era para ir correndo pegar a roupa, que uma gota de chuva tinha acabado de cair na nossa vidraça. Que radar, aquela mulher! E isso antes mesmo de inventarem o radar! A energia que havia nela! O perfeccionismo! Examinava todas minhas contas para ver se não havia nenhum erro; minhas meias, à procura de furos; minhas unhas, meu pescoço, todas as dobras de meu corpo, à procura de sujeira. Chega mesmo a dragar os recantos mais inacessíveis de meus ouvidos derramando água oxigenada gelada dentro deles.”

“Quando me comporto mal, sou trancado do lado de fora do apartamento. Fico esmurrando a porta sem parar, até jurar que vou me corrigir. Mas o que foi que eu fiz? Engraxo meus sapatos numa folha de jornal da véspera cuidadosamente estendida no chão de linóleo; depois jamais esqueço de deixar bem tampada a lata de graxa e guardar direitinho todo o equipamento no lugar certo. Sempre aperto o tubo de pasta de dentes bem junto à base, escovo os dentes com movimentos circulares, nunca na vertical, digo ‘obrigado’, digo ‘de nada’, digo ‘desculpe’ e sempre peço: ‘posso?’ Quando Hannah não pode porque está doente ou porque saiu, com sua latinha azul, para recolher dinheiro para o Fundo Nacional Judaico, sempre ponho a mesa, mesmo não sendo a minha vez, colocando a faca e a colher do lado direito, o garfo do esquerdo, o guardanapo à esquerda do garfo, dobrado de modo a formar um triângulo. Nunca misturo milchiks com flaishedigeh, nunca, jamais, em tempo algum”.

Toda a vida de Alex estará marcada pela tentativa de negar esse passado da infância – ainda que se sinta marcadamente atraído por ele por encontrar uma maior coerência subjetiva ante sua vida desde a adolescência, quando começa propositalmente sua revolta contra o modelo familiar. E uma das maneiras de negação é mostrar-se integrado ao mundo comum ainda que nele só encontre, apesar do encanto que também desenvolve por ele, mais frustrações. Alex Portnoy é, deste modo, um sujeito em exílio autoimposto por não se compreender integrado em nenhum dos modelos sociais disponíveis.

Assim, além de sublinhar as implicações de um modelo social que fabrica sujeitos incapazes e frustrados, Roth tem o privilégio de tornar universal o traço que mostra em relevo em O complexo de Portnoy, que é a cisão entre judeu e o mundo comum, tornando essa diferença uma distinção entre eu e o mundo que funciona, em primeiro plano, como crítica sobre o modelo implicado na formação nacional e – uma vez a obra se projetar para além das fronteiras de seu país –, acrescentamos, uma crítica ao modelo de formação da civilização ocidental. Está no potentado das dicotomias a grande falha do Ocidente e é pela natureza do impasse que Roth constrói uma maneira de revelar isso. Isto é, O complexo de Portnoy finda por dizer, como todo importante romance, um pouco do que de nós se esconde, sobretudo se pensamos no quanto o denominador sexo, por todo exercício de cerceamento do desejo, deixou de ser uma maneira de libertação dos corpos para servir de instrumento de controle. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Elle, de Paul Verhoeven

Por Pedro Fernandes



Quem lembrar de Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, seu filme mais famoso, logo buscará associações entre a protagonista vivida por Sharon Stone e a vivida por Isabelle Huppert em Elle. São mulheres realmente tomadas pela condição de autênticas num mundo em que as leis do machismo imperam radicalmente apesar de todas as transformações porque passaram os direitos das mulheres. Mas não foram saídas do mesmo útero, quando o assunto é o da condição existencial e de que maneira elas se tornam protagonistas de si.

A personagem de Instinto selvagem atende ao lugar do mundo burocrático e existe para testar os limites de corrupção do homem em nome do simples imaginário de dominação sobre o sexo oposto, enquanto Michèle, a personagem de Elle, é a burocrata que, marcada desde a infância por uma tragédia que a evidencia como figura da cadeia dos monstros, busca, primeiro compreender essa outra imagem imposta de si e segundo mover-se pelo pântano dos seus medos mais profundos – essa condição, aliás, é a que coloca ao lado de Catherine.

Elle lida com emoções difíceis e busca expor o lado oposto daquilo que socialmente preferimos negar a encarar de frente. Apesar de Verhoeven negar as influências psicanalíticas na composição da narrativa, o espectador dificilmente conseguirá desfazer esse vínculo. Primeiro, pela estreita aproximação e recusa entre pai e filha; segundo, por oferecer uma personagem presa na realização de se ver um dia estuprada, dominante do pensamento selvagem que calhou em resquício no imaginário inconsciente da mulher.

