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Mickey 17: excêntrico, multipolar e sobrecarregado

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Por Alonso Díaz de La Vega Em uma circunstância extraordinária, me senti forçado a assistir a  Mickey 17 (2025) uma segunda vez para escrever sobre o filme. Minha primeira impressão não foi de uma película incompreensível ou difícil, mas apenas sobrecarregada e, portanto, confusa. Ao longo de quase 140 minutos, pelo menos 30 são dedicados a explicar um mundo que depois desaparece da tela: Mickey Barnes (Robert Pattinson), um “dispensável” — como são chamados em 2054 os trabalhadores de alto risco dispostos a serem clonados com a memória intacta — nos conta nesta meia hora os muitos detalhes de sua vida, suas decisões e seu contexto. Na verdade, o título do filme aparece em vinte minutos depois de ouvirmos como Mickey e seu amigo Timo (Steven Yeun) se envolvem com um agiota que empresta pelo prazer de cortar com uma serra os que não lhe pagam; como o fracasso deles com uma loja de macarrão os obriga a fugir para o espaço, e como Mickey, que não possui habilidades nem muita int...

Selma Lagerlöf, a ficção como uma forma de espiritualidade

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Por Elena Enríquez Fuentes Selma Lagerlöff em cena de documentário dirigido por Gardar Sahlberg. Quem nunca se deparou com uma situação sem saída? A garganta fica obstruída, o estômago grita, os olhos lacrimejam, as mãos se fecham em punhos, a vulnerabilidade é dor corporal. Selma Lagerlöf diz, através da voz de uma de suas personagens: “O ser humano é mais forte do que acredita e mais frágil do que imagina.” À medida que mergulhamos na biografia e na obra dessa escritora, percebemos profundas conexões entre ficção, fantasia e experiência de vida.   Lagerlöf nos lança um feitiço e, por meio de sua magia, convida-nos à transformação. Todos nós sabemos sobre perdas, mas as mulheres, os homens, as crianças e os animais na sua obra usam o sofrimento como uma maneira de expandir os limites corporais, ampliarem a consciência, tornarem-se mais sensíveis, perceberem mais e melhor estar abertos à compreensão.   Talvez as maiores paixões da escritora sueca fossem escrever e sua te...

Exposição Quasi-Corpos

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Por Eduardo Galeno Lygia Clark. Máscara abismo, 1967. Portal LC (Reprodução) Gullar referenciou o movimento contemporâneo nos rastos da conceituação de quasi-corpo . A pergunta é: o que vem a ser?   Fenomenologicamente, isso se situa na representação da representação, naquilo que é formado no seio da sua aparição concreta como fuga. A obra aparece, no mínimo, “despedaçada”. O hiato entre arte e vida fica cada vez menor e daí parte para ser hierarquizado intencionalmente no solo da vertigem obscura, alinhado de modo negativo um ao lado do outro.   Pensemos no brilhante ensaio de Rosalind Krauss, “A escultura no campo ampliado” (1979), e ressaltemos o ponto central do que seria um quasi-corpo na primeira frase do texto: “o único sinal que indica a presença da obra é uma suave colina, uma inchação na terra em direção ao centro do terreno”. A sinalização de Perimeters/ Pavillions/ Decoys (Mary Miss, 1978) vaza blocos de similitude, mas eles são serializados na amplidão semióti...

Cinco poemas de Robert Penn Warren

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Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões) Robert Penn Warren. Foto: Joel Katz     (VII) CONTA-ME UMA HISTÓRIA ( Audubon: A Vision , 1969)   [A] Há muito, no Kentucky, eu, um rapaz Junto duma estrada de terra batida, ouvi, no crepúsculo, O grito dos gansos selvagens rumando ao norte.   Não os conseguia ver, não havia lua no céu E as estrelas eram escassas. Escutava-os.   Não sabia o que se estava a passar dentro do meu coração.   Era a época antes do sabugueiro florir, E eles voavam para norte.   O som passava por mim rumo ao norte.   [B] Conta-me uma história.   Neste século, e momento, de loucura, Conta-me uma história.   Que seja uma narrativa de grandes distâncias, de luz estelar.   O nome da história será Tempo, Mas não deverás pronunciar o seu nome.   Conta-me uma história de encantar.     UM FALCÃO À TARDINHA ( Can I See Arcturus From Where I Stand? , 1975)   De plano em plano de luz, as asas mergulhand...

Boletim Letras 360º #632

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DO EDITOR   Olá, leitores! Ainda estamos à procura de apoiadores para o Letras que queiram concorrer a um exemplar de Morte em pleno verão , de Yukio Mishima. Aproveite o lembrete e se inscreva para o sorteio. Saiba todos os detalhes de como participar, por aqui . Um excelente final de semana para vocês! Elfriede Jelinek. Foto: Sophie Bassouls LANÇAMENTOS Primeira seleção de peças da autora austríaca, cuja obra, apesar do prêmio Nobel de Literatura de 2004, continua pouquíssimo conhecida .   Elfriede Jelinek: do texto impotente ao teatro impossível  traz para o leitor brasileiro um recorte representativo do seu estilo. As seis peças até agora inéditas por aqui foram selecionadas, traduzidas e apresentadas por Artur Sartori Kon. São elas: “Doença ou mulheres modernas”, “Faust(a) (não tá): drama secundário ao Fausto Zero”, “País.nas.nuvens”, “As implicantes”, “Rechnitz (O Anjo Exterminador)” e “Sem Luz”. E estão divididas em três partes (Problema de gênero, Nós do discurso ...

Da tela ao texto: Pieter Bruegel e Louis-Ferdinand Céline

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Por Amanda Fievet Marques Pieter Bruegel. O triunfo da morte  (detalhe).   O mundo às avessas. Teatro de um mundo apocalíptico, caótico, arruinado pela guerra e dominado pela loucura e pela morte. Uma multidão de vivos se embrenha num caixão, enquanto a morte — um esqueleto com uma foice —, comanda sobre um cavalo esquálido a transformação dos vivos num exército de mortos, esqueletos com lanças por detrás de esquifes.   Essas linhas traçam uma breve descrição de uma cena do quadro O triunfo da morte (1562/1563) , do pintor holandês do século XVI, Pieter Bruegel, mas poderiam muito bem evocar a obra literária do escritor francês do século XX, Louis-Ferdinand Céline. Resguardadas as diferenças entre os meios de expressão e os contextos históricos, há também nos romances de Céline a onipresença da guerra, cenários infernais, assim como o domínio da morte e da loucura.   Céline declara, inclusive, numa carta a Henri Mahé do dia 10 de janeiro de 1933, sua admiração pel...