É, sobretudo, nessa segunda linha onde reside toda a sorte de subversões – a começar pelo tratamento dado sobre a violência sexual. Não raras vezes é possível encontrar o argumento de que a narrativa suavizou as linhas hediondas e mesmo a imagem do estuprador. O que não é verdade. Primeiro, porque a relação que se instaura entre a vítima e o homem é marcadamente envolta por uma condição de autodescoberta ou provocação de frente de seus medos: se no início Michèle se utiliza como barreira, para sua justificativa social, do passado trágico para não recorrer à polícia sobre o estupro, depois, a revisita do acontecimento e como essa personagem passa a ser vigiada panopticamente pela ameaça de recorrência do crime, transforma a relação com o acontecido em fetichismo sexual ou a maneira de, ao seu modo, encontrar as causas da atitude do estuprador.

Isto é, antes da negação do estupro – como é feita diariamente pelas campanhas contra a violência – a narrativa investiga essa atitude violenta como algo do comportamento capaz de se mostrar em homens e mulheres. Primeiro neles porque o imaginário do estuprador está marcado pelos sedimentos culturais do falocentrismo, o de captura e dominação da fêmea. Na mesma linha de raciocínio, a violência, como toda forma do gênero, se mostra como vias de escape para o que nos resta, em grande grau, do instinto – esse que controlamos da maneira mais diversa possível, seja através da religião, seja através das leis, desde a constituição do império da razão.

Trocando em miúdos a teoria freudiana, quando criança, a menina tende a se aproximar do pai numa autoprojeção da mãe e o deseja, ao ponto de, na idade adulta, na morte dele, buscar relacionar-se com homens que preservem as características paternas. Evidentemente que as constatações de Freud há muito são questionadas e repensadas por outra grade de interpretação, sobretudo, a partir da constituição de uma teoria feminista. Mas, aqui, o espectador de Elle não sabe quais os pormenores envolvidos no bárbaro crime cometido pelo pai de Michèle, quem presencia os acontecimentos e quem será mais tarde, assim como sua mãe, acusada de cúmplice. Entretanto, sabe que a maneira como a personagem encara o estupro e estuprador é uma projeção desse imaginário sedimentado dos acontecimentos na infância. Que digam a constante recusa do pai e a tardia morte – aqui, em duplo sentido – para só então uma plena libertação da mulher. Não é o caso de dizer a insanidade de que Michèle desejasse, desde sempre, ser estuprada, mas o inconsciente de ser dominada pelo pai é todo aflorado quando se vê envolvida no acontecimento do estupro e pelo suspense que se torna a ameaça de tudo se repetir novamente.

Elle não deixa de denunciar – algo que já se marca noutras produções francesas – a doença que socava os pilares do ocidente: as sexualidades não vividas, sublimadas ou reprimidas. Os diferentes discursos sempre se pautam na recusa do corpo como máquina desejante (a alfinetada de Verhoeven sobre a religião é exemplo disso) e na transformação dos sujeitos, desde a maneira como lidamos sobre o sexo com crianças ou na velhice, em assexuados. As revoluções sexuais que significaram alguma mudança nos padrões de repressão e na constituição do sexo como meio de prazer e não ato de manutenção da espécie foram insuficientes no processo de reordenamento das repressões e, se brincar, estamos mais caretas que nossos avós. Uma sociedade reprimida é uma sociedade doente, porque o trabalho do repressor é, diferentemente de Michèle quem ousa descobrir as liberdades que se mostram, transformar a vida do outro no inferno que é a sua. Em pequeno grau, isso justificaria a atitude do estuprador; em grau mais amplo, a renovação das mesmas formas de autoritarismo e interesse pela dominação dos corpos.

Preso ao tratado pela narrativa de Verhoeven, é possível entender que há uma luz na escuridão: as mulheres são protagonistas de uma possibilidade frente à sociedade porque dotadas de uma relação com o instinto mais cara que o homem são as capazes de, no caos, abrir clareiras possíveis antes de se estabelecerem confortavelmente no potentado da negação como passamos a ser adestrados deste o advento à plena consolidação do modelo de razão com o qual erguemos uma civilização já agora à beira do fim. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Os livros favoritos de Gabriel García Márquez


Muito já foi falado sobre a obra do grande escritor latino-americano Gabriel García Márquez, quem com sua narrativa cativou o mundo com histórias de sua terra natal, a Colômbia, e apresentou ao mundo toda a América Latina. Mas, em sua autobiografia Viver para contar, o colombiano revela outros detalhes sobre sua vida que despertam no leitor uma viagem ao passado e que são tão importantes quanto a sua literatura.

Num valioso exercício narrativo, García Márquez nos conta os detalhes sobre a infância e adolescência que determinaram sua vida; e é aí que o leitor aprecia uma das facetas mais desconhecidas do escritor: quais os livros que marcaram e fizeram sua formação literária.

García Márquez gostava de ler os grandes da literatura, sempre se deixava levar pelas recomendações de seus amigos, como faz com a descoberta da grande literatura estadunidense (Hemingway, Dos Passos, Faulkner, sua obsessão) e aproveitava os instantes do dia em que não estava escrevendo ou mesmo muito antes de escrever para preencher com bons livros. Foi assim que, com o passar dos anos, conheceu obras relevantes, capazes de influenciar e definir seus interesses criativos bem como na modelagem do seu estilo narrativo. Ao longo de sua autobiografia, o escritor menciona alguns desses livros que marcaram sua vida e em vários casos especifica os detalhes por trás de seus interesses – noutros, apenas especifica os títulos.

Nesse balanço se constrói a lista agora apresentada. Chamamos atenção para a sinceridade de Gabo e a elegante maneira de compartilhar conosco os detalhes íntimos de sua vida leitora capazes de permitir aos seus leitores o encontro com uma nova figura e, como toda leitura influencia o trato literário, com outras luzes sobre sua própria obra. 

- Ulysses, de James Joyce
“Jorge Álvaro Espinosa, um estudante de Direito que me ensinara a navegar na Bíblia e me fez aprender de cor os nomes completos dos companheiros de Job, colocou-me num dia em cima da mesa um calhamaço intimidante e sentenciou com a sua autoridade de bispo: // – Está é a outra Bíblia. // Era, claro, o Ulisses de James Joyce, que li aos bocados e aos tropeções até que a paciência não me chegou para mais. Foi uma temeridade prematura. Anos mais tarde, já adulto domesticado, entreguei-me à tarefa de relê-lo a sério e não só foi a descoberta do mundo próprio de que nunca suspeitei dentro de mim, como também uma ajuda técnica inapreciável para a liberdade da linguagem, o manejo do tempo e as estruturas dos meus livros”.

A metamorfose, de Franz Kafka
“Veja chegou uma noite com três livros que acabara de comprar e emprestou-me um ao acaso, como fazia com frequência para me ajudar a dormir. Mas dessa vez conseguiu o contrário: nunca mais tornei a dormir com a serenidade de antes. O livro era A metamorfose, de Franz Kafka, na falsa tradução de Borges publicada pela editora Losada, de Buenos Aires, que definiu um novo caminho para a minha vida desde a primeira linha e que hoje é um dos grandes monumentos da literatura universal [...] // Ao terminar a leitura de A metamorfose ficaram-me as ânsias irresistíveis de viver naquele país alheio. O novo dia surpreendeu-me na máquina portátil que o próprio Domingo Manuel Veja me emprestava, para tentar algo que se parecesse com o pobre burocrata de Kafka transformado num besouro enorme”.

As mil e uma noites
“[...] quando cheguei ao Montessori, a professora não me ensinou os nomes mas sim os sons das consoantes. Assim pude ler o primeiro livro que encontrei numa arca poeirenta da arrecadação da casa. Estava descosido e incompleto, mas absorveu-me de uma forma tão intensa que o namorado da Sara, ao passar, deixou cair uma premonição aterradora: ‘Caramba! Este menino vai ser escritor!’ // Dito por ele, que vivia de escreve, casou-me uma grande impressão. Passaram vários anos antes de saber que o livro era As mil e uma noites. O conto de que mais gostei – um dos mais curtos e mais simples que li – continuou a parecer-me o melhor para o resto da minha vida, embora agora não esteja seguro de que fosse lá que o li nem ninguém tenha podido esclarecer. O conto é este: um pescador prometeu a uma vizinha oferecer-lhe o primeiro peixe que pescasse se ela lhe emprestasse um chumbo para a sua rede e, quando a mulher abriu o peixe para o fritar, tinha dentro um diamante do tamanho de uma amêndoa. // [...] ao recapitular a minha vida, recordo que a concepção que tinha de conto era primária apesar dos muitos que tinha lido desde o meu primeiro assombro com As mil e uma noites. Atrevi-me a pensar que os prodígios que Xerazade contava aconteciam de verdade na vida cotidiana do seu tempo e deixaram de acontecer devido à incredulidade e à covardia realista das gerações seguintes. Pela mesma razão, parecia-me impossível que alguém dos nossos tempos voltasse a acreditar que se podia voar sobre cidades e montanhas a bordo de um tapete, ou que um escravo Cartagena de Índias vivesse castigado duzentos anos dentro de uma garrafa, a menos que o autor do conto fosse capaz de fazer com os seus leitores acreditassem nisso”.

– A cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe
“Foi uma pena não ter ainda lido os novos romancistas norte-americanos, que mal começavam a chegar até nós, mas tive a sorte de o doutor Vélez Martínez começar com uma referência casual a A cabana do pai Tomás, que conhecia bem desde o bacharelado. Apanhei-o pelo ar. Os dois professores devem ter sofrido um ataque de nostalgia, pois os sessenta minutos que estavam reservados para o exame foram passados na íntegra numa análise emocional sobre a ignomínia do regime escravagista no Sul dos Estados Unidos”.

Moby Dick, de Herman Melville
“Gustavo Ibarra, com a sua visão compassiva do coração caribenho, divertiu-se com o meu relato da noite em Barranquilla, enquanto me dava colheradas cada vez mais cordatas de poetas gregos, com a expressa e nunca explicada exceção de Eurípedes. Fez-me descobrir Melville: a proeza literária de Moby Dick, o grandioso sermão sobre Jonas para os baleeiros curtidos em todos os mares do mundo sob a imensa abóbada construída com costelas de baleias”.

A casa das sete torres, de Nathaniel Hawthorne
“[Gustavo Ibarra] emprestou-me A casa das sete torres, de Nathaniel Hawthrone, que marcou para toda a vida. Tentamos juntos uma teoria sobre a fatalidade da nostalgia no vaguear de Ulisses, na qual nos perdemos sem saída. Meio século depois, encontrei-a resolvida num texto magistral de Milan Kundera”.

Édipo rei, de Sófocles; “A pata do macaco”, de W. W. Jacobs; Bola de sebo, de Maupassant
“O meu reduzido interesse pelos estudos foi mais reduzido ainda depois da nota de Ulises, sobretudo na Universidade, onde alguns dos meus condiscípulos começaram a dar-me o título de mestre e apresentavam-me como escritor. Isto coincidia com a minha determinação de aprender a construir uma estrutura ao mesmo tempo verossímil e fantástica, mas sem brechas. Com modelos perfeitos e esquivos, como Édipo rei, de Sófocles, cujo protagonista investiga o assassinato do pai e acaba por descobrir que é ele próprio o assassino; como ‘A pata do macaco’, de W. W. Jacobs, que é o conto perfeito, onde tudo o acontece é casual; como Bola de sebo, de Maupassant, e tantos outros grandes pecadores que Deus tenha no seu santo reino”.

Luz em agosto, de William Faulkner
“Éramos os únicos passageiros, talvez em todo o trem, e até esse momento não havia nada que me despertasse um verdadeiro interesse. Mergulhei no torpor de Luz em agosto, fumando sem tréguas, com rápidos olhares ocasionais para reconhecer os lugares que íamos deixando para trás. // [...] Eu tinha comprado no porto uma boa provisão de cigarros dos mais baratos, de tabaco negro e com um papel a que pouco faltava para ser de embrulho, comecei a fumar à minha maneira de então, acendendo um na beata do outro, enquanto relia Luz em agosto, de William Faulkner, que era então o mais fiel dos meus demônios tutelares”.

A montanha mágica, de Thomas Mann
“Os bons tempos começaram com Nostradamus e O homem da máscara de ferro [Alexandre Dumas], que agradaram a todos. O que ainda hoje não entendo é o interesse estrondoso por A montanha mágica, de Thomas Mann, que exigiu a intervenção do reitor para impedir que passássemos a noite acordados à espera de um beijo de Hans Castorp e Clawdia Chauchat”.

O velho e o mar, de Ernest Hemingway
“A leitura inesperada de O velho e o mar, de Hemingway, que chegou de surpresa na revista Life espanhola acabou de restabelecer-me dos meus quebrantos”.

Greguerías, de Ramón Gomez de la Serna
“Por outro lado, chamava-lhe a atenção que Ramón Gómez de la Serna me interessasse tanto que o citava em ‘La jirafa’ a par de outros romancistas incontestáveis. Esclareci que não o fazia por causa dos seus romances, pois além de El chalet de las rosas, de que gostara muito, o que dele me interessava era a audácia do seu engenho e o seu talento verbal, mas apenas como ginástica rítmica para aprender a escrever. Nesse sentido, não recordo um gênero mais inteligente do que as suas famosas greguerías”

A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson; O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas
“Era o diretor. Chama-se Juan Ventura Casalins e lembro-me dele como de um amigo de infância, sem nada da imagem aterradora que tínhamos dos professores da época. A sua virtude inolvidável era tratar todos como adultos iguais, embora ainda hoje me pareça que se ocupava de mim com uma atenção especial. Nas aulas costumava fazer-me mais perguntas do que aos outros e ajudava-me para que as minhas respostas fossem certeiras e fáceis. Permitia-me que levasse os livros da biblioteca escolar para ler em casa. Dois deles, A ilha do tesouro e O conde de Monte Cristo, foram a minha droga feliz naqueles anos pedregosos. Devorava-os letra por letra, com a ansiedade de saber o que acontecia na linha seguinte e, ao mesmo tempo, com a ansiedade de não saber para não quebrar o encanto. Com eles, como a As mil e uma noites, aprendi para não mais esquecer que só deveriam ler os livros que nos forçam a relê-los”.

Dom Quixote, de Cervantes
“Em contrapartida, a minha leitura do D. Quixote mereceu-me sempre um capítulo à parte, porque não me causou a comoção prevista pelo professor Casalins. Aborreciam-me as tiradas sábias do cavaleiro andante e não achava a menor graça as burradas do escudeiro, a ponto de pensar que não era o mesmo livro de que tanto se falava. No entanto, disse a mim mesmo que um professor tão sábio como o nosso não podia se enganar, e esforcei-me por engoli-lo às colheradas, como um purgante. Fiz outras tentativas no bacharelado, onde tive que o estudar como tarefa obrigatória, e fiquei a detestá-lo sem remédio até que um amigo me aconselhou que o pusesse na prateleira do banheiro e tratasse de lê-lo enquanto cumpria os meus deveres cotidianos. Só assim o descobri, como uma deflagração, e o saboreei da frente para trás e de trás para a frente até recitar de cor episódios inteiros”.

Outros livros referidos na autobiografia de García Márquez

O povoado, O som e a fúria, Lance mortal, As palmeiras selvagens, de William Faulkner
Reiteradas vezes, García Márquez cita a importância de Faulkner para sua formação: “Nessa altura eu tinha lido tudo o que pudera encontrar da Geração Perdida, em espanhol, com um cuidado especial para Faulkner cujo rastro seguia com um sigilo sangrento de navalha de barbear devido ao meu estranho receio de que afinal não fosse mais do que um retórico astuto”; “Os que melhor recordo eram os de William Faulkner: O povoado, O som e a fúria, Lance mortal e As palmeiras selvagens”.

Contraponto, de Aldous Huxley
Manhattan Transfer, de John Dos Passos
Ratos e homens e As vinhas da ira, de John Steinbeck
O retrato de Jennie, de Robert Nathan
A estrada do tabaco, de Erskine Caldwell
“Mas, ao contrário dos que li no liceu de Zipaquirá, que merecem estar num mausoléu de autores consagrados, estes líamo-los como pão quente, recém traduzidos e impressos em Buenos Aires depois da longa interrupção editorial da Segunda Guerra Mundial. Assim descobri para sorte minha os já muito descobertos Jorge Luis Borges, D. H. Lawrence e Aldous Huxley, Graham Greene e Chesterton, William Irish e Katherine Mansfield”.

Orlando Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf
“Álvaro mostrou-me os seus livros favoritos, em espanhol e inglês, e falava de cada um com a voz oxidada, os cabelos despenteados e os olhos mais dementes do que nunca. Falou de Azorín e Saroyan – duas fraquezas suas – e de outras cujas vidas públicas e privadas conhecia até em cuecas. Foi a primeira vez que ouvi o nome de Virginia Woolf, que ele chamava a velha Woolf, como o velho Faulkner. O meu espanto exaltou-o até ao delírio. Agarrou na pilha dos livros que me mostrara como seus preferidos e colocou-os nas mãos.

– Não seja parvo – disse-me, leve-os todos e quando acabar de os ler vamos busca-los seja onde for.

Para mim eram uma fortuna inconcebível que não me atrevi a arriscar sem ter sequer um tugúrio miserável onde os guardar. Por fim conformou-se em oferecer-me a versão espanhola de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, com o prognostico inapelável de que ficaria a sabe-lo de cor”.

“Foi assim que foi publicada a minha primeira nota na primeira página de El Heraldo de Barranquilla, a 5 de janeiro de 1950. Não a quis assinar com o meu nome a fim de me precaver para o caso de não conseguir acertar o passo, como aconteceu em El Universal. Não pensei duas vezes o pseudônimo: Septimus, tirado de Septimus Warren Smtih, o personagem alucinado de Virginia Woolf e Mrs. Dalloway.”

